Mais infoProdutora: Ryu Ga Gotoku StudioEditora: SEGALançamento: 18/06/2019Plataformas: Género:

Embora pertença ao mesmo universo de jogos da lendária série Yakuza, este título do Ryu Ga Gotoku Studio não é só mais uma parte dessa franquia. Judgement sobreve por si só, num spin-off que, ainda assim, partilha imensos elementos com essa outra série.

Jogar estes títulos aqui no ocidente, é como um acto de voyeurismo. Sim, podemos dizer que qualquer actividade cultural ou de entretenimento vinda da terra do Sol Nascente, é como um prato exótico que nunca provámos, tem um sabor esquisito a peixe cru, mas também não conseguimos parar de comer. Considero-me fã da série Yakuza, tendo o privilégio de jogar quase todos os títulos dessa série, entre os clássicos, os recentes Kiwami (remasterizações) e até os novos lançamentos. Por isso, fiquei curioso por jogar este título desde que foi anunciado. Aqui estava um jogo familiar, mas que tirava toda a aura mais “colorida” da série Yakuza, dando-lhe um tom mais “noir” num policial sombrio. Tudo isto sem perder todo aquele wasabi no lado do prato. Alguém me dê os chopsticks!

De volta ao lendário bairro de Kamurocho em Tóquio, o detective Takayuki Yagami é um homem em busca de vingança. O pretexto de investigar uma série de crimes de assassinato, é também uma ocasião para Yagami, igualmente advogado, exercer um papel de justiceiro. Além de perseguir os verdadeiros culpados dos crimes e da sua traição no passado, também quer limpar o bairro da escumalha criminosa. Nem que para isso, tenha de desancar meliantes ao murro e pontapé, entre as diversas fases em que se dedica a investigar casos e reunir provas de crimes. Sim, este é um daqueles exemplos dos “exageros” dos heróis de filmes policiais Japoneses, agora glorificado em formato de videojogo.

O que dizer desta história? A perspectiva de um detective/advogado/justiceiro é francamente diferente no que toca a abordar o sub-mundo do crime nipónico. A história não gira tanto em torno de actividades ilícitas da máfia Japonesa, mas na investigação de crimes no outro lado da Lei, como devem calcular. Muitas das missões são nesse sentido, como já irei explicar. Contudo, lá pelo meio, há imensas tarefas e actividades para passar o tempo, inclusive com missões de amizade e de namoro. Tal como Yakuza, deambular por Kamurocho é uma visita virtual à estranha cultura nipónica, que também tem imensas curiosidades para dar longevidade ao jogo, com muitos “nadas” muito além da história principal.

Uma boa parte da acção é passada em missões de detective. Em muitas fases do jogo, vamos andar a tirar fotografias, perseguir suspeitos, interrogar testemunhas e até a arrombar fechaduras. Embora na maioria do tempo o jogo seja jogado na terceira pessoa, em algumas destas secções mais peculiares, temos uma perspectiva na primeira pessoa, por exemplo quando precisamos identificar elementos num grupo. A secção de perseguição pode ser apenas de seguir alguém (que curiosamente olha para trás de tempos a tempos, instinto?) ou então de literalmente partir no seu encalço enquanto foge. São cenas de pura “apanhada” que só pecam por um ou outro quick time event que, francamente, não gosto.

Quem sabe das melhores partes nestas investigações, são os diálogos. Gosto particularmente que seja possível jogar com as vozes dobradas em Inglês, nem que seja pelas subtilezas das frases, em diálogos que considero muito bem escritos. Podemos reunir indícios muito concretos nos diálogos, estabelecendo paralelos com outras provas que já tenhamos reunido. Contudo, a envolvência só fica completa com as vozes originais em Japonês, uma opção bem vinda. Uma vez mais, é no casting de actores deste jogo (que inclui algumas vedetas do entretenimento Japonês) e no guião muito bem escrito que conseguimos ver a história tomar forma. Mas, nem tudo é conversa, obviamente…

Gostarão de saber que o combate neste jogo está bem ao nível da franquia em que se inspira. Baseia-se particularmente na fórmula de Yakuza 0, dando-nos uma lógica de combos, com dois estilos de artes marciais diferentes (“Crane” para grupos e “Tiger” para combates individuais). Considero este combate relativamente simplificado na maioria dos encontros, sobretudo contra grupos nas primeiras horas. Como os encontros são bastante frequentes, acabamos por dominar os principais golpes em poucos minutos. Contudo, é bom que se inteirem bem do ritmo e dos estilos marciais, porque quando chegarem os complicados bosses, vão ter de se aplicar bastante para não desatar a correr em apuros.

É que não basta só dar murros e pontapés com estilo. Temos de aproveitar tudo o que o jogo nos dá, nem sempre de forma linear. A fórmula de combate também tem movimentos específicos de bloqueios, desvios e contra-golpes, além dos já conhecidos golpes contextuais, onde podemos iniciar um ataque com um objecto de cenário, por exemplo. A árvore de evolução, depois, também permite aumentar o número de golpes e truques disponíveis para o nosso herói desancar meliantes das formas mais inventivas. E notem que há muitas coisas que influenciam a vossa prestação em combate, como o consumo de álcool, por exemplo, que até nos dá golpes novos para surpreender os adversários.

Nos intervalos da pancadaria, como já mencionei, temos muitas missões e actividade de passar o tempo. É até possível dar largas à formação de Yagami e voltar ao escritório de advogados. E, sim, podemos à mesma apostar numa lógica Role Play, por simplesmente deambular pelo popular bairro de Tóquio a almoçar mais um prato de noodles, ou passar tempo nas casas de arcadas a jogar Virtua Fighter. Uma vez mais (vou-me repetir, eu sei), esta é uma das melhores formas de mergulhar nesta cultura sem sair de casa. E quando já sabemos de cor onde estão alguns locais neste bairro emblemático, é sinal que andamos nesta série há demasiado algum tempo.

O design deste jogo é também algo positivo para destacar. Uma vez mais, continuamos com o mesmo estilo semi-fotorealista da série Yakuza, em cenários e modelos visuais com muita atenção ao detalhe, numa representação fiel de pessoas e locais. Contudo, aqui o intuito foi claramente levar este jogo para o tal ambiente dos filmes noir policiais, onde nem falta o narrador a dar conta dos eventos que se passam jogo. Beneficia claramente dos avanços tecnológicos vistos nos jogos mais recentes (Yakuza 6), embora nas fases de combate (e não só) sejamos recordados que é um jogo de fantasia, ora não víssemos efeitos visuais coloridos num pontapé. É o que esperava, realmente.

Veredicto

Quando interrogado sobre Judgement, o director criativo de Yakuza Toshihiro Nagoshi explicou que “a localização e recursos podem ser iguais, mas a jogabilidade e a história são drasticamente diferentes”. De facto, não há melhor explicação do que este jogo nos traz. Imaginem a fórmula de culto que nos trouxe Kazuma Kiryu, mas troquem este protagonista por um detective que investiga crimes de forma cerebral, um justiceiro na rua que desanca meliantes em busca de vingança e ainda tem tempo para gastar moedas nas arcadas. É mesmo um jogo obrigatório para quem é fã de franquia Yakuza, mesmo que a jogabilidade seja, de facto, tão distinta.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.