Depois do enorme sucesso da linha TCA Airbus Series (aqui e aqui), eis a mais recente aposta da Thrustmaster em dispositivos de simulação de controlos para aviação civil. Há muito que suspeitava de um manche desta marca. Finalmente está aqui o TCA Boeing Yoke Pack e é tudo o que mais desejava neste tipo de controlo.

Por mais que os joysticks sejam os dispositivos mais populares, são os manches ou yokes que mais desejamos para simular a maioria das aeronaves civis (e não só). O volante especialmente adaptado à operação de voo, sofreu diversas alterações de design, mas os mais populares e comuns em cockpits são neste formato de “garfo”, permitindo operar com ambas as mãos ou qualquer uma e ainda dando um natural de rotação (ailerons para voltas) e profundidade (elevadores para atitude). Durante anos as marcas evitaram os manches pela sua complexidade, preferindo os bem mais populares joysticks dos mais diversos designs. E convenhamos que nem todos os modelos de manche fomos tendo primavam pela qualidade, especialmente de construção. A Thrustmaster está aqui para mostar “como se faz”.

Conforme temos visto noutros produtos da TM, a aposta é sempre na qualidade de materiais, design funcional, ergonomia e, claro, total integração com os simuladores do momento. Este conjunto é um produto oficial Xbox, pelo que devem esperar completa integração no Microsoft Flight Simulator, tanto na versão PC, como na versão Xbox Series X|S. Isto significa, não apenas que todos os eixos e botões estão devidamente reconhecidos no simulador, como os dois dispositivos (manche e quadrante de potência) estão já pré-programados com as devidas funções no simulador. Ou seja, tecnicamente, fora da caixa está pronto a funcionar.

Isto não significa que o sistema não funcione noutros simuladores, notem. Tive a oportunidade de o testar no Lockheed Martin Prepar3D V5, X-Plane 11 e até no DCS World. Apenas terão de programar cada eixo e botão manualmente, o que pode ser uma tarefa algo fastidiosa, como o é com todos os novos dispositivos que adquirimos para um jogo ou simulador. Uma vez programado como deve ser, porém, a sua qualidade de operação noutros simuladores é equivalente ao MSFS, como seria de esperar. Só tenho uma recomendação a fazer: Escolham uma aeronave com sistemas aprofundados e com capacidade de programar profundamente as suas funções. Caso contrário, poderão perder algumas funcionalidades em aviões mais básicos.

Olhando para este novo sistema, é inevitável reconhecer a sua inspiração de design. Sendo um produto licenciado pela Boeing, é de esperar um design próximo dos seus lendários manches que equipam a sua linha de aeronaves. Contudo, há só uma aeronave com painéis decorados a cinzento e com este design de manche curvo: o Boeing 787 “Dreamliner”. Na verdade, este avião é só uma fonte de inspiração, uma vez que os punhos possuem capacidades ambidextras com botões extra que o manche real não tem. Também o quadrante tem uma decoração deliberadamente adaptada, ainda mais vagamente inspirada no quadrante real.

Este é um conjunto de duas peças com ligações USB independentes, sendo também instalados em separado na mesa ou suporte. O manche em si tem uma estrutura muito robusta em coluna de controlo, tal como o avião real, obviamente reduzida em tamanho para caber no vosso escritório. Notem, porém, que por causa desta opção de design, montar numa mesa faz com que o dispositivo fique mais abaixo que o costume, mais próximo às pernas e torso. E é também inevitável que fique um pouco mais alto que os demais manches. É uma questão de o adaptar ao vosso gosto. Pessoalmente, prefiro colocá-lo o mais baixo possível para que fique ao nível do peito, mas isso obriga-me a chegar mais atrás na cadeira.

Cockpit do Boeing 787 no Microsoft Flight Simulator replicando o aspecto do avião real.

