Caso Apple Vs Epic Games em tribunal revela dados curiosos

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Já teve início o processo em tribunal que opõe a gigante Apple contra a não muito menor Epic Games. O processo começou as suas audições nos EUA, mas já se tornou bem maior que a disputa destas duas empresas, uma vez que provocou uma revelação inesperada de alguns dados curiosos.

Curiosamente, as audiências começaram com um “soluço”. Por causa da pandemia, as sessões são limitadas em presença, com o tribunal a recorrer a um sistema de chamada por voz para escutar a audiência para os interessados e imprensa. Acontece que este sistema contempla apenas escutar a sessão, não sendo tecnicamente possível falar. Só que algo aconteceu no início e milhares de pessoas notaram que conseguiam falar, fazendo com que umas boas dezenas de crianças gritassem por “Fortnite” a meio da sessão, criando um momento caricato.

O processo em si foi levantado pela Epic Games que alega que a Apple se focou em prejudicar a Epic, quando a marca da maçã removeu Fortnite nos seus dispositivos móveis. A alegação da Epic é que a Apple não pode proibir as vendas e transacções nas aplicações independentes e também não pode forçar que todas as vendas passem pela Apple Store, com os seus 30% de margem de vendas. Do outro lado, a Apple acusa a Epic de tentar quebrar as regras impostas na sua plataforma e ainda iniciar uma campanha “anti-Apple” nos seus canais oficiais.

Embora o processo esteja a atrair muita atenção, com alguma expectativa para ver estes dois gigantes a debater-se, foi a documentação apresentada em tribunal que mais curiosidade tem vindo a lançar. É uma oportunidade única de conhecer os bastidores desta indústria e as suas manobras mais ou menos obscuras.

Um dos documentos revelados mostra o que a Epic Games teve de desembolsar para garantir o exclusivo temporário de Borderlands 3 para PC na sua loja digital. Para que o jogo estivessem exclusivamente à venda na Epic Games Store, a 2K Games facturou uns consideráveis 146 milhões de dólares, 115 milhões só para o jogo, mais 31 milhões para garantir a distribuição de Borderlands: The Handsome Collection e Civilization 6. Considerando que Borderlands 3 foi apenas exclusivo desta loja por 6 meses, é um montante elevado que, felizmente, foi amplamente recuperado no período de exclusividade.

Outro dado curioso que surgiu nestas audiências, foi a revelação dos gastos da Epic Games nos seus jogos semanais oferecidos. Até Setembro de 2019 a Epic Games gastou 11,7 milhões de dólares a adquirir licenças para oferecer jogos aos jogadores. Foram 38 jogos que, como vimos há uns tempos, angariaram imensos novos jogadores, mas não se traduziram propriamente em lucros avultados. A título de curiosidade, os jogos mais caros oferecidos foram da colecção de Batman Arkham, em que a Warner Bros. facturou 1,5 milhões de dólares no negócio.

Que Fortnite é um título famoso, não há dúvida. Ainda hoje é um dos títulos online mais populares e a Epic Games capitaliza bem no mediatismo deste jogo, servindo até de plataforma para outros eventos, como estreias de trailers de filmes, concertos online e muito mais. É discutível se, nesta fase, ainda é só um jogo online ou se é uma enorme rede social interactiva. Já foram muitos os eventos crossover, com Tomb Raider, Horizon Zero Dawn, God of War ou Halo.

Contudo, os planos apontavam bem mais alto. Um “convidado” mistério do universo Nintendo ficou pelo caminho. Ao que parece, a personagem desejada era Samus de Metroid. Noutros lados, Fortnite atraiu a atenção com figuras da série Batman, Star Wars, Marvel ou The Walking Dead. Contudo, nos planos da Epic Games estavam também Naruto, Katniss (Hunger Games), Kill Bill ou Die Hard. Por qualquer motivo estes planos caíram por terra.

E os concertos dentro do jogo? Um dos mais populares e mediáticos foi com o rapper Travis Scott, mas outros nomes conhecidos já improvisaram concertos nos palcos virtuais do jogo. E a produção quis ir mais longe. Chegou mesmo a convidar personalidades como Ariana Grande ou Lady Gaga mas, mais uma vez, os planos também não se concretizaram.

Por fim, uma outra revelação que nada tem a ver com a Epic Games em si e também não tem a ver com a Apple. Contudo, não deixa de ser um dado curioso que responde a algumas questões que fizemos no passado recente. Um dos assuntos que mais criou discussão nesta comunidade, foi a resistência da Sony a permitir a funcionalidade crossplay nas plataformas PlayStation.

Como se recordarão, foi mesmo Fornite o primeiro jogo a receber esta funcionalidade na PS4 em 2019. Contudo, a ideia foi apresentada um ano antes. Segundo a documentação apresentada em tribunal, o intuito era fazer um anúncio que beneficiasse a imagem da Sony, oferecendo ainda uma parceria na E3, um título produzido para o PSVR, entre outras contrapartidas.

Ao que parece, a Sony só concordou em abrir o crossplay no ano seguinte, quando conseguiu lucrar com isso, fazendo com que as produtoras e editoras paguem pela funcionalidade em algumas circunstâncias. A título de exemplo, se um jogo facturar 1 milhão de dólares no total e a PSN apenas facturar 600.000 dólares no processo, com 40% do lucro em jogo a vir de outras plataformas, a empresa terá de pagar uma taxa tabelada como compensação.

Afinal, a Sony não tinha bem os interesses dos jogadores quando finalmente aceitou desbloquear o crossplay. Apenas resistiu o tempo suficiente até encontrar um modelo de negócio que não a prive do lucro que teria com as exclusividades.