Fruto da ambição da visão Soviética de criar máquinas de guerra robustas, multi-funções, fiáveis e capazes de lançar o medo no inimigo, o Миль Ми-24 é um helicóptero de ataque que ainda hoje equipa várias forças aéreas em todo o mundo. A Eagle Dynamics levou a sério o legado do último projecto de Mikhail Mil, trazendo-nos o DCS: Mi-24P Hind para o DCS World.

Convenhamos que este helicóptero é muito peculiar. É um autêntico “tanque voador”, um veículo de ataque robusto, capaz de levar muito armamento ar-chão para combater forças terrestres. No mundo do DCS World, infelizmente, os helicópteros não são a principal “atracção”, tendo mesmo algumas lacunas em seu redor, como a falta de elementos de combate terrestre para os justificar. Ainda assim, temos excelentes simulações de rotativos para apreciar. O novo Mi-24 vem inserir-se mesmo no meio de outros dois helicópteros Russos já existentes no simulador, o DCS: Mi-8 MTV2 e o DCS: KA-50 Blackshark. O primeiro sendo um helicóptero pesado de transporte que “empresta” muitas lógicas e sistemas ao Hind e o segundo tem praticamente o mesmo papel no campo de batalha. Mas, os argumentos do Hind são mesmo únicos.

O projecto para conceber o Hind começou pelo próprio Mikhail Mil nos anos 60. A ideia do regime Soviético era criar um veículo aéreo de combate e transporte de tropas, um conceito ainda hoje algo complexo demais para uma só plataforma. Alguns helicópteros de transporte também podem levar armamento para suporte próximo mas não são plataformas dedicadas a esse papel. Mil tinha a ideia genial de fundir os dois conceitos num só, mesmo que o projecto passasse por diversas dificuldades na sua execução. Em 1969 o primeiro Hind elevou-se nos céus, revolucionando a aviação rotativa de combate para sempre. Mikahil Mil ainda viu o seu projecto ganhar asas, mas faleceu no ano seguinte sem assistir à sua entrada em serviço.

E que serviço! O Hind não perdeu muito tempo a entrar em acção em 1977, na altura pelo governo da Etiópia. Ao longo de décadas, tem sido protagonista em muitos outros conflitos, em especial durante a guerra fria. O palco de guerra mais famoso foi no Afeganistão, na guerra entre a União Soviética e os Mujahideen em 1979. Ainda hoje o Hind está no activo, tanto na sua versão Mi-24, como a versão de exportação Russa, Mi-35. Ao todo, 49 nações voam o Hind, incluindo o Brasil, Angola e Moçambique. O maior uso, obviamente, é dado pela Rússia, operando este “tanque voador” em conjunto com outros helicópteros de ataque mais recentes. Sim, é o único helicóptero de ataque com capacidade nativa de transporte de tropas e com capacidades de defesa contra armas químicas.

Não, não exagerei nesta afirmação. O Mi-24 é o mesmo o único helicóptero de ataque ao solo que consegue levar soldados a bordo (4 lugares actualmente, originalmente 8). Poderão afirmar, por exemplo, que o Huey fez isso mesmo na guerra do Vietnam mas a versão “gunship” desse helicóptero tinha de ser adaptada para carregar munições no interior, com os assentos removidos e pouco peso extra para soldados. Outros helicópteros de transporte, como o já mencionado Mi-8, de facto, carregam armas de suporte próximo mas não possuem armas guiadas ou tripulação dedicada ao ataque ao solo. No fundo, são helicópteros de transporte com alguma munição para ajudar num ataque. Se o fazem de forma convincente, porém, fica a dúvida.

A versão escolhida pela ED para o simulador é o Mi-24P, também conhecido por “Hind-F”. Esta variante é considerada um “meio-termo” nas capacidades operacionais possíveis nos Hind modernos. Opera uma série de foguetes, bombas e casulos de canhões nas asas mas a sua “estrela” é o míssil guiado AT-6 Spiral (ou 9M114 Shturm) anti-tanque. O que o distingue da outra variante mais popular do helicóptero, o mais conhecido Mi-24V, é o canhão duplo lateral fixo de 30mm, em vez da metralhadora móvel de 12,7mm no nariz. Tecnicamente, este canhão GSh-30-2K é mais poderoso em poder de fogo mas é algo limitador da operação do helicóptero, uma vez que obriga a orientar o helicóptero na direcção do alvo para mirar.

Em termos operacionais, porém, este é o mesmíssimo Hind que já vimos em muitos palcos de guerra, até mesmo em filmes. Sendo um helicóptero de porte médio/pesado, tem uma envergadura imponente de quase 20 metros, com as suas duas asas características, que servem para levar várias configurações de armamento (e não só) e duas portas laterais para os tais passageiros ou para 2400 Kg de carga. A sua principal característica é a velocidade, capaz de atingir mais de 330 Km/h (180 nós), aliada a uma estabilidade única gerada pelas suas asas laterais que geram mesmo sustentação. O seu alcance também é invejável, com 280 milhas operacionais reportadas.