Quanto ao quadrante, é bem mais “pacífico” de instalar. Incluído na caixa está o seu próprio suporte, algo que não tivemos para o quadrante do TCA Airbus, infelizmente. Só é possível instalá-lo num plano horizontal sobre a sua base, o que pode criar alguns problemas de posição. Neste caso, é possível alterar a posição do grampo para, por exemplo, acoplar a uma plataforma de cadeira de simulação. O quadrante tem a possibilidade de comutar as suas manetes, alternando entre dois eixos de potência e spoilers (por defeito), dois eixos de potência e flaps ou, então, um eixo de potência, flaps e spoilers. Obviamente, também pode ser montado à esquerda ou à direita do manche livremente.

Alguns detalhes interessantes deste quadrante merecem destaque. O design estrutural é claramente herdado do quadrante Airbus da mesma linha. É também possível acoplar dois quadrantes para fazer quadrimotor usando as mesmíssimas peças de acoplagem e um comutador (1&2 ou 3&4) para distinguir eixos e também podem ligar os pedais via tomada proprietária (tipo RJ-12). A melhor notícia é que podem conectar o quadrante ao manche, poupando assim uma tomada USB no computador ou consola. E gostarão de saber que os reversers dos motores estão embutidos nas manetes de potência, funcionando de forma exemplar. O que não gostei muito foi do selector e botões do piloto automático mas, já lá vamos.

Voltando ao manche, arrisco dizer que é o melhor dispositivo deste género que jamais testei. A profundidade operada em coluna, aliada ao movimento dos ailerons podendo voltá-lo a 90º para os dois lados, permite um controlo absolutamente suave e realisticamente proporcional à simulação. A sua construção exterior é inteiramente em plástico mas, não se iludam! O interior é completamente construído em metal, com impressionantes molas de tensão que até podem adicionar ou remover ao vosso gosto. Não há qualquer torção a operar com uma só mão, algo que acontece muito noutros modelos de terceiros. A robustez é a palavra de ordem neste manche, aliada à sua larga base e grampo duplo de mesa.

Nas pegas, estão dois conjuntos de botões para cada mão, o tal design que se “descola” um pouco do avião real, que apenas tem botões para uma das mãos (esquerda para comandante, direita para co-piloto). Estes botões possuem os comandos necessários para compensação, comando de piloto automático e algumas “invenções”, como controlos de flaps e trem ou de alteração de perspectivas. Para os polegares, temos dois botões multi-direccionais, um deles com eixos, como um mini-joystick. Contem também com botões Xbox, um importante comutador de trem de aterragem e dois pequenos eixos na base, sobre o quais já falarei.

Notarão que no centro do manche falta-lhe o lendário “clipboard” que temos no avião real. O local da mola está lá, devidamente decorado com o logótipo da Boeing e tudo. Mas não é funcional, talvez pela sua escala mais reduzida. Em alternativa, para a vossa literatura temos um aro metálico para acoplar no topo da base e que permite colocar ali qualquer item. No meu caso, coloquei lá o meu Elgato Streamdeck que se posiciona impecavelmente. Também é possível suportar checklists ou algo assim, apenas precisam que tenha alguma rigidez mas não cair. Enfim, é uma adição simpática e que se posiciona bem à frente do campo de visão para rápida referência.

Para quem usar este sistema numa Xbox Series X|S, gostarão de saber que todas as teclas estão devidamente identificadas para emular os comandos Xbox. A integração nestas consolas é perfeitamente linear, bastando ligar a tomada USB à consola. Até possui uma tomada jack 3.5mm lateral para ligar auscultadores ao dispositivo, como fariam com o comando. Tal como no PC, todos os eixos e botões estão pré-programados mas podem sempre reprogramá-los no Microsoft Flight Simulator a vosso gosto. Notem apenas que não terão forma de testar os eixos na consola fora do simulador ou actualizar firmware. Para isso, terão de usar um PC.

Falando exactamente desta questão de testes de eixos e actualização de firmware, a Thrustmaster actualizou o seu software TM Flight Series para acomodar este novo conjunto. Aliás, é mesmo recomendado que antes que utilizem o conjunto, instalem o software. Notei que, fora da caixa, o quadrante ligado via USB ao manche não é reconhecido. Uma actualização de firmware depois e tudo funcionou correctamente. Aliás, só com os controladores oficiais da TM é que terão a representação correcta dos eixos e botões para os testar. Se não o fizerem, porém, o sistema funcionará normalmente com os drivers default do Windows.

