Acesso Antecipado – Surgeon Simulator 2

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Os Bossa Studios estão de volta à sala de cirurgias. Tivemos acesso à beta fechada de Surgeon Simulator 2 e percebemos que há um novo rumo dado à franquia. Mas, não pensem que é desta que vão mesmo aprender a fazer transplantes de órgãos…

O primeiro Surgeon Simulator foi um autêntico fenómeno de popularidade. Não podia ser um simulador a sério, aliás essa designação não podia ser mais irónica. Este é um jogo que se disfarça bem de simulador de precisão mas, na verdade, é só um jogo cómico que, de modo algum, deve ser levado a sério. Imaginem um cirurgião que não sabe bem o que está a fazer, a quem é dito apenas o básico e só tem uma mão disponível… e é a esquerda (parabéns canhotos). A premissa tem tanto de cómico, como de desafiante. Sim, era sempre o mesmo, uma sala de operações, um paciente inconsciente, partir costelas, trocar órgãos, arrancar dentes ou algo assim, tudo antes que o dito paciente morra com falta de pulsação. A fórmula era condensada, o jogo era divertido e os fãs gostavam. Agora, a produção quer mudar a oferta, expandindo-a e dando-lhe uma nova envolvência.

Não sou nada contra mudanças para aumentar a oferta. Acho sempre que há espaço para aumentar ou melhorar a jogabilidade em quase todos os jogos. As sequelas servem mesmo para isso, remodelar a forma de jogar, mantendo a sua familiaridade. E nesse ponto de vista, Surgeon Simulator 2 consegue exactamente isso. Ao adicionar um ambiente mais amplo, com salas de operação em que nos podemos mover livremente na primeira pessoa, dá-nos uma outra perspectiva, bastante mais ampla e com espaço para algumas novas formas de jogar. Por exemplo, os órgãos para transplantar podem estar em compartimentos frigorífico próprios e os utensílios têm um armazém próprio, também.

Também a própria sala tem mais espaço e permite-nos abordar o paciente Bob (sim, tem o mesmo nome) de vários ângulos. Esta nova abordagem é essencial para os novos tipos de intervenção cirúrgica, como o improvável transplante de braços ou pernas. Além disso, existe uma nova máquina de diagnóstico que é preciso consultar e terão de ir buscar seringas de coagulação ou de transfusão. Aliando isto à necessidade de ir buscar órgãos ou utensílios às divisões próprias, cria uma nova “dança” para o cirurgião, tantas vezes a correr contra o relógio ou, neste caso, contra a morte do paciente.

Mas, os Bossa Studios decidiram dar dois passos em frente… dois passos que podem ser tanto controversos, como apenas “chatos”. O primeiro passo tem a ver com a introdução de uma série de puzzles em jogo. Algumas salas estão inacessíveis e é preciso usar uma série de objectos ou simples malabarismo para entrar nessas salas ou desbloqueá-las. Entendo o intuito, até porque, como já disse, temos um novo enredo para desvendar, um mistério em torno deste misterioso hospital, em que parece que os nossos tutores tanto querem ajudar como prejudicar. Entendo, mas não acho que o jogo beneficie desta nova lógica. Já basta termos tudo longe, também temos salas fechadas à espera da nossa intuição. Com um paciente a esvair-se na mesa de operações…

Isto porque o outro passo que a produtora deu, foi apostar numa lógica multi-jogador. Já no jogo anterior tinha havido algumas tentativas de juntar amigos numa sessão. E é algo que eu considero extremamente interessante, seja para jogar em equipa, seja para sabotar o que outros fazem. A amplitude das salas e os tais puzzles são claramente adaptados para esta realidade multi-jogador, até quatro participantes em cada teatro de operação. Infelizmente, no meu acesso antecipado no PC, por mais que tentasse, numa consegui uma sessão completa, o que levou a diversas situações complicadas com falta de um ou mais jogadores para as intervenções mais complicadas.

Ainda assim, por mais divertido que seja jogar com amigos e vê-los fazer toda a sorte de asneiras, como colar a cabeça de Bob no lugar de um braço, acaba por ser um pouco caótico demais e perde-se um pouco o rumo do jogo. Podemos até estar focados em fazer o transplante a Bob, com cada um dos “médicos” a ter funções diferentes. Mas, nem sempre alguém se junta com esse propósito, tentando colocar um pato de borracha no lugar do coração. Tem piada, rimo-nos um pouco… mas, pronto, já chega. Quando aparece o quadro de que falhámos outra vez a operação e Bob não resistiu, sente-se o peso do tempo perdido. E nem sempre as pessoas falham propositadamente, notem.