Mas, a suas fragilidades surgem mesmo desses seus pontos positivos. Por ser um helicóptero de porte médio/pesado a pensar na velocidade, não será nunca o mais manobrável. Por outro lado, por tentar ser o melhor de dois mundos, não é o mais eficaz em nenhum desses papéis. Enquanto helicóptero de ataque, é limitado ao ataque em várias passagens, não conseguindo fazer ataques pairando ou em ângulo lateral (por limitação do armamento escolhido). Enquanto veículo de transporte, a sua limitação de espaço não o faz a melhor escolha para a maioria das operações, tendo sido mais usado para assaltos de operações especiais na vida real.

No DCS World, porém, conhecemos outras limitações desta plataforma. Essas limitações, notem, não são causadas nem pelo simulador, nem pela concepção deste módulo. Estando ainda em acesso antecipado nas próximas semanas e meses, sim, tem algumas faltas e omissões de sistemas que serão adicionados ao longo do seu desenvolvimento. As limitações que falo, contudo, são de conceito, essas da responsabilidade da Mil Helicopters e dos seus engenheiros. Convenhamos que, se lermos a história deste helicóptero, iremos concluir que foi o governo Soviético que gerou muitas das limitações na plataforma. O sacrifício de alguns sistemas (por questões económicas, sobretudo), aliados a adaptações de outros já existentes, levou a um design muito estranho.

O mais gritante destes sacrifícios, é o sistema de periscópio dos mísseis anti-tanque. O operador de armas no cockpit frontal tem de se sentar de lado, olhando para uma mira periscópica montada no queixo lateral direito do helicóptero, efectivamente tornando essa a sua operação exclusiva enquanto estiver a olhar por essa mira. Como devem imaginar, a coordenação entre piloto e operador é essencial. Assim, a implementação desta operação no DCS World depende de dois pilotos experientes e que comuniquem bem para levar o helicóptero a direito, inclinar o nariz para o alvo e, dentro da mira, ordenar o disparo do míssil, mantendo o ângulo aproximado durante o seu trajecto, tornando o helicóptero algo vulnerável em cada passagem.

Sabendo que muitos dos pilotos virtuais do DCS World voam a solo, porém, a Eagle Dynamics criou um sistema de pilotagem e operação de armas virtuais, uma inteligência artificial que baptizou de “Petrovich”. Este piloto sintético pode controlar o helicóptero no banco de trás se estivermos à frente a disparar os mísseis ou, ao contrário, operar os mísseis enquanto voamos o helicóptero. Para isso, temos dois menus distintos, com interacção simples, baseada numa mira móvel ou num menu lateral. Não é muito realista, convenhamos, mas é bastante prático e o Petrovich faz muito bem o seu papel, com poucas questões a precisar de ajustes. Já vimos algo semelhante com o famoso “Jester” no DCS: F-14 Tomcat da Heatlbur, aqui é bastante mais simples, porém.

A maior parte dos pilotos achará mais interessante voar no banco de trás, onde aliás tem todos os sistemas críticos… menos os mísseis anti-tanque em si. Sim, o operador de armas é o único que pode disparar estes mísseis, podendo também disparar as restantes armas e até pilotar o helicóptero em caso de necessidade (mas não operar outros sistemas críticos). Para isso, temos o Petrovich a dispará-los, deixando tudo o resto para nós. E notem que há muito para fazer neste banco de trás, desde o início de motores, as manobras e navegação propriamente dita, além do emprego dos canhões laterais que têm de ser mirados pelo piloto de forma fixa.

O cockpit de comando do Mi-24P é complexo, cheio de botões e selectores, como qualquer outra aeronave da era Soviética. Muitos acharão tudo muito complexo, enquanto que outros dirão que ter um botão para praticamente tudo é uma vantagem. Desde os “circuit breakers” nas laterais, com simpáticas manivelas para os ligar todos de uma vez, até à instrumentação analógica e muitos elementos redundantes, tudo foi incrivelmente modelado até à exaustão pela Eagle Dynamics, recorrendo a manuais e acesso directo ou indirecto a pilotos e helicópteros reais. O que falta modelar neste módulo é muito pouco e nem sequer é essencial. Bom, talvez só painel de indicação de munição a bordo mas sabemos que virá em breve.

Já o cockpit frontal é bem mais limitado em equipamento e sistemas. Basicamente, o operador de armas tem umas quantas opções de controlo e uns poucos instrumentos de voo, dependentes dos sistemas do banco de trás. Os seus comandos de voo estão bloqueados até que sejam solicitados. Não podemos ligar ou desligar motores ou sistemas eléctricos, enfim, o operador só voa o helicóptero em casos pontuais ou emergências. O seu foco está no enorme periscópio e volante de controlo dos AT-6 e os painéis de armamento adjacentes. E notarão que não tem espaço nem sequer para esticar as suas pernas… É lidar, camaradas!