Uma vez tudo configuração e actualizado, dificilmente precisarão de voltar a fazer estas coisas. Graças aos sensores digitais 3D Hall Effect não haverá perda significativa de eixos ou mesmo alguma degradação de performance a médio/longo prazo. Aliado à robustez já mencionada da sua construção, a operação é bastante firme e linear, contribuindo o impressionante amplo curso dos eixos (21cm). Pessoalmente, instalei todas as molas de força para a profundidade mas entendo que nem todos gostarão do resultado. Removendo-as (há instruções de como o fazer), é um manche que se opera na “ponta dos dedos”, o que na era “fly by wire”, é já quase um apanágio.

Falando das coisas que não gostei… sim, existem. Na base do manche temos dois eixos que, honestamente, não só não sei qual a sua real utilidade, como a sua construção e operação não é muito boa. Por outro lado, naquela posição é propenso a toques indevidos. Deveriam ser selectores para injecção de combustível mas não são comutadores, são eixos lineares. Demasiado leves a nível de fricção, o mínimo toque move-os. Pior, durante os meus testes caíram várias vezes, obrigando-me a improvisar com um pouco de fita-cola. Inicialmente programei aí algumas coisas mas acabei por desactivar este dois eixos. Simplesmente não estão muito bem pensados.

O outro pormenor que gostei menos foram os tais botões e selector do piloto automático na base do quadrante de potência. Não há nenhum problema de operação com os botões, propriamente, apenas não possuem qualquer identificação. Entendo que a lógica é que se programe o que se quiser, não forçosamente para a operação original. Mas, estão completamente limpos de identificação, o que dificulta a sua operação. Quanto ao selector de dois eixos, o comutador de modos é demasiado rígido, obrigando a força exagerada, enquanto que o rotativo com botão é um pouco solto demais. Preferi sempre não usar esta parte do quadrante, honestamente.

Antes de terminar, tenho de referenciar um elemento que poderá ser importante no momento da decisão na compra deste conjunto: a disponibilidade e, claro, o preço. O TCA Boeing Pack está disponível no site da TM por 499,99€, variando um pouco este valor em lojas físicas da especialidade. É um preço algo elevado, de facto, considerando que na concorrência há preços a rondar a metade. O que estão a comprar, contudo, é uma peça de engenharia de elevada qualidade e com uma durabilidade considerável. Estão a pagar uma construção em metal pensada para várias horas de uso, um design ergonómico e algumas funcionalidades únicas. E isso tem um preço.

Infelizmente, é bem possível que também não o encontrem facilmente, dada a escassez geral de componentes electrónicos no mercado de informática e entretenimento. Foi-nos assegurado que há unidades para venda por cá, não necessariamente em todas as lojas de retalho, mas existem e a preços próximos do valor recomendado pela TM. Caso não encontrem o conjunto nas lojas nacionais, optem por consultar o site oficial da Thrustmaster, um local onde, regra geral, haverá sempre mais stock. Informo ainda que é possível comprar o quadrante de potência em separado e, em breve, também o manche será vendido em separado.

Veredicto

Há anos que esperava um manche com a qualidade e robustez reconhecida da Thrustmaster. Não fiquei desiludido. Honestamente, o facto do novo TCA Boeing Yoke Pack replicar os comandos de um Boeing 787 “Dreamliner” nem é um factor, porque acaba por se ajustar a qualquer aeronave. Foi um prazer voar com este conjunto em vários simuladores e aeronaves, sendo particularmente fantástico (obviamente) voar com ele no Microsoft Flight Simulator com o seu B787 original. Este é um conjunto de manche e quadrante de potência absolutamente obrigatório para quem não quer compromissos e procura a qualidade. Vale bem a pena o investimento.