É que os controlos imprecisos são novamente uma parte integrante da experiência, literalmente quatro pessoas a usar uma mão esquerda incompetente. Na versão PC, usamos o teclado para os movimentos gerais e o rato para controlar a mão em si. Estes controlos são propositadamente complexos e exigem uma coordenação que se torna quase impossível. Repito que é propositadamente assim, sendo uma das imagens de marca do jogo o quão difícil é controlar a mão com precisão. Agora, coloquem-se quatro pessoas nos mesmos termos, uns com ideias de completar a missão, outros nem por isso e chegaremos à conclusão que, se calhar, isto nem sempre funciona muito bem.

No fundo, o empenho neste jogo vai acabar por ser proporcional à nossa vontade de o terminar, versus a vontade efémera de rir um bocado com momentos absurdos. Jogar basquetebol com a cabeça de Bob, não tem preço, eu sei. Acreditem, em todas as sessões que estive, raras foram as vezes que foi enfadonho. Mas, lá está, as tropelias são divertidas mas estragam a jogabilidade. Raras foram as vezes em que as pessoas que encontrei quiseram realmente colaborar. Aliás, só consegui concluir cirurgias com sucesso em sessões vazias. Uma vez que só concluindo cirurgias com sucesso é que podemos evoluir e desbloquear novas salas, torna-se frustrante. Jogar sozinho é possível, mas complica mais as coisas com tantas novas mecânicas e lógicas à mistura.

Noutro lado, gostei bastante do novo sistema de construção de níveis. Achei óptima a ideia de podermos criar a nossa própria sala de operações ou qualquer outra “arena” que a nossa imaginação idealize. Apenas achei o interface de construção e modificação um pouco confuso, algo complexo demais a posicionar ou a alterar objectos. Realmente, nem as ajudas no ecrã servem de muito quando queremos simplesmente rodar um objecto invertido, por exemplo. Devia haver um tutorial, pelo menos. Aliás, fiquei bastante surpreendido ao ver tantas criações de jogadores já partilhadas. Alguém venceu a confusão inicial do interface, criando imensos níveis para expandir ainda mais este jogo.

No plano técnico, não há grandes surpresas, nem o esperava. Este foi um acesso antecipado via Beta Fechada, pelo que não posso afirmar que tudo o que experimentei seja definitivo. Contudo, estando próximos do lançamento, acredito que muito do que vi seja já uma antevisão do que está para chegar. Graficamente, o jogo continua a levar tudo no plano da caricatura, sem grande esmero em texturas, modelos ou animações. Cumpre no efeito “banda-desenhada” desejado e é só o que é preciso. Cada personagem poderá ser personalizada, embora nesta Beta não encontrasse grandes opções, além de umas quantas peças de roupa que ganhamos ao subir de nível.

O tal matchmaking falível que me impediu de jogar em sessões completas precisa de algum trabalho, ou então deviam ter convidado mais jogadores para a Beta de modo a encher estas sessões. E sempre que conseguia encontrar mais alguém para jogar, também notei que havia sempre um certo “lag” entre jogadores, talvez fruto de um netcode a precisar de melhorias. Repito, foi uma Beta e não posso considerar código final. Contudo, sendo a jogabilidade multi-jogador online o principal foco deste segundo jogo, devia ser um pouco mais trabalhado para a podermos testar na sua plenitude.

Conclusão da Beta Fechada

Maior nem sempre significa melhor. Nunca achei que o primeiro jogo precisasse de expandir-se para ser, de alguma forma, melhor. Contudo, Surgeon Simulator 2 não podia ser simplesmente uma repetição. Tenta inovar com uma nova lógica mais ampla, com uns puzzles à mistura e uma pequena história envolvente. Nada contra. Só que é uma descolagem um pouco brusca do conceito original. E juntar um ambiente multi-jogador é algo arriscado que, para funcionar como pretendido, precisa de um pouco de trabalho. Ainda assim, foi bom voltar a esta franquia. E Bob, coitado, ainda vai ter muita cirurgia pela frente…

Surgeon Simulator 2 será lançado num dia a anunciar neste mês no PC via Epic Games Store, na PlayStation 4 e Xbox One.