Depois de visitar um venerável turbo-hélice de médio porte, era inevitável esta outra visita. Aliás, mencionei esse desejo nessa outra análise. E a Carenado fez-me a vontade, dando-me a oportunidade de voar o seu Carenado Do228 100 HD Series para o X-Plane 11.

É possivelmente um dos aviões mais feios que há memória… depende sempre de quem o aprecia. Quem o voa na realidade, descreve um avião de grande performance, algo lento com os seus pequenos motores, mas com uma respeitável capacidade de descolar e aterrar dos aeródromos mais curtos e desafiantes. Em Portugal, vemos o Do228 voar diariamente numa importante rota regional e foi mesmo aí que travei conhecimento com este aparelho. Não posso dizer que tenha apreciado o seu estranho design, de nariz pontiagudo, uma estranha barriga e um formato de “caixote” na sua cabine. Mas, tal como no Fokker 50, estes aviões de ligação regional têm o seu charme. E a Carenado, como irão ver, captou muito bem a essência do Dornier Do-228-100.

O Do228 é fruto de um projecto para desenhar um novo formato de asa super-crítica. A TNT (Tragflügel neuer Technologie) foi financiada pelo Governo Alemão e nos anos 70 a Dornier GmbH pegou num Do28D-2 modificado com esta asa, colocou-lhe dois motores PW-PT6 turbo-hélice e iniciou o projecto do que viria a ser o seu próximo avião turbo-hélice, desenhado para serviço militar e comercial. Eventualmente o projecto evoluiu para uma fuselagem maior e já com os infames motores Garrett TPE-331. Só em 1981 o avião seria certificado para voar, nascendo então o agora conhecido Dornier Do228. Mas, a evolução deste mítico aparelho não terminou por aí.

Ao longo dos seus anos de desenvolvimento, diversas parcerias e projectos trouxeram inúmeras inovações ao avião, na sua maioria a nível de aviónicos e equipamento especial para missões específicas. No final dos anos 90, a produção do Do228 foi abrandando, com a Dornier concentrada noutros projectos. Eventualmente, a também Germânica RUAG viria a adquirir os direitos de produção e manutenção do Do228, criando uma nova versão, o Do228NG com nova instrumentação e motorização, que ainda hoje é produzido. Também a Hindustan Aeronautics Limited estará a produzir aparelhos na sua fábrica na Índia. Ou seja, o Do228 ainda voa, ainda é produzido e ainda dá provas de resiliência.

Por cá, em Portugal, existem pelo menos dois aparelhos operados pela companhia regional AeroVip (Grupo Seven Air). Segundo o site da companhia, possuem dois aparelhos de 19 lugares Do 228-200, o CS-AYT e o CS-DVU. Estes dois aparelhos realizam a famosa rota de “ponte aérea”, entre Bragança, Vila Real, Viseu, Cascais e Portimão. Tirando o aeródromo de Cascais, que tem condições já próximas de um aeroporto de pequena dimensão, as demais pistas são típicas de aeródromos regionais, algo curtas e com aproximações complicadas, uma delas contando também com condições atmosféricas adversas sazonais. São, portanto, os “palcos” perfeitos para este “actor”.

O que me leva a apreciar mais esta análise, é que eu tive contacto directo com este avião inúmeras vezes. Mais que apenas vê-lo a voar pelos nossos céus, estar perto destes aparelhos, conhecê-los por dentro e conhecendo a sua operação e performance, sobretudo folheando o seu manual técnico, dá-nos sempre outra perspectiva sobre estas recriações digitais em simuladores como o X-Plane 11. Uma vez mais, como nas anteriores análises a add-ons da Carenado, esta empresa não pretende criar um avião inteiramente fiel à realidade. Mas, acreditem, estamos bem próximos do Do228 que em tempos voei. Pelo menos no seu estranho aspecto.

Como sempre, a Carenado criou um modelo de voo e interface tecnologicamente adaptados à realidade do X-Plane 11. Com isto, quero dizer que o Do228 100 HD Series também possui uma modelação exemplar, usando texturas PBR (Physically-based Rendering), que garantem um realismo visual interessante, dentro e fora do cockpit ou cabine. Obviamente, esta adaptação ao X-Plane 11 também tem as suas cedências. A primeira é meramente no modelo, apenas com a variante 100, quando a versão mais “esticada” 200 é um pouco mais popular. Tudo bem, os modelos nem diferem muito entre si. As demais cedências, contudo, são um pouco mais incisivas.

Embora o Do228 possa voar muito bem sem recurso a um sistema de gestão de voo (FMS), tem à mesma um CDU integrado como opção, além de um GPS, baseado num Garmin GNS-530. Só que, já estarão a adivinhar, tratam-se de dois módulos que usam os sistemas “default” do X-Plane. E já sabem como os acho francamente básicos. Alternativamente, como em muitos add-ons da Carenado, têm aqui a opção de integrar um outro GPS de terceiros, o GTN-750 da RealityXP. Embora seja uma alternativa paga, aconselho mesmo a quem queira algo mais funcional. Se bem que a navegação “old-school”, com operação via VOR e ADF, seja mais a “cara” deste veterano.

