Calma, não é um erro. Ainda não é desta que vamos analisar o F-16 Falcon. Na verdade, não podíamos estar tão longe desse modelo com este pequeno Polikarpov I-16, a mais recente adição aos módulos do DCS World. E, que diversão é voar este “pequenote”.

O DCS: I-16 pertence a um lote muito peculiar de aviões de combate disponíveis no DCS. Apesar do grande foco nos jactos e noutros aviões modernos de combate, há uma emergente colecção de aviões da era da Segunda Guerra Mundial que povoam os seus céus virtuais. Podem não ser tão velozes ou tão poderosos a nível bélico mas são, ainda assim, marcos históricos dos primórdios da aviação de combate. Para o seu tempo, o I-16 é um avião muito básico de operar, incrivelmente tolerante e surpreendentemente ágil. Contudo, tem também as suas pequenas “nuances” que o tornam desafiante, como irão ver. Tal como os seus companheiros históricos, acaba por ser um contraste bem vindo do resto da oferta do DCS. E, às vezes, só queremos mesmo descomprimir a baixa altitude.

O I-16 foi um caça de fabrico Soviético de 1930, que viu acção na Segunda Guerra Mundial e noutros conflitos, tendo mesmo voado para os dois lados da Guerra Civil de Espanha. Trata-se de um caça mono-plano, mono-motor e monolugar, que foi o primeiro avião de combate com trem retráctil a ser produzido em massa. O seu aspecto peculiar levou-o a ter muitas alcunhas. Foi chamado de “Macaco” pelos pilotos Soviéticos, “Rata” pelos Nacionalistas Espanhóis e “Mosca” pelos seus rivais Republicanos. Apenas os finlandeses (do lado Nazi) lhe deram um nome mais “digno”, chamado-o de “Siipiorava” (esquilo-voador). O seu design, no entanto, mereceu respeito, ora não fosse concebido pelo venerável Nikolai Polikarpov.

O seu motor radial Shvetsov M-63 refrigerado a ar dava-lhe uns impressionantes 1100cv de potência. O que, para um avião de apenas 6m de comprimento e 9m de envergadura, se traduzia numa agilidade nervosa. A bordo, o I-16 levava um total de quatro metralhadoras (duas de 7.62mm e outras duas de 12mm) que eram devastadoras no combate próximo. Infelizmente, tinham a tendência para encravar bastante, o que obrigava a constantes recarregamentos manuais do piloto. Para o chão, o pequeno caça também podia dar algum suporte graças à capacidade de carregar seis foguetes RS-82 não guiados ou cerca de 500Kg em bombas de queda-livre. Temível quanto baste, portanto.

A concepção deste aparelho para o DCS ficou a cargo da desconhecida produtora OctopusG. E, para primeiro projecto, teve os seus desafios. Embora o avião seja francamente simples no conceito, o seu controlo e operação não são assim tão simples. O I-16 surgiu numa era em que os automatismos e motorização de sistemas eram apenas um sonho no horizonte. O trabalho que a produção teve foi mais o de ser fiel ao modelo histórico, com todas as suas idiossincrasias e elementos estranhos. Olhando para este avião, depois de tantas horas a voar aparelhos mais convencionais, inclusive da mesma era temporal, deu-me um choque tecnológico tremendo. Lembrem-se que na União Soviética as coisas tendem a ser bastante diferentes.

E não falo apenas nos instrumentos que mostram Quilómetros por hora em vez de Nós ou Metros em vez de Pés. Essa é uma tendência bastante “eslava”, mesmo nos aviões modernos Russos, que não adoptaram o sistema Imperial aeronáutico que estamos habituados. Vive-se bem com isso. Estou mesmo a falar da quantidade de instrumentos estranhos, da interacção com tantas manivelas e mesmo os procedimentos encadeados e que tanta carga de trabalho davam ao piloto. Aqui, não há botões que activam um motor eléctrico que sobe ou desce o trem. Aqui, roda-se uma manivela para o subir ou descer, mas temos de ligar a roldana para a orientação certa. Os flaps? Manivela… Rearmar as metralhadoras? Quatro puxadores… Enfim.

