100 Censura: O Falso Moralismo…

1979

Há dias nas minhas deambulações pela indústria, fui confrontado com um protesto público que surgiu depois de uma antevisão do jogo Battlefield 3. Aparentemente numa das missões deste jogo é necessário assassinar uns agentes da polícia a troco de informações do paradeiro de uma bomba atómica em Paris.

E pronto… estalou o verniz da opinião pública… Mas que verniz é este, tão selecto no meio em que se manifesta estalar e que tão prontamente usa critérios dúbios. Um videojogo é uma arma, mas um filme, série de TV ou mesmo uma reportagem em palco de guerra já não é? Vi pessoas a rir de contentes a matar Muhammad Kadafi, vezes sem conta até à exaustão, numa ode depravada de morte… mas ninguém soube calar ou tirar as imagens do ar? É que aquilo não era um jogo, pessoal… era realidade…

Este foi o mesmo verniz que estalou há uns poucos anos atrás com a célebre polémica do nível “No Russian” de Modern Warfare 2 em que tínhamos de passar por um terminal de aeroporto abrindo fogo aos inocentes transeuntes do mesmo. Mesmo depois da Infinity Ward ter colocado este nível como opcional e até ter colocado a opção de o poder passar sem disparar um único tiro contra civis, a polémica só parou quando as vendas abafaram as queixas, contribuindo o hype gerado para tornar MW2 num dos jogos mais vendidos de sempre.

Neste caso de BF3, a DICE e a EA respondem forma lógica. Algo que nem sempre surte o efeito pretendido dada a falta QI de muita classe jornalística hoje em dia. Se os jornalistas alcançaram o que a EA disse com “Há uma bomba atómica em Paris e há milhões de vidas em perigo” e depois parte em busca da razoabilidade mencionando que há decisões mais “maduras” (e não propriamente sangrentas) que elevam o carácter de realismo e diminuem a linha que separa a brincadeira de um videojogo da realidade, penso que não ficou patente, porque as diversas reacções ao que a EA disse demonstram que continuavam afincadamente a afirmar que o jogo não devia ser tão brutal, e etc…

Penso que é preferível que um jogo nos toque para entendermos o grau de dificuldade de muitos operacionais em palcos de guerra por todo o mundo, que colocar panos quentes e apresentar uma força militar toda perfeita que só mata insurgentes, quando sabemos das atrocidades da guerra e das faltas de humanidade praticadas por aí.

Mas nem que isso fosse apenas acessório no mundo dos videojogos, viveríamos muito bem se os telejornais não tivessem pejados de imagens de violência, se as salas de cinema não tivessem cenas de incrível violência verbal e visual mas que apesar de merecerem uma ou outra linha num parágrafo a demonstrar desgosto, pouco ou nada interferem na sua divulgação.

Agora em jogos, não. Parece que a censura persiste no mercado dos videojogos, mesmo olhando em volta de vendo filmes onde policias são alvejados, são eles próprios corruptos, se isso aparece num jogo é mau… toca de criar um movimento anti-jogo… Mas porquê?

Será porque os jogos terão sempre uma conotação infantil? Para que serve então a norma PEGI? Será que isso não funciona porque os pais simplesmente estão-se a marimbar para a norma que foi criada para eles? É capaz…

Gostava de ver este tipo de insurgência que por vezes impede lançamentos como o que aconteceu com Grand Theft Auto IV proibido numa série de países, ou o já mencionado MW2, com o mercado de Hollywood ou com séries de televisão ou mesmo com os jornais televisivos. Não! Quanto mais realista, sangrento e ofensivo, melhor… Menos em jogos, que ironicamente se aproximam cada vez mais do realismo de Hollywood. Mas afinal há dois mercados para o entretenimento?

De uma forma global sou contra a escalada de violência, agora condensar a censura no vulnerável mercado dos videojogos, só porque não está pejado das influencias financeiras de Hollywood ou pela máquina dos média mundiais, recuso aceitar. Não é bem aceitar a violência como forma de protesto, mas sim insultarem a inteligência do jogador por achar que este não é suficientemente responsável para jogar um jogo sem ser influenciado e por achar que uma criança vai jogar um jogo PEGI 18 se os pais tem poder de o proibir… Para assim ser, teriam de ter esse nível de censura com TUDO… mas depois viriam os lobbies e aí a censura tinha vida curta…

Já aqui falámos do grau de culpabilidade dos pais no “embelezamento” da guerra. Não façam os temas descerem ao grau de infantilidade de há alguns anos. Sem realismo, os jogos morrem na praia.