Em termos de capacidades, temos disponível quase todas as lógicas e armamento disponíveis para esta variante do Hind, incluindo foguetes não guiados, casulos de armas, bombas de queda-livre e bombas de fragmentação (“clusters”). Tem todos os sistemas eléctricos, hidráulicos, combustível, protecção de fogo, rádio e até um piloto automático que é até capaz de controlar a aeronave a pairar ou a seguir rumos. É mesmo possível seguir checklists da aeronave real, com umas poucas limitações que não são possíveis de recriar em ambiente simulado. Na maioria dos casos, as dinâmicas de voo e tempos de operação estão fiéis à realidade.

Infelizmente, nesta fase de acesso antecipado, não temos a cabine de passageiros/carga modelada, algo que será implementado mais tarde, até mesmo para criação de missões com uso de tropas e de metralhadoras laterais. Embora tenhamos o cockpit Russo e traduzido para inglês, no futuro, teremos também vozes de comando do Petrovich e alertas sonoros em várias línguas. Também há planos para rever o sistema de falhas e danos para o tornar mais extensivo e realista. Nos planos, está ainda a capacidade de içar carga, mais pinturas, uma campanha a solo e, mais interessante, mísseis anti-tanque mais pesados e até mísseis ar-ar estão planeados.

Pegando no Hind para o voar, temos acesso a uma plataforma robusta e cheia de carisma. Este é um helicóptero muito peculiar que parece mesmo um “primo afastado” do Mi-8. Contudo, apesar do aspecto semelhante das duas aeronaves, o Hind não é muito parecido com o Hip em termos de controlo. É uma aeronave francamente estável, sim, mas a transição entre voo estacionário e cruzeiro (e vice-versa) é uma “ciência” a dominar. Os efeitos adversos de torção e inércia são francamente intolerantes e precisam ser dominados antes de se tentar fazer seja o que for. Especialmente no acto de aterrar, algo que terão de fazer em andamento (como um avião) antes de dominar o “hover” ou se a aeronave estiver pesada.

O combate em si exige também alguma atenção às limitações da aeronave. Não por causa das armas usadas, sendo perfeitamente linear o uso de foguetes ou canhões e até das suas bombas. A limitação tem a ver com a sua fraca capacidade de viragem, que obriga a fazer passagens a direito, largar munição, dar uma volta larga e repetir a passagem. Diria que o Hind é óptimo a atacar a alta velocidade e a direito mas é péssimo a manobrar para reiniciar a manobra ou até para desviar de ameaças. Pairar para disparar em segurança ou de lado, está fora de questão, uma vez que todas as armas de disparo precisam de mirar com o nariz por serem fixas, inclusive os mísseis anti-tanque. É, claramente, uma plataforma que exige dedicação e alguma paciência.

A documentação fornecida é a suficiente, mesmo que faltem algumas informações mais profundas de alguns sistemas, com o manual ainda a necessitar de mais umas quantas revisões. Temos, para já, umas poucas missões de treino para explicar como ligar e operar alguns sistemas, que darão muita ajuda aos recém-chegados. Há bastante paralelismo com o Mi-8, pelo que, se já conhecem esse helicóptero, terão alguma familiaridade com o Hind. Sendo um helicóptero tão esperado na comunidade, também encontrarão vídeos interessantes que mostram a sua operação nas mais diversas fases, além dos vídeos de introdução da própria Eagle Dynamics.

Infelizmente, um novo módulo também implica que hajam alguns bugs e erros. Há uma série de problemas de sincronismo na operação multi-crew, com alguns erros aleatórios de falta de energia na posição de operador, por exemplo. Também outras lógicas não estão ainda convenientemente implementadas, precisando de algumas correcções em breve. O próprio Petrovich precisa de alguns ajustes, especialmente em lições de voo quando o pedimos para fazer alguma manobra em que parece perder um pouco o controlo. Ainda assim, este é um módulo muito bem polido e completo, especialmente comparado com outros lançamento recentes neste simulador.

Veredicto

Como qualquer outra aeronave da era Soviética, o DCS: Mi-24P Hind é uma peça complexa de engenharia, com algumas opções de design pouco convencionais, muita rudeza e a exigir muitas horas de voo para aprender e apreciar. A modelação da Eagle Dynamics é profunda, muito detalhada e com muitos pormenores interessantes, com particular destaque para o operador artificial “Petrovich” que poderá revolucionar a operação de aeronaves “multi-crew” no DCS World. As principais falhas neste módulo não são bem as omissões do acesso antecipado (que as tem) mas do próprio conceito do helicóptero real. O que é um bom atestado da fidelidade da modelação neste simulador, diga-se de passagem.

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, e foi gentilmente cedido pela Eagle Dynamics. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento.

Se desejarem conhecer a comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook e o canal de Discord da Esquadra 701. Parte das imagens que usamos neste artigo foram criadas neste grupo.