A recriação do cockpit, com a sua característica janela aberta estilo gaiola, o seu painel em meia-lua e a quantidade insana de manivelas e puxadores foi exemplar. Tive a oportunidade de visionar uma série de imagens, tanto históricas como de aeronaves restauradas e, de facto, a reprodução da OctopusG parece exemplar. O avião real teve imensas variantes e actualizações de conceito. A produção escolheu o modelo I-16 M24, uma das derradeiras variantes deste modelo. Não temos forma de avaliar o quanto este módulo do DCS é realmente fiel a esta variante real, mas acreditamos que tenha havido rigor na recriação, talvez recorrendo a material histórico de época ou até a alguma aeronave restaurada.

Preparem-se para um cockpit inteiramente em Russo, não havendo (para já) um daqueles cockpits traduzidos para quem não sabe o que quer dizer “надув”. Para além das imensas manivelas que terão de operar, este avião tem alguns procedimentos específicos, como o acumulador da ignição que nos obriga a aguardar 20 segundos até ter carga suficiente para rodar o motor e injectar combustível. Aconselho (mesmo) a arrancarem o avião automaticamente (teclas Win+Home) e acompanharem o processo. Até porque nesta fase ainda não encontrei nenhum manual nos ficheiros deste módulo.

Uma vez ligado, o motor radial dá mesmo vida a este pequeno “mosquito”. O painel vibra, os instrumentos ganham vida e o céu espera-nos. Contudo, os problemas começam logo a aparecer no taxi. Tal como quase todos os outros “tail draggers” desta era, o I-16 tem uma tendência para “rabejar” ao mínimo deslize. Apesar de no menu do DCS podermos activar a habitual ajuda no leme de direcção, aconselho vivamente a remover este auxiliar que mais estraga que ajuda, para dizer a verdade. Sobretudo se usarem pedais como os nossos Thrustmaster Pendular Rudder. A maior das dificuldades é manter o avião alinhado na corrida para a descolagem. Um pouco de prática e lá vamos para o ar.

E é aí que o I-16 quer estar, na realidade. O comportamento em voo é surpreendentemente estável, dando imenso controlo nas voltas e sendo muito facilmente orientado com muita capacidade de resposta. Infelizmente, o I-16 não possui qualquer tipo de compensador (trim), pelo que a operação para o estabilizar é constante. E nunca larguem a mão do manche ou vão ter muitos problemas. Uma vez mais, tudo depende da prática e descobri que dar “uns toques” de flaps (que não possuem posições fixas) até pode ajudar um pouco. Até uma certa velocidade… Descobri da pior forma que acima de uma determinada velocidade (variável), tanto os flaps como o trem deixam de funcionar. A sério que preciso de um manual…

O que posso dizer é que há poucas experiências tão agradáveis como voar num avião deste calibre com a canópia aberta e com o fantástico ruído de um motor radial em funcionamento. Já com o DCS: Yak-52 esta experiência era interessante, dando-nos o privilégio de experimentar (virtualmente) como era voar nesta era mais rude e com óleo a jorrar por todo o lado. Mas, ao contrário do Yak, este outro modelo “tem dentes” e até estão bastante afiados. O I-16 é um avião de combate ar-ar, de uma era em que qualquer vantagem de motorização e aerodinâmica era explorada até à exaustão. O I-16 talvez nunca ganhasse confrontos directos contra outras “máquinas” mais refinadas, como o P-51 ou o mesmo o Spitfire no seu tempo. Mas, estou convicto que o seu “nervosismo” nas mãos de um piloto experiente fariam a diferença.

