Entrevista – Felipe Duarte, actor em Days Gone

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Felipe Duarte afirma-se uma “máquina” de dobragens e nota-se que adora o que faz.

Aquando do evento de apresentação do jogo Days Gone por parte da Sony Interactive Entertainment, tivemos a oportunidade de conversar com Felipe Duarte. Actor de profissão, motoqueiro nas horas livres e sobrevivente ao Apocalipse zombie na pele de Deacon St. John, dando uma voz Portuguesa ao protagonista do jogo.

WASD – Felipe, é a primeira experiência como actor de voz em videojogos?

Felipe Duarte – Sim, em videojogo é. Já fiz muitos filmes, muita dobragem. Já me tinham convidado para jogos, mas esta foi a primeira vez que pude fazer.

W – É uma experiência completamente diferente? Estar num estúdio com um guião e a tentar colocar emoções nas palavras.

FD – Felizmente, já tinha muita experiência com dobragens na Nacional Filmes, tive experiência desde o Conservatório, desde desenhos-animados Polacos, muita dobragem de figura humana da altura das séries de (Jacques) Costeau, coisas que me deram recursos e experiência para isto. E estes jogos são muito complicados no sentido que dá muito trabalho a representar, numa hora já podes ter morrido, vivido e renascido (risos) e tentar que isso não fique “maquinal” e que fique “orgânico” é um grande desafio. Felizmente a Blue Lab (editora responsável pela dobragem para Portugal), faz esse trabalho já há um tempo e nota-se que o fazem muito bem. Têm o cuidado de separar até as sessões. Numa sessão não estamos, por exemplo, sempre aos gritos, eles têm essa atenção.

O resto é ir fazendo. De facto, é diferente, mas também muito interessante, estás sempre a andar, sempre com situações novas, personagens novas. Neste jogo dão muito valor à narrativa e isso como actor deu-me um gozo especial também, porque pude aprofundar a representação, não ser só gritos. É muito como no cinema, sabes?

W – E quanto do Felipe há no Deacon St. John?

FD – Olha, muito. Começámos logo com a empatia de ele ser motoqueiro, eu também sou há muitos anos. Ele usa a mota para sobreviver e eu também… no trânsito (risos). É aquele espírito do motard, é um bom tipo, não quer fazer mal a ninguém, pelo contrário, quer ajudar os outros. É uma boa pessoa que, de repente, se vê envolvida num enorme problema.

W – O Felipe é gamer? Joga?

FD – Tenho a PlayStation One, vê lá tu. Vou ver se lhes peço esta nova (PS4) para jogar o jogo (risos).

W – Esta pergunta surge porque gostava de saber como é que vê a dobragem e a localização dos jogos na língua dos jogadores, um trabalho feito pela SIE PT há algum tempo.

FD – É fundamental para mim. Mesmo uma pessoa que domine muito bem o Inglês, ao jogarmos na nossa língua, aproxima-te muito mais da narrativa. Em vez de se ouvir “fu%$” se ouvir… de facto, car#$%&… (risos), desculpa lá… mas, é isso que te vai aproximando da personagem.

W – E houve liberdade nesse aspecto, ao nível do vernáculo?

FD – Houve. Ou seja, tudo muito bem medido, para não ser uma coisa banal, mas os necessários estão lá todos e são fundamentais. E eu lutei muito também por isso, por tentar não “lavar”. Pelo contrário, sujar até mais um bocado. Depois vês o resultado e isso sobressai nas subtilezas, na respiração, o cuidado que tivemos em algumas cenas. Já vi bocados de trailers e disse “olha, está ali aquilo”. Não controlas tudo, mas há um cuidado. Muito mais que eu pensava.

W – E qual é a maior dificuldade neste tipo de dobragens?

FD – É não cair exactamente na máquina. Resistir ao cansaço, medir bem as coisas e manter a frescura porque são mesmo muitas horas de trabalho. Muitas situações em extremo.

W – Recordo-me de uma entrevista com o seu colega Ricardo Carriço em God of War dizer que chegava a sair muito cansado do estúdio depois de uma gravação. 

FD – Eu sou “uma máquina” nesse aspecto. Sou um “animal” de dobragens. Agarro-me a um projecto e pronto. Eu percebo isso que o Ricardo disse e é verdade, mas eu só quando saía de lá é que descansava. Eu preferia “não largar o osso” (risos) até deixar aquilo perfeito, porque, se me separava muito, perdia também o embalo e a vibração mesmo, do Deacon e daquele mundo. Às vezes até pedia para ouvir um pouco dos sons do jogo para continuar. Até me perguntavam se queria parar, mas queria sempre continuar.

W – Teve oportunidade de acompanhar as falas com cenas do jogo ou foi sempre seguir o guião escrito?

FD – Sim, muitas. Por causa do sincronismo acompanhámos sempre cenas do jogo, ali ao milímetro, tem de estar tudo bem metricamente e com a interpretação que eles pedem. Felizmente, valorizam muito esse aspecto. Temos um guia, mas muitas vezes as expressões em Inglês são diferentes e é muito bom trazer para Português para não perder a força. Esse também é um desafio para os directores de actores e os próprios actores para tornar isso nosso. E acho que a Sony Portugal está a fazer esse caminho, o único possível para crescermos neste meio.

Esta entrevista foi realizada ao vivo. A ordem das questões, assim como a transcrição, é nossa e assumimos algum erro ou imprecisão na gramática. As informações concretas, porém, são inteiramente reproduzidas.