Marcando a nossa estreia em análises no X-Plane 11, a Flight Factor Aero teria de ser uma das primeiras referências para falar de módulos/add-ons para este simulador. E começamos logo pelo mais famoso, o lendário Boeing 767.

Que boas memórias me traz este avião comercial. Como qualquer outro veterano dos simuladores, foi inevitável cruzar-me com um dos melhores add-ons para o Flight Simulator 2004 e Flight Simulator X, o mítico Level-D 767. Outros tempos, é certo, mas esse foi, para mim, uma das melhores simulações de sempre para o FS9/FSX. E, sim, hoje vou falar do mesmo modelo da Boeing mas para o XP11, se bem que a variante representada neste add-on é uma das mais recentes deste bi-motor de longo curso, o 767-300ER. Inserido também no pacote “Extended”, que inclui também as variantes 200ER e 200F, estes modelos foram criados pela Flight Factor em conjunto com a StepToSky, estando também disponível nesta linha, o modelo “irmão” de médio curso da Boeing, o não menos lendário Boeing 757. Este é o regresso de uma lenda ao meu hangar.

Sim, uma lenda. Infelizmente, o Boeing 767 está lentamente a ser substituído por aviões mais económicos e mais avançados nas várias frotas mundiais. Entrou ao serviço em 1982 na versão 767-200, com a promessa de um “wide-body” bi-motor com capacidade máxima (na altura) para até 290 passageiros num alcance de 3,900 milhas (7,200 km). As diferentes variantes trouxeram mais dois modelos de fuselagem estendida, o 767-300 com capacidade de até 351 passageiros na mesma distância e o 767-400ER, uma versão lançada em 2000 com pouca produção mas que leva até 375 passageiros numas impressionantes 5,625 milhas (10,415 km). A dada altura, o 767 foi o “rei” do longo curso de baixa densidade, recebendo competição apenas com o A300 e o A310 da rival Airbus.

A Boeing estava tão confiante no seu aparelho, que lhe conferiu uma série de melhorias técnicas. A versão que temos neste add-on é a -300 Extended Range apresentado em 1988, que permite esticar a autonomia para 5,980 milhas (11,070 km), ultrapassando a concorrência do seu tempo de forma clara. Outra novidade introduzida nestes modelos actualizados foram as famosas winglets que ajudam a poupar combustível, reduzindo o arrasto provocado pela sustentação. Outras melhorias são mais subtis em sistemas e lógicas, como os ecrãs TFT, por exemplo. De um modo geral, porém, o Boeing 767 manteve-se intacto, numa indústria sempre em constante modernização e evolução.

Isto significa que o choque tecnológico é bastante evidente quando nos sentamos pela primeira vez no seu no cockpit. Aqui está um avião que mistura tecnologia digital com analógica, num período em que a aviação estava a dar os primeiros passos na simplificação de instrumentos. O resultado é um PFD e ND ainda na disposição antiga (vertical), ladeado com instrumentação analógica e um painel overhead completamente “caótico” e repleto de teclas e selectores. Daqui em diante, a Boeing daria um salto profundo na automatização com o 777, o mítico 787 e o mais recente 737 Max. Este aparelho marcou, de facto, o fim da era da instrumentação analógica, mas que até deixa algumas saudades.

Mas, isto não significa que este aparelho seja menos capaz, notem. Possui um FMS (Flight Management System) ao nível dos sistemas mais modernos, embora com uma lógica de paginação um pouco mais arcaica. Tem capacidade para efectuar aproximações em Cat. IIIb (aproximações automáticas com visibilidade mínima de 300 metros), três sistemas hidráulicos independentes e redundantes e até uma turbina RAT para emergências. Além disso, foi um dos primeiros bi-motores a receber certificação ETOPS 120 minutos (180 em 1989) para operação sobre o mar. Este também foi o primeiro Boeing a testar uma forma simplificada de Fly-By-Wire, com actuadores eléctricos nos spoilers em substituição dos vulgares cabos de controlo. O resultado destas e de outras lógicas foi a criação de um “avião do piloto”, algo raro nestes tempos de engenharia aeronáutica tão automatizada.

Por tudo isto, voar o FF 767 é um prazer. Como sempre faço, gastei algum tempo a ler o manual e apreciei bastante que este add-on tenha um sistema que explica textualmente o que cada botão faz com um clique do botão direito do rato. A Flight Factor e a StepToSky trazem uma recriação bastante fiel do cockpit, modelando todos os sistemas vitais para a operação, tanto do lado do comando, como do lado do co-piloto. Entre outros pormenores que saltam à vista, está a recriação fiel dos monitores, dos comutadores e botões, assim como a iluminação geral realista, sobretudo à noite. Também o feeback é excelente, com cada tecla a reproduzir um som satisfatório. Muita da qualidade visual vem logicamente do próprio XP11, um simulador bastante avançado a nível gráfico, mas há mérito da produção.

É já quase uma “norma” que os add-ons modernos, pelo menos no XP11, tragam consigo um menu de controlo em tempo real das opções do aparelho, na maioria dos casos, no formato de um tablet. A FF foi das primeiras produtoras a adoptar esta lógica que considero muito bem vinda. Basicamente, podemos controlar todas as opções do avião neste pequeno tablet, desde configurações específicas de lógicas da operação do avião, carregar passageiros ou carga, chamar handling no chão, programar falhas, seguir o infame QRH ou correr as checklists e até mesmo usar o PA para falar com a cabine. Longe vai o tempo em que tínhamos de preparar tudo antes sequer de arrancar o simulador em si. Agora, podemos carregar o avião como queremos, no momento e de forma interactiva.