As metralhadoras são qualquer coisa de fenomenal. Ver tantas munições “tracer” no ar é algo que nunca passa de moda. Fiz uns quantos dogfights com um piloto virtual amigo e achámos que este aparelho é surpreendentemente manobrável, mesmo em regimes mais baixos. Aerodinamicamente, tem muita coisa em desfavor, como a enorme frente ou a canópia tão elevada. Mas, compensa bastante com os lemes de grande dimensão e a potência sempre presente. A falta de compensador sente-se bastante quando queremos fazer ataques precisos, sobretudo quando o inimigo não quer ficar quieto. Mas, é por isso que podemos chover balas na sua direcção… muitas balas! Uma há-de acertar.

No combate ao solo, infelizmente, notei que só tinha foguetes disponíveis. Não há opção de carregar bombas, nem sei se fará parte dos planos ou que este modelo M24 tivesse essa capacidade. E alvejar seja o que for com estes rockets não é uma tarefa fácil. Podemos escolher disparar em salva ou singular, permitindo que a sua imprecisão seja mitigada pela quantidade de munição no ar. Contudo, não há uma mira específica para esta arma, sendo mais eficaz em ataques de queda-livre que em voo planado, uma vez que não temos forma de medir distâncias, nem a mira é ajustável. Há, com certeza, um procedimento específico para operar os foguetes mas… já mencionei que não encontrei o manual?

Por mais complexidade no painel, por mais que os combates aéreos exijam prática, o meu principal desafio com o I-16 foi… aterrar. Sim, bem sei que os aviões da Segunda Guerra Mundial não são particularmente fáceis de aterrar, sobretudo pela configuração do trem e a disposição do cockpit que remove tanta visibilidade com o nariz do avião a tapar o ângulo. Usando técnicas que aprendi nos demais aviões da WWII, consegui muitas aterragens bem sucedidas. Mas, nem sempre. A tendência do I-16 é derrapar lateralmente na desaceleração, pelo que uma velocidade mais reduzida é essencial na aproximação. Mas, mesmo com flaps a ajudar, o enorme nariz é um obstáculo visual tremendo. Prática, prática e mais prática.

O I-16 é um módulo singelo, nada pretensioso e cheio de vontade de nos dar uma variedade na oferta do DCS World no que toca aos aviões da Segunda Guerra Mundial. É visualmente bem concebido, com muitos pormenores realistas e bem modelados, tanto a nível visual como sonoro. O clássico cockpit da era Soviética tem um aspecto credível, mesmo que alguns pequenos ajustes nas animações ainda sejam necessários. As pinturas disponíveis também são curiosas, com as principais forças aéreas que operaram este modelo representadas em pinturas mais ou menos curiosas. Visualmente, porém, nunca ganhará um prémio de beleza, mas isso não é culpa do módulo, culpem Nikolai Polikarpov.

Em termos do que este módulo vos pode proporcionar, é mesmo isso: variedade. A pergunta que se faz, se esta era da aviação tem lugar no DCS World, é alvo de debate há anos. Se tem, então o DCS: I-16 está no seu lugar, dando-nos um outro lado da história da aviação, com um curioso avião Soviético desta era. Haveriam outros aparelhos mais populares para recriar (estamos a olhar para ti, IL-2), mas esta é, de facto, uma boa surpresa. Os combates aéreos são muito divertidos entre estes aparelhos, apenas não os coloquem à prova contra outros mais avançados. O ataque ao solo é que é menos interessante, mas este é um avião caça e não um bombardeiro. A OctopusG está de parabéns pelo esforço, num avião aparentemente simples mas com alguma complexidade na sua operação.

O DCS: I-16 está já disponível para voar em acesso antecipado na loja da Eagle Dynamics e também via Steam. Será ainda alvo de algumas melhorias e adições num futuro próximo. Talvez então tenhamos o tal manual que não encontrei…

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, e foi gentilmente cedido pela OctopusG e pela Eagle Dynamics. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento.

Se desejarem conhecer a pequena comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook e o canal de Discord da Esquadra 701. Uma parte das imagens que usamos neste artigo foram criadas neste grupo.