Hoje vou falar-vos de um avião de combate… num simulador civil. A produtora IndiaFoxtEcho tem aqui um paradoxo: O seu F-35 Lightning II é um fenómeno de popularidade. Mas o Microsoft Flight Simulator não é, de todo, o simulador mais adequado para o que nos traz.

Sim, o simulador introduziu recentemente a aviação militar com o seu F/A-18 Super Hornet. Mas, estamos longe, muito longe do que é uma verdadeira simulação de aviões militares supersónicos e dos seus sistemas complexos, especialmente de sensores e de armamento. Aliás, nem é sequer possível simular armas ou radares, o que levou a uma situação algo caricata com este módulo. Como irão notar, eu adorei voar este F-35 da produtora Italiana. Só que quando exploramos os seus limites, falta-nos algo mais… e todos sabemos o que é. Falta-lhe uma grande “dose” de DCS World (estão a ouvir, IndiaFoxtEcho?).

O Lockheed Martin F-35 Lightning II é a actual “coqueluche” das forças aéreas ou navais da NATO. Desenvolvido no âmbito do ambicioso e multi-milionário programa Joint Strike Fighter, é um verdadeiro caça polivalente. Junta muitas opções design e sistemas avançados, especialmente nas suas características furtivas ou “stealth”, herdadas do lendário F-22 Raptor. Adiciona várias tecnologias de ponta, como a junção de sensores numa suite única de informação ao piloto, que o tornam um dos mais avançados caças de sempre, no limite da chamada 5ª geração de aviões de combate.

O Lightning II foi desenvolvido pela Lockheed Martin, BAE Systems e Northrop Grumman com três variantes: O F-35A é a versão mais produzida, com propulsão CTOL (voo convencional) e que vem substituir o venerável F-16 Falcon nas forças aéreas mundiais. O F-35B é a versão de propulsão VSTOL (vertical or short take off or landing), especialmente desenhado para substituir o velhinho AV-8B Harrier II nas forças anfíbias como os Fuzileiros Navais. E o F-35C é a versão de porta-aviões, para substituir no futuro o F/A-18 Super Hornet nas marinhas que os operam.

Embora distintas, as versões do F-35 são funcionalmente iguais, variando apenas na lógica de propulsão (CTOL, VSTOL ou Carrier), algumas armas, autonomia, tipo de reabastecimento aéreo, peso máximo à descolagem e envergadura de asas. De resto, partilham todos os sistemas e lógicas de operação, o que garante às forças armadas uma inter-operacionalidade sem precedentes. Basicamente, apenas necessitando de uma curta fase de conversão, um piloto de F-35 consegue voar qualquer versão.

Além dos EUA, as forças militares de Itália, Holanda, Noruega, Dinamarca, Reino Unido e outras, todas pertencentes à NATO, operam o F-35 nas suas forças aéreas, navais ou de fuzileiros. Pelos seus avanços técnicos, este é um aparelho relativamente secreto, pelo menos ao nível de sistemas de combate. Contudo, há já bastante documentação em torno da sua operação, o que permitiu à IndiaFoxtEcho criar uma simulação credível e curiosamente precisa (segundo o seu manual).

Só que, temos de nos recordar que o simulador que estamos a usar é civil. Assim, os sistemas de armamento são meramente cosméticos. Aliás, se comprarem o módulo no Marketplace do MSFS este nem contempla armas. Somente as versões compradas fora desta loja contém armas inertes. A forma como a produção as implementou é engenhosa, bastando adicionar peso nas estações, como se de carga/combustível se tratasse (acima). Apenas adicionam peso, de facto, mas dá “outro estilo” voar com o Lightning II armado, claro.

Outras limitações visam os sistemas a bordo. O F-35 estreou uma novíssima lógica de fusão de sensores, que junta num só painel todos os sensores a bordo, desde o poderoso radar AESA, o sensor electro-óptico no queixo (EOTS), os detectores de ameaças e a suite de guerra electrónica. Infelizmente, toda esta lógica fica de fora nesta simulação, não sendo possível simular nem sequer o avançadíssimo sistema de HMD (helmet mounted display), embora esteja planeado algo para o futuro.