E é aqui que notei os pequenos pormenores que envolvem o “piloto” virtual. Para carregar o avião de passageiros e carga, carregamos em LOAD e ouvimo-los mesmo a entrar e a carga a ser introduzida no porão. Há aliás, uma quantidade de pequenos sons e pormenores interessantes, como o assistente a contactar o cockpit a dizer que não pode carregar passageiros porque não temos o autocarro disponível. Na verdade, o handling de chão é quase todo cosmético, tendo apenas as unidades de ar comprimido e energia (GPU) ou os calços como reais elementos de interacção. Mas, a envolvência é garantida. Em muitos casos, estas pequenas animações de handling e interacção só existem com software de terceiros. Aqui, já está incluído e é perfeitamente integrável no cenário.

Se tiver de destacar um ou outro destes pequenos ajustes no tablet, é a personalização possível do aspecto e interacção do painel, com várias opções para instrumentos. Também tenho de destacar uma simpática opção nas checklists, que nos permite seleccionar uma linha como um “challenge” e obter uma cor de resposta positiva (verde), em processo (amarela) ou negativa (vermelho). Também é possível fazer uma “auto-checklist”, em que a Inteligência Artificial opera os passos da secção escolhida. Apenas tenham cuidado porque isto não é bem um co-piloto virtual. É um automatismo, o que significa que se lançarem uma Approach Checklist no meio de uma descida, o automatismo não vai verificar velocidades para descer flaps, por exemplo. Tenham cuidado se não querem descer… “mais depressa”.

No que toca à operação do aparelho em si, pegar no manche deste FF 767 é uma experiência agradável. Depende sempre bastante dos periféricos (joysticks, manches, quadrantes de potência ou pedais) que possuem, obviamente. Ainda assim, o controlo deste avião no modo manual é bastante suave e surpreendentemente reactivo. Diria que estava a voar um B737 “expandido”, o que é só positivo dado o tamanho do aparelho. Gostei particularmente da operação do radar meteorológico e GPWS personalizado, funcionalidades exclusivas deste FF 767. Consultado o FCOM deste avião, não dei pela falta de uma ou outra funcionalidade essencial, com a quase totalidade dos sistemas modelados, deixando de lado apenas pormenores menos importantes, como o circuit breakers, por exemplo.

E é ainda mais impressionante quando as coisas não correm bem. Existem centenas de falhas disponíveis para programar ou que surgem de forma aleatória em sistemas tão complexos, como perdas de hidráulica, fugas, descompressões de cabine (podemos até colocar a máscara de oxigénio e tudo), entre outras emergências mais ou menos complicadas. Também devem ter em conta que o avião acumula falhas persistentes e que se desgasta entre ciclos, o que significa que não estamos sempre a voar um avião “novinho”. Convém consultar a página de “reports” no tablet, e verificar alguma falha no sistema e agir de acordo. Felizmente, os novatos podem ser fazer reset a estas falhas persistentes.

Já falei como os painéis e animações do cockpit são exemplares e de como a produção não olhou a meios de tornar a experiência visual o mais realista possível. A modelação 3D e as texturas são das melhores que já vi neste simulador, assim como a iluminação e até os reflexos dinâmicos dos painéis, está tudo muito bem concebido. Mas, a qualidade visual não se fica apenas pelo cockpit. Também a própria cabine de passageiros está inteiramente modelada, com galleys e tudo. E não é só no interior que este aparelho brilha. Todo o modelo exterior transpira realismo, inclusive no efeito de “wing flex” das asas em ângulos de ataque mais acentuados ou em turbulência, além de um efeito de reflexo muito realista.

Porque nem tudo pode ser brilhante, há alguns pormenores que gostei menos. Apesar de apreciar bastante dos sons e de ser possível ajustar a sua intensidade no geral, o ruído da motorização pareceu-me pouco presente e sintético demais. Não diria que está mal reproduzido, no cockpit real mal se ouve o motor em algumas fases, mas gostava de “sentir” mais o “whine” e a vibração em regimes altos lá na frente. Também achei que tanto pormenor, animações e texturas de elevada resolução, têm um preço a pagar. Notei que o modelo é um pouco “pesado”, tendo registado quebras acentuadas em aeroportos mais densos. E alguns efeitos visuais também não estão muito bem concebidos, como o blur causado pelos gases dos motores a ser um pouco exagerado em idle.

Notas Finais

Para primeira experiência do WASD no X-Plane 11, foi um agradável voo de longo curso. O Flight Factor 767 Pro é uma das melhores simulações que já experimentei neste simulador em particular. O avião em si, é uma curiosidade tecnológica, que mistura o digital com o analógico, mas que resulta numa operação muito próxima aos aviões modernos. E a Flight Factor em conjunto com a StepToSky trazem aqui uma reprodução fiel deste avião, cheia de pormenores de arregalar o olho e que nos dão a envolvência necessária para quem exige mais de um simulador. Se procuram realismo, profundidade de sistemas e fidelidade na operação, é absolutamente essencial que juntem este avião ao vosso hangar virtual.