Quando queremos simular os controlos de aviação de combate, é inevitável que falemos de um sistema HOTAS. A tentativa de replicar esse sistema de interacção avançada é tão (ou mais) importante que a própria qualidade de construção. A HORI traz-nos o seu HOTAS Flight Stick, nesta análise na versão PS3/PS4 para nos dar mais uma opção neste vasto mercado.

Antes de descolar para a análise em si, tenho de evidenciar o óbvio. Não há muitos jogos de aviação de combate (nem um único simulador propriamente dito) para as consolas. Por isso, o facto da HORI lançar mais um modelo do seu conhecido Flight Stick para a PS3/PS4 e Xbox One (versões separadas) deverá deter-vos logo se pensam que este é um sistema dedicado a simuladores de voo mais avançados. Ainda tentámos obter uma versão dedicada ao PC deste dispositivo, mas não estava disponível. Como tal, é de prever algumas cedências, mesmo que o controlo permita uma utilização (limitada) no PC. Já irei falar de algumas dessas cedências mais flagrantes nessa plataforma mas, por agora, falemos pelo seu aspecto e design.

Este é um conjunto que deverá ser bastante familiar a quem já anda nestas lides da simulação há uns anos. De facto, a HORI já lançou imensas versões deste mesmo design, dando-lhe vários nomes e decorações. Esta será a versão mais recente de um modelo HOTAS que, apesar de demonstrar algumas notas de design moderno, claramente inspiradas no sistema de controlo do General Dynamics/Lockheed Martin F-16C Falcon, mas com imensas modificações subtis para não ser verdadeiramente igual. Esta versão apresenta na mesma um joystick independente com mola de centragem e um controlo de potência mono-motor, como todos os demais modelos semelhantes desta linha da HORI.

Na verdade, não encontro grandes diferenças do anterior modelo dedicado ao Ace Combat 7, excepto na falta do logótipo desse jogo na base dos dispositivos e na caixa do produto, que apresenta uma decoração diferente. Por este modelo que analisamos aqui ser dedicado à PS3/PS4, encontrarão o botão PlayStation e um imprescindível touch-pad com botão para replicar o controlo de um DualShock 4. A versão Xbox One (em baixo para comparar) também possui um botão na base do throttle, mas desta feita do logótipo “Xbox” em substituição. E, como devem imaginar, o touch-pad exclusivo da rival também não está presente neste modelo da Xbox. De resto, são o mesmo Joystick e Throttle, com a mesma quantidade de botões e funções nas duas versões. Ah! E ambos têm vibração rumble para aquelas explosões ou impactos mais violentos.

Em termos de ergonomia e construção, esperem algo mediano. Este é um sistema desenhado para jogar nas consolas, com inspirações em sticks modernos, é certo, mas feito a pensar no entretenimento puro. Assim, a pega do joystick é perfeitamente “normal”, sem grandes notas para assinalar. Não sou particular fã do controlo analógico posicionado junto ao topo do dispositivo, obrigando a mover a mão da base do mesmo para o operar. Obviamente, isto é só provocado a quem tem uma mão pequena… O que não concordo mesmo é com a posição do touch-pad, na base do joystick no lado esquerdo. No meu ponto de vista, deveria estar no outro lado para mais fácil acesso na mão direita. Como está, obriga a operar com a mão esquerda, derrotando o intuito do sistema HOTAS.

Também não apreciei a “leveza” geral da operação joystick, sem grande fricção para ajudar com o pequeno switch de “sensibilidade” na base. Recordo mais uma vez que os jogos em que poderemos usar este dispositivo nas consolas não são eles mesmos grandes exemplos de precisão. O problema, no entanto, é que essa “leveza” nos eixos não inspira grande sensação de controlo e provoca mesmo alguns movimentos involuntários da base, mesmo com o seu peso e robustez aceitável. A HORI fornece umas ventosas para prender a uma mesa lisa e, embora não ache suficiente para mitigar esta questão, são praticamente essenciais. Recomendo que as usem ou vão passar um mau bocado.

Também essa “leveza” indesejada na operação foi sentida no dispositivo do controlo de potência. A escolha da HORI em colocar um pivot lateral rotativo, ao invés de um pivot central ou carris de deslizamento que a concorrência usa, foi para mim um ponto positivo. É ainda uma melhor escolha, quanto a mim, que evita imensos problemas, principalmente de acumulação de pó ou de sujidade. Só que essa posição lateral também provoca alguns deslizes que as ventosas não chegam para travar. É possível mexer um pouco na fricção, mas se calhar é melhor nem aumentar muito ou pioram a questão, quanto a mim.

