Não é um ano típico, de forma alguma. Mas, a tradição ainda é o que era com uma fase de testes Beta para um novo Call of Duty nesta altura. Estivemos a jogar os modos multi-jogador de Call of Duty: Black Ops – Cold War e contamos como correu.

Quem nos dera ter já jogado esta Beta nas novas consolas PS5 e XSeries X. Estou certo que tudo o que vi e experimentei foi talhado para algo bem mais soberbo e refinado que o que me foi possível testar na PlayStation 4 Pro. Não me entendam mal, a jogabilidade clássica desta série, continua igual a si própria (com algumas reservas, como irão ver) e visualmente não encontrei nenhuma questão que me leve a crer que o jogo seja inferior na actual geração. Contudo, é ingrato sentir que este título está a ser desenvolvido com mais “sumo” noutra plataforma e somos “obrigados” a testá-lo numa versão “light”. Não há ninguém para culpar aqui, a Treyarch fez o seu trabalho com recursos mais limitados. E não podemos dizer que a PS4 Pro seja assim tão limitada, certo?

O tom está dado para esta sucinta avaliação da Beta, eu sei. É que ao fim destes anos todos nesta franquia, a Activision tem estendido a vida dos seus Call of Duty com expansões, épocas de conteúdo e o modo Warzone, que é mais um “jogo como serviço”, que outra coisa. Assim, a jogabilidade entre títulos começa a confundir-se, com menos espaço de tempo entre os jogos activos e os novos lançamentos. Call of Duty: Modern Warfare ainda há pouco tempo recebeu mais uma época de conteúdo online e já estamos a falar de um novo jogo. Torna-se complicado evoluir a jogabilidade ou trazer algo de novo. Há uns anos, um COD por ano era justificável, hoje em dia é complicado lançar um novo título sem falar de repetição.

Mas, enfim, é o modelo de negócio que a Activision escolheu. Modelo esse, diga-se, que continua francamente popular a cada novo capítulo, apesar de tudo. Mesmo com a enormíssima adesão ao modo Battle Royale de Warzone, o online multi-jogador competitivo clássico de Call of Duty continua a ser o mais apetecível, até mesmo nos circuitos de eSports. E não podemos dizer que as produtoras desta franquia não tenham tempo para mais. A série é dividida entre a SledgeHammer Games, Infinity Ward e Treyarch. As ideias poderão ser concebidas numa edição e a próxima produtora pega nelas logo a seguir para, num espaço de mais ou menos um ano, criar um novo título. É discutível se dá tempo, sobretudo com o suporte pós-lançamento entre títulos. E eu acho que nesta edição, pelo menos na Beta, isso se sente bastante.

Nesta Beta tivemos a oportunidade de jogar oito modos de jogo PvP em cinco mapas. Senti falta aqui de um modo em larga escala, como tivemos em Ground War no jogo anterior. Mesmo assim, o modo Domination para 24 jogadores (12v12) acaba por ser um equivalente mais ligeiro. Call of Duty sempre foi um título de combates mais confinados e em menor escala. Mas, os tempos mudam e as vontades também. Já não há grande paciência para modos e mapas pequenos. E isso nota-se na quantidade de jogadores em cada lobby. Um bom exemplo foi o novo modo VIP Escort, com uma escolta de um VIP até a um helicóptero de extracção. Acaba por ser um modo aborrecido, com os jogadores obviamente concentrados no ponto de extracção e um VIP só com uma pistola a ser um alvo fácil. Os lobbies foram cada vez menos preenchidos ao longo da Beta.

Claro que tudo isto pode mudar na próxima semana com a nova Beta Aberta a trazer as demais plataformas (Xbox One e PC) ao “barulho”, aproveitando a jogabilidade entre plataformas. Certamente os lobbies serão mais preenchidos, pelo menos assim espero. Porque, quando temos salas cheias, o jogo até consegue cativar. O modo de jogo que mais gostei de jogar foi o já mencionado Domination, especialmente no mapa Armada. Neste mapa temos dois navios gigantes em combate e uma série de jogadores a tentar abordar cada navio com ziplines. Visualmente é imbatível, não me recordo de nenhum mapa de jogo tão fantástico como este. Mas, cuidado com as emboscadas no fim de cada zipline. Há campistas em Call of Duty, nada de novo, portanto.

Este é um jogo passado nos anos 80, pelo que as armas, equipamento e também os mapas são modelados e decorados de acordo com esta era. De facto, gostei bastante do contraste entre os mapas de Angola, semi-áridos e pobres e a vibrante Miami. Diversidade quanto-baste, com design de trajectos e obstáculos mais ou menos cumpridor. Este nunca foi realmente o problema da série Call of Duty mas, claro, já tivemos mapas menos bons, ora labirínticos, ora estranguladores. No que toca às armas, é de realçar que demos um óbvio retrocesso tecnológico desde o último título, apostando em miras mecânicas e nada de lasers ou equipamento electrónico. Para compensar, o Gunsmith permitindo-nos personalizar perks e equipamento, tornando as armas, pelo menos, mais eficazes.