Uma vez mais, também tenho algumas questões com o modelo de voo deste Do228 100 da Carenado. Voa de forma domada e competente, um avião claramente desenhado para voos de curtas distâncias e para aterrar em pistas curtas, graças às suas capacidades STOL proporcionadas pelo seu tal design de asas super-críticas. E a operação é facilitada pelo seu piloto automático de dois eixos, capaz de seguir radio-ajudas ou o GPS/CDU. Embora não mencione que é uma réplica perfeita do modelo de voo, a Carenado diz que foi testado por diversos pilotos para “a máxima fidelidade”. Não quero duvidar disso, obviamente.

Mas, uma vez mais, noto que a operação deste turbo-hélice é um pouco linear demais. Gostei bastante da lógica de arranque dos motores, em que um dos passos é engatar os “reversers” e voltar a “idle” para desbloquear as hélices. Também os inúmeros switches e botões do overhead estão modelados numa operação que, atesto, é bastante realista. Contudo, o controlo da potência e a resposta dos motores, faz-me crer que é, mais uma vez, uma modelação dos motores a jacto que serve de base ao X-Plane. Esta característica não é mencionada na descrição do modelo, mas tenho suspeitas que é mesmo assim, até porque o Fokker 50 também foi modelado desta forma simplificada.

Já na última análise falei nesta opção de produção que menciono acima. E, se calhar, aproveito para explicar melhor porque não gosto desta “adaptação” da Carenado. A limitação parece estar no próprio X-Plane, mas já voei modelos turbo-hélice com melhores respostas e operação mais precisa. É que os motores turbo-hélice são muito peculiares. Na verdade, são “bichos” estranhos, com um motor a jacto acoplado a um veio de hélice. Isto cria típicos “atrasos” na resposta e uma constante atenção à torção e às temperaturas. Neste add-on, a potência máxima não confere penalizações, por exemplo, é quase instantânea e, quanto a mim, demasiado reactiva. É óptimo para pilotos pouco exigentes que só querem voar, menos bom para quem busca realismo.

Nos meus voos e testes, pude levar o Do228 a diversos aeródromos de vários tipos e de graus de dificuldade. E, sim, de facto, o Carenado Do228 torna tudo mais fácil, simples e intuitivo. O seu painel é mesmo da “velha-guarda”, com os instrumentos maioritariamente analógicos, além dos que já mencionei serem digitais (GPS, FMS). Também temos um prático radar meteorológico, que possui integração com GPS e radio ajudas. No avião real, esta é apenas uma opção, mas geralmente é só integrado um radar doppler simples. Esta integração é uma “modernice” opcional mas até ajuda a navegar melhor entre turbulência. De modo geral, de dia ou de noite, com meteorologia amigável ou adversa, o Do228 mostrou-se sempre capaz e versátil.

Claro que não podia deixar passar a oportunidade de voar o Do228 num dos aeródromos mais icónicos do mundo, o infame aeroporto de Lukla no Nepal. A principal característica desta pista é que é curta… mas também é delimitada por montanhas e edifícios… e está em altitude… ah! E segue um declive… É umas das pistas mais perigosas do mundo, caso não saibam. Mas, se virem vídeos de operações no aeroporto real, há apenas dois ou três aviões que para lá voam, além dos helicópteros. Um deles, adivinharam, é o Do228. Operar em altitude, porém, não dá qualquer tipo de alteração na gestão da mistura e passo da hélice. Apenas tive de reduzir ligeiramente os RPM para 98% de modo a manter o motor “no verde”. O que é pena, porque a estas altitudes, a gestão destes motores é crítica.

Sabem o que mais gostei neste add-on? O som! É incrivelmente imersivo, dando-nos os ruídos característicos das várias fases do arranque e operação do motor, com imenso detalhe sonoro. E há uma clara variância entre o som captado no exterior ou no cockpit ou cabine, com ou sem as portas abertas. O Do228 é um avião de pequeno porte, tudo é “aconchegado” e recordo com saudade estes ruídos bem presentes dos motores, do trem a tocar no solo ou no ranger da fuselagem. Não há qualquer dúvida que, visualmente, este avião é uma fantástica reprodução, mas o som vem ajudar bastante a completar a oferta. E para muitos, é só isso que é preciso num add-on.

Veredicto

O Carenado Do228 100 HD Series é uma recriação de um autêntico veterano dos céus, com imensas provas dadas na história da aviação. A modelação da sua feia fuselagem, o seu cockpit retro e a sua cabine apertada, são mais uma demonstração de cuidado visual da Carenado. Também o som é imersivo, dinâmico e francamente realista. Só tenho pena que o “feeling” de manche na mão não seja tão realista como o desejável. Contudo, como em todos os aviões desta produtora, serve o propósito de nos dar uma operação simples, estável e bastante agradável. E é mais uma prova que, por vezes, a simplicidade é que nos devolve o prazer de voar.