Com o privilégio de ser uma das primeiras empresas terceiras a fazer chegar aeronaves ao Microsoft Flight Simulator, a nossa conhecida Carenado apresentou já um Cessna 182 no arranque do simulador. Contudo, o seu Carenado M20R Ovation é que merece a nossa atenção. Não só porque é um ícone da aviação, mas também pelo seu óptimo aspecto.

Esta não é a primeira vez que tenho contacto com este mesmo modelo de avião da Carenado. Tive a oportunidade de o voar tanto no velhinho FSX como no mais recente Prepar3D. E também há uma versão deste aparelho para o X-Plane 11. Este é um aparelho mais “desportivo”, com um design muito peculiar de asa baixa e aquela cauda única da família de aviões Mooney. Na vida real, o M20 é já um clássico dos céus. No simulador a Carenado quer trazer um avião fiel ao real, baseada em anos de desenvolvimento nos demais simuladores onde já lançou o modelo. Contudo, o Microsoft Flight Simulator é um ambiente muito particular e precisa obedecer a uma série de padrões de qualidade. E não estamos só a falar na qualidade do visual. Essa, como costume, é garantida.

O Mooney M20, na verdade, não é apenas um só avião. Trata-se de uma linha de aeronaves cujo design e construção se iniciou em 1955 e só terminou no ano passado. Ao longo da sua vida, o criador Al Mooney trouxe um conceito muito seu do que devia ser uma aeronave de Aviação Ligeira. No auge da sua produção, ultrapassou as 11 mil unidades vendidas, atestando a sua qualidade, fiabilidade e design. A fama do M20, o vigésimo modelo da Mooney International, foi incontestável, sobretudo nos anos 90. Em anos recentes, o modelo foi obrigado a reinventar-se em termos de motorização e aviónicos para conseguir combater a concorrência. E, infelizmente, a própria Mooney está uma sombra do que foi outrora, este ano prestes a desaparecer para sempre.

O Mooney M20 pode ser cada vez mais raro nos céus reais, mas nos virtuais está de óptima saúde. O modelo escolhido pela Carenado para conceber em simulador é o M20R Ovation, uma variante lançada em 1994. Tem um potente motor Continental IO-550-G de 280 cavalos que permite ao avião atingir facilmente quase 200 nós de velocidade de topo, um feito só possível com a ajuda do seu design aerodinâmico apurado. Ao contrário das variantes mais recentes Eagle e Aclaim, o Ovation é ainda um produto da era analógica, com instrumentação a condizer, embora muitos exemplares tenham também integração de sistemas complementares de GPS e “glass cockpit“.

E ainda bem que é assim, deixem que vos diga. De facto, o Microsoft Flight Simulator tem alguns aviões mais “rudes”, com instrumentação analógica mas, não são muitos, privilegiando os muito práticos mas demasiado forçados sistemas digitais da Garmin. Não me entendam mal, eu gosto de Glass Cockpits mas, até agora, voar com “agulhas” só era mesmo no Cessna 150 e pouco mais. Não há nada de errado num PFD/ND digital, mas há quem goste do famoso “T Básico” e dessa “arte” de ler “relógios” nos painéis. E, sim, continuamos a ter lá de lado o GNS 530 integrado para quem preferir algo mais moderno. Embora nem tudo funcione a 100%, como já irei explicar adiante.

Diria que o grande trunfo do novo simulador é mesmo a aviação ligeira, pelo menos enquanto não tivermos uma simulação mais fiel para os grandes jactos. E aí a Carenado está, de facto, “em casa”. Tal como nas análises anteriores que fiz aos seus aparelhos, não considero que nenhum avião feito por esta empresa, este incluído, seja uma simulação profunda e rigorosa do aparelhos reais. Até mesmo os maiores e mais elaborados que já voei, não estão num nível de estudo (Study Level) propriamente dito. São aviões de visual e sonoridade agradáveis, fáceis de controlar, com umas quantas características simpáticas, sem particular interesse em complicar.

Assim sendo, sei perfeitamente o que esperar de qualquer avião da Carenado. E quando peguei nos comandos do M20R encontrei exactamente o tal avião bonito, bem desenhado e agradável de pilotar. A fórmula ideal para um simulador que pretende ser também uma ode ao prazer de voar sem complicações. E, de facto, a integração com o simulador é quase perfeita. Não fosse o facto de ter de o instalar à parte através do Marketplace e não diriam que é um avião de terceiros. E, sim, até temos texturas adicionais, ao todo quatro esquemas diferentes de cores. Não é que as pinturas sejam importantes para todos, mas é sempre bom poder escolher uma cor que chamemos nossa.