Uma das questões que tive com o controlo, além de um problema de botões sobre o qual já irei falar, é que não possui detents no seu eixo, os muito importantes sulcos de estágios que nos indicam, entre outras coisas possíveis, o corte de combustível ou o afterburner. Nem todos os sistemas HOTAS possuem estes detents, é certo, mas concordarão os mais habituados a estas coisas que é importante ter este feedback mecânico em qualquer caça de combate que se preze. Mesmo sabendo que este não é um HOTAS para simulações “hardcore”, ter um curso de potência tão linear, aliado à leveza da sua operação, faz com que a gestão de potência seja mais uma “suposição” que um cálculo preciso.

Tudo o que assinalo acima, pode ser fruto de uma possível experiência pessoal com controlos mais complexos. Não descarto essa observação. Contudo, há algo que não consigo ultrapassar e estou certo que até mesmo o menos exigente dos simmers também não ultrapassará. Tenho falado desde o início nesta palavra “HOTAS”. Na verdade, escreve-se H.O.T.A.S. por que é uma sigla. Significa “Hands-On Throttle And Stick” e é uma lógica de ergonomia em aviões de combate modernos, introduzida há alguns anos. A ideia é que os pilotos possuam todos os controlos e botões essenciais para a operação de navegação e combate na manche e no quadrante de potência, sem precisar de tirar as mãos destes dispositivos nos momentos críticos.

A principal característica que todos notarão nos vulgares sistemas HOTAS (até mesmo nos modelos para simuladores), é uma quantidade de botões e eixos disponíveis. Olhando para as imagens do HORI HOTAS Flight Stick, constatarão que, de facto, tem muitos botões e selectores. Só que alguns não funcionam e outros repetem-se com combos. Dois rotativos e um selector são mesmo só para decoração. Uma coisa é assumirmos que as consolas são limitadas na quantidade de botões disponíveis. Outra, é estarem lá botões “a mais” que se repetem ou não fazem nada. Ainda pensei que fosse algo mitigado no PC mas não, situação idêntica. Se isto vos causar algum desconforto não estão sozinhos mas, calma, ainda nem falei da questão que mais me incomodou neste sistema.

Por esta altura, já deverão estar a achar que estou a ser demasiado exigente para um conjunto que foi desenhado para trabalhar em consolas, supostamente mais modesto em termos de acessibilidade e, sobretudo, de preço. Sim, experimentei alguns jogos na PlayStation 4 com resultados positivos, a saber Ace Combat 7 e Elite: Dangerous. E até consegui algumas boas prestações em ambos. A tal leveza dos controlos não me motivou a experimentar simuladores mais avançados, pelas razões óbvias. Mas, é inegável que cumpre bem o seu propósito em jogos mais simples onde as questões de rigor e precisão que aponto são mais irrelevantes.

O motivo pelo qual estou a ser tão rigoroso e preciosista na oferta do HOTAS Flight Stick da HORI é… o seu preço. Já aqui analisei sistemas mais acessíveis, igualmente para consolas e com menos botões ou características. Acredito que estes controlos devem existir para interacções mais simples ou mais arcade… mas, devem ter um preço ajustado a essa acessibilidade ou simplicidade. Este conjunto tem um PVP recomendado de 199€, o que considero um exagero para o que nos dá. Não desfazendo do crédito que a HORI merece nesta linha de produtos com alguns anos de experiência, há dispositivos no mercado com capacidades bem mais interessantes pelo mesmo preço, ou com um custo bem menos elevado nas mesmas características.

Veredicto

Se não fosse pelo preço elevado, diria que estamos perante um conjunto “budget” para quem não precisa de simular algo de forma realista. Contudo, tal como se apresenta, com umas poucas falhas de conceito e botões fictícios, considero o HORI HOTAS Flight Stick um tanto ambicioso demais para aquilo que acaba por oferecer. Nesta linha de produtos mais arcade para voo, a concorrência propõe algo bem mais barato e igualmente simples. Por seu lado, a HORI apresenta um custo quase premium por algo que não tem esse objectivo. Fica-se pelo aspecto sóbrio e uma operação competente nos jogos que testámos, muito longe das exigências de simuladores mais avançados, no entanto. E o preço a pagar por esse compromisso não é lá muito justificável.