Tendo em conta as suas omissões, parece que a operação do avião será um tanto “fictícia”. Contudo, a IndiaFoxtEcho assegura que toda a simulação do voo, inclusive a lógica fly-by-wire, a operação dos painéis e até o comportamento e lógicas dos sistemas presentes, são as mais fiáveis que irão encontrar. De facto, a operação do F-35 nos vários cenários é bastante robusta, com muitos pequenos detalhes, animações e lógicas que mostram grande profundidade e interesse pelo realismo.

Claro que operar a variante F-35B obriga a um “jogo de cintura” com o MSFS, já que este simulador não consegue operar muito bem aparelhos de descolagem ou aterragem vertical. É umas espécie de “magia negra” quando fazemos a transição. Como já dei a entender, também as velocidades supersónicas são ainda uma “ciência pouco exacta” neste simulador. E não vale a pena procurar realismo na operação em porta-aviões. Cumpre o objectivo e fiquemos por aí.

Algo a reter neste módulo, claro, é o factor diversão. Por vezes, apenas queremos voar. Não queremos grandes chatices, muitos procedimentos ou inúmeros passos na checklist. Embora exista aqui bastante profundidade possível para a operação, o F-35 da IndiaFoxtEcho é um aparelho para diversão. Faz quase tudo bem feito, sempre com uma sensação de controlo absoluto e uma simplicidade notória, fruto do próprio design do avião real.

Visualmente, não é possível falar no F-35, sem falar no seu aspecto futurista e tão amplamente copiado por aí. As linhas esguias e reflectoras de sinal de radar, assim como as portas de armamento, o nozzle recortado, sem esquecer os sistema de propulsão vertical da versão B e a maior envergadura da versão C, tudo foi modelado com extremo cuidado e precisão, inclusive com as várias pinturas das unidades que voam actualmente o Lightning II.

Há algo menos positivo nesta simulação? Desculpem insistir, mas fica a faltar o aspecto militar de uma aeronave… militar. É discutível se queremos um avião deste género no MSFS, ainda por cima se o simulador não está preparado para algo tão rápido. Desculpamos isso pelo preço simpático (29,99€), pelo factor diversão garantido e pela oportunidade épica de voar um caça da quinta geração, mesmo de forma limitada. Por vezes, é só mesmo esta experiência que os jogadores querem.

Tenho também de realçar que este “desajuste” no simulador escolhido causa alguns problemas notórios. Além de um “tremer” constante na transição entre VTOL e voo convencional na versão B, também há alguns problemas de detecção de colisões a operar nos porta-aviões (vendidos em separado). Contudo, o problema mais grave surge com alguns crashes aleatórios para o ambiente de trabalho. A produção está ciente e está a trabalhar com o Asobo Studio para encontrar uma solução.

Veredicto

Se procuram um avião para pura diversão, num simulador que convida ao “arregalar do olho” e que não pretende “ganhar nenhuma guerra”, o IndiaFoxtEcho F-35 Lightning II é um módulo que vão adorar. As três variantes possuem o seu próprio charme, com especial destaque para a versão VSTOL. Não esperem, contudo, algo do nível de uma simulação de combate. O Microsoft Flight Simulator não é, de facto, o melhor “palco” para este “artista”. Como já disse, falta-lhe a transição para algo mais… substancial. Algo mais… DCS… Fica a dica (outra vez).

Nota: Esta análise foi realizada em conjunto com outros dois pacotes gentilmente cedidos pela IndiaFoxtEcho. São perfeitamente opcionais, mas muitíssimo recomendados para voar com estes aviões na sua plenitude de capacidades. A saber: O pacote de porta-aviões Ford-Class (CVN-78) e o pacote de navios de assalto anfíbio America-Class (LHA-6).