Infelizmente, esta integração não realmente completa. Fiquei desapontado por não ver as checklists electrónicas integradas no avião. Não sei se foi uma omissão de última hora antes do lançamento, aguardando integração ou se foi apenas uma falha no conceito. Como visualmente achei que o avião é praticamente idêntico à versão do FSX/P3D, não consigo deixar de pensar que este módulo é apenas um port dessas versões. Não que esses aviões sejam maus add-ons, notem. O que digo é que este simulador possui algumas valências únicas e é bom que os novos módulos tirem partido delas. As checklists electrónicas são, sem dúvida, importantes. Vamos lá sacar as checklists em papel…

De um modo geral, este é um pacote bem concebido para o simulador. Se procuram um avião ligeiro de motor a pistão, com passo variável, instrumentação analógica, integração do GNS530 do próprio simulador, com boa performance e um visual e som excelentes, não procurem mais. Há determinados pormenores simpáticos, como as palas de sol animadas, a bússola que vibra com o motor e sofre com acelerações, até uma porta e bagageira que abrem, sem esquecer a importante animação dos airbrakes nas asas, todo este avião tem imensa atenção ao pormenor.

Como nos demais produtos da Carenado, temos um menu adicional para controlar alguns pormenores, como a abertura de portas, a adição de elementos estáticos e outros detalhes. Neste modelo, esse menu é integrado num engenhoso tablet virtual, que até pode ser omitido quando não precisamos dele. Gostava que este tablet tivesse outros elementos mais necessário, como as tais checklists integradas aqui, por exemplo. Ainda assim, é bem mais agradável esta versão integrada do menu que aqueles menus laterais omnipresentes dos outros simuladores.

Antes de passar ao voo, tenho de assinalar um pormenor que achei um tanto estranho, mesmo antes de voar. Nas primeiras vezes que entrei no avião e tentei iniciá-lo desligado (cold and dark), o GNS530 e as luzes de cabine nunca ligaram, mesmo com o motor em marcha e alternando os botões respectivos. Será talvez um bug que passou despercebido pelo escrutínio da produção. Curiosamente, sem que nada tenha feito, nos voos seguintes este problema não se manifestou mais no arranque. No entanto, em voo, aconteceu alguns “desligamentos” de luzes e do GNS530. Espero que a Carenado aborde este problema numa actualização em breve. Enquanto leem esta análise até pode já ter sido corrigido.

Voar o Carenado M20R Ovation é, como seria de esperar, um prazer. Achei os controlos perfeitamente reactivos e dignos da reputação “desportiva” do aparelho real. O potente motor responde às nossas exigências, garantindo prestações bem próximas das tabelas de performance do aparelho concreto. Se há algo que menos gostei foi do exagerado controlo do compensador (trim) de profundidade. É demasiado reactivo e abrupto mesmo. Considerando que outros aviões default deste simulador sofrem deste mesmo problema, pode nem ser uma questão única deste modelo da Carenado. Mas, “trimar” este aparelho em cruzeiro pode ser uma autêntica “saga”.

Além da questão do trim que já mencionei, também encontrei outros problemas menos graves mas que precisam ser abordados. Achei que o leme vertical precisava ser um pouco menos reactivo, embora reconheça que é bastante prático para correcções rápidas. O piloto automático também não me parece estar muito polido, tendo algumas reacções inesperadas, com inexplicáveis perdas de altitudes. Confesso que não o usei muito nesta análise, preferindo levar o avião à mão. Contudo, em momentos mais dedicados à navegação, tive de usá-lo e achei-o um pouco errático no comportamento.

Mas, pronto, nada disto remove o prazer de voar neste “Cadillac” aéreo. Sobretudo em situações de maior concentração, seja a navegar por instrumentos ou numa aterragem nocturna, foi um prazer voar neste cockpit de excelente leitura. O trem de baixo perfil faz-nos pensar que estamos a “conduzir” um “hotrod” no chão, até que subitamente o seu motor nos eleva aos céus. Complementa-se isto com um visual irrepreensível, num cockpit e exterior muito detalhado e um esquema sonoro muito realista e temos avião para muitas horas inseridas no logbook. Finalmente, um aparelho que não complica no MSFS.

Veredicto

Por mais que goste de sistemas complexos e aparelhos detalhados, por vezes é bom descomprimir com algo mais simples e que nos leve ao básico. O Carenado M20R Ovation é uma excelente mistura entre nostálgica era da aviação analógica e a moderna febre do digital. O seu maior trunfo é o imenso prazer de voar que nos dá. Pode precisar de algum polimento em alguns sistemas e na sua integração no simulador, sem esquecer um trim “nervoso” demais para o meu gosto. Ainda assim, é um aparelho divertido, rápido quanto baste para a sua classe e extremamente simples de operar.