A verdadeira revolução (na verdade, um regresso na série Black Ops), são as Wildcards. Tratam-se de modificadores que permitem ignorar as regras dos loadouts, por exemplo, permitindo duas armas principais ou um total de seis perks, em vez nos habituais três. Claro que estas Wildcards possuem as suas desvantagens, mas são um bom regresso, pelo menos para dar alguma variedade aos loadouts. Outro regresso desta série são os Scorestreaks, desta vez, porém, os pontos para activar ataques especiais não reiniciam quando o jogador morre. O que remove um pouco o sentido destes ataques especiais, dando-nos finais de jogo absolutamente insanos com todos a lançar os seus ataques à mínima oportunidade, mesmo com os cooldowns que não fazem muito para evitar o spam.

Modificações na jogabilidade são sempre uma questão de hábito. Agora, onde tive séries questões na jogabilidade foi na detecção de danos. Não sei bem o que culpar, se a efectividade das armas, se o lag ou, neste caso, o netcode do jogo. Dei por mim aleatoriamente a despejar carregadores inteiros sobre adversários que quase nem pestanejaram. Em algumas situações, parecia que a detecção de danos, simplesmente, não estava a funcionar, com os adversários completamente ignorantes dos nosso tiros. Noutras situações, fui subitamente morto com o que parecia ser só um tiro, mas na verdade foi uma rajada que simplesmente não “senti”. Enfim, é uma Beta, eu sei, mas esta questão estragou algumas sessões, pelo menos para mim.

E não me digam que foi simplesmente falta de “kit de unhas”. Os vários replays que assisti, confirmaram que o que tinha sentido, era mesmo o que estava a acontecer. Não estava a falhar na mira, as balas é que nem sempre atingiam os alvos. Notei atrasos no registo das balas nos corpos dos jogadores, sobretudo à distância. O que me leva a pensar se é, de facto, algum problema de registo de danos, de algum atraso na informação registada no servidor (netcode) ou mesmo a velocidade das próprias balas. É complicado perceber, mas certamente a Treyarch terá todos os dados em mãos para melhorar isto na próxima Beta Aberta na semana que vem e, claro, no jogo final.

Noutros pormenores da jogabilidade, não gostei mesmo nada da nova lógica de sprint. Tudo bem, não podemos ter os jogadores sempre a fazer sprint, porque, por mais atlético que um soldado seja, ninguém aguentaria estar permanentemente a correr pelo campo de batalha. Assim, a Treyarch criou uma nova lógica em que o jogador arranca num sprint que vai desacelerando gradualmente. Isto é um claro contraste com o sprint activado premindo o botão duas vezes do jogo anterior, quanto a mim mais prático. Neste novo esquema, não só a velocidade inicial é quase imperceptível, como nos afecta o tempo de mira, o que me levou muitas vezes a evitar correr, sob pena de falhar os tiros seguintes.

Outro elemento que vem mudar um verdadeiro paradigma e que poderá prejudicar bastante a jogabilidade, é a remoção do reflexo da mira em espingardas sniper. Não é algo muito realista, admito, uma vez que um bom sniper deve proteger a mira para evitar esse mesmo reflexo. Mas, em ambiente de jogo, era a única forma de identificar um sniper bem escondido à distância. Esta remoção visa, claramente, beneficiar os “campistas” que, assim, ficam quase imperceptíveis no meio do cenário. Até pode ter sido uma qualquer falha da produção, um esquecimento nesta fase de conceito. Espero bem que tenha sido só isso.

No plano técnico, tirando o pormenor de aparente lag que já mencionei, este parece ser um jogo visualmente apurado. Notei algumas falhas de texturas e de animações, mas estou certo que é fruto de um polimento que estará ainda por fazer. Agora, o que não consegui ultrapassar foi o regresso do típico “som Treyarch” das armas em jogo. Em tempos idos, cheguei a comparar o som das armas dos seus jogos a “pipocas a brotar em panelas”. Fiquei profundamente desapontado pelo som de algumas armas, um outro profundo contraste com o rigor sonoro do anterior Modern Warfare. Bem sei que nem todos ligam ao áudio, mas faz parte da envolvência e houve aqui mais um retrocesso.

Veredicto da Beta

Ainda é cedo para dizer se Call of Duty: Black Ops – Cold War é ou não um bom jogo, obviamente. Contudo, esta Beta desapontou em vários pormenores que, sinceramente, me pareceram um certo retrocesso perante a oferta online do jogo anterior. Podemos ter de culpar a falta tempo entre os dois títulos, talvez a implorar uma maior distância entre si, sobretudo com esta nova lógica de épocas de conteúdo pós-lançamento. No entanto, nas tentativas de criar o seu próprio ADN, também há retrocessos na jogabilidade, quase uma teimosia da Treyarch. Vejamos como o jogo final se irá comportar. Afinal, é para isto que servem as Betas, para testarmos e apontarmos os defeitos para que sejam corrigidos.