A par da excelente oferta de aviação moderna, a Eagle Dynamics continua a sua demanda de trazer óptimas réplicas digitais de ícones da Segunda Guerra Mundial. A mais recente aposta é o DCS: Mosquito FB VI que representa um novo marco nos módulos de aeronaves e no nível de detalhe neste tipo de aparelhos no DCS World.

O desenvolvimento deste módulo, porém, não foi isento de pontos de interrogação. Segundo consta, o modelo já esteve mais perto do lançamento, mas, diz o rumor, um dos especialistas terá testado o módulo numa fase final e vetou essa versão. Não sei se a história é verídica mas, se é, é um bom atestado da qualidade que a equipa de produção procura nestes modelos. Algo não passa no escrutínio da produtora, volta para a mesa de trabalho e regressa mais tarde, nem tanto para impressionar, mais por uma questão de fidelidade ao aparelho real. Convenhamos que construir um módulo tão complexo, de um avião que tecnicamente já nem voa (só quatro exemplares é que continuam certificados para voar), é um feito. Exige atenção ao detalhe, à documentação e aos especialistas que o conhecem. O resultado está aqui e não podíamos estar mais entusiasmados.

É que este é um avião muito peculiar. Não apenas porque é o primeiro módulo bi-motor a hélice no DCS World, com todas as características que o acompanham, como é o primeiro avião desta era com tripulação dupla operacional (multi-crew até dois jogadores). Por outro lado, o Mosquito é um avião de enorme importância na História da aviação, colocando-se numa posição francamente única, surgindo numa fase crítica da Segunda Grande Guerra. É, ainda hoje, acarinhado pelos que o recordam, especialmente nas suas versões de bombardeiro. Se acham é apenas um “Spitfire com dois motores” conheçam um pouco da sua história.

Numa fase tão crítica para uma economia fragilizada por uma guerra sangrenta, o fabrico de armamento tem de ser suportável e expedito. Durante anos, a construção de aeronaves ficou dependente de vários materiais dispendiosos ou de fabrico lento. Quando uma linha de produção está, literalmente, a alimentar uma guerra, portanto, são precisas duas coisas: poupança e velocidade de construção. Além de se chamar carinhosamente de “Mossie”, uma abreviatura de Mosquito, esta aeronave também ficou conhecida por “Wooden Wonder”, ou “Maravilha de Madeira”. Os mais astutos já saberão porquê.

A estrutura interna do Mossie é construída em boa parte em madeira, sendo revestida com tela aeronáutica, reforçando apenas algumas áreas mais críticas, como as bases das asas, com outros materiais mais robustos. Esta escolha parece pouco intuitiva, considerando que estas aeronaves estariam expostas a fragmentos de baterias anti-aéreas ou outros projécteis, incluindo balas. Contudo, a construtora de Havilland concebeu o avião desta forma para que fosse rápido de produzir, baixando os seus custos de modo a lançar mais unidades em menor tempo. Como “efeito-secundário”, o Mosquito acabou por se tornar mais rápido e ágil do que qualquer outra aeronave, tendo mesmo recebido o estatuto de “avião mais rápido do mundo” na sua era.

A ideia inicial era criar um bombardeiro ligeiro que pudesse fazer ataques relâmpago de precisão, sem necessidade dos pesados e lentos bombardeiros dedicados. Outras nações tentaram o mesmo conceito, com maior ou menor sucesso, só os britânicos conseguiram algo verdadeiramente fantástico, fruto da sua experiência com outras plataformas que já usavam materiais alternativos. Contribuíam também para sua ligeireza os seus dois fantásticos motores Rolls-Royce Merlin Mk 25, a versão mais potente dos motores que já equipavam o não menos impressionante Spitfire. A fórmula era improvável mas o resultado foi mesmo positivo.

Eventualmente, o Mosquito tornou-se tão popular e versátil, que a Royal Air Force começou dar-lhe outros papéis. De bombardeiro simples desarmado, evoluiu para bombardeiro táctico diurno e nocturno, batedor de reconhecimento, caçador de bombardeiros ou de escolta, avião de interdição, caçador marítimo e, claro, esta versão recriada pela ED, caça-bombardeiro. Curiosamente, o Mossie também foi muitas vezes usado como correio, levando carga sensível pelos céus da Europa, especialmente sobre zonas de conflito. Não havia muito espaço a bordo, só mesmo para um piloto e um radio-navegador, mas o compartimento interno para bombas dava imenso espaço adicional.

Para os inimigos do Eixo, a existência do Mosquito deve ter sido inicialmente motivo de gozo. Afinal, aqui estava um aparelho construído com materiais ultrapassados, quase um “barco” com dois motores potentes. O avião veio provar o seu valor várias vezes, no entanto, sendo a sua mais conhecida missão a lendária Operação “Jericho” que atacou em 1944 a prisão de Amiens em França, para libertar prisioneiros dos Nazis. Mas, também foi usado em imensas operações de precisão, inclusive a famosa missão contra uma estação de rádio em Berlim, enquanto Hermann Göring estava a discursar no 10º Aniversário da subida ao poder do partido Nazi, efectivamente calando-o.

Ou seja, fama não falta ao “Mossie”. A expectativa do que a ED faria com este ícone da história era bastante elevada. As suas últimas criações no âmbito da Segunda Guerra Mundial, incluindo o DCS: P-47 Thunderbolt, deixaram a fasquia bastante alta sobre o que esperar deste novo modelo. Infelizmente, apenas temos a recriação de um único modelo disponível das muitas variantes que o “Mossie” teve. A versão retratada é a FB Mk VI, uma versão dedicada à caça, perdendo a canópia em bolha para a posição de bombardeio mas mantendo a baía de bombas operacional. Esta configuração torna-o um bomdardeiro de menor precisão, mas um formidável atacante.

No nariz convertido, este “Mossie” carrega quatro metralhadoras Browning de 7.7mm e outros quatro canhões Hispano Mk.II de 20mm. Lembram-se quando fiquei impressionado com o poder de fogo do “Carniceiro” DCS: FW-190 A8? Temos aqui um concorrente à altura, possivelmente ainda mais temível, já que tem claramente mais poder de fogo. Nas pontas das asas, opcionalmente, podemos carregar duas bombas ou dois tanques não pressurizados de combustível. Na já mencionada baía, carrega até duas bombas de 500 libras. Ainda hoje, esta é uma mistura clássica de armamento de um caça-bombardeiro. Mas, esta capacidade teórica não quer dizer que o avião seja realmente “multi-role”.

A perda da posição de bombardeio faz com que não haja a bordo nenhuma forma de lançar bombas em altitude ou voo nivelado com a mínima precisão. O que temos a bordo para armamento é uma mira para os canhões e metralhadoras que, logicamente, aponta em frente. O bombardeamento no “Mossie” é, portanto, um trabalho de perícia, necessitando de muito treino no lendário ataque picado (“dive bombing”), um pouco como já fazíamos com quase todos os aviões da 2ª Guerra neste simulador. A diferença aqui é o poder de destruição, com 2000 libras de explosivos em potencial se levarmos quatro bombas a bordo (duas na baía e outras duas nas asas).

Agora, no papel de caça, cuidado com o “Mossie”. Parece uma contradição que um avião de maior envergadura e massa consiga ser tão rápido e tão reactivo como um vulgar caça da época. É mesmo possível entrar num combate próximo (“dog fight”) contra outros aparelhos semelhantes e ver a velocidade de ponta e o elevado rácio de volta levar a melhor a aviões mais ligeiros. O modelo de voo criado para o DCS é francamente reactivo, permitindo que o “Mossie” se comporte como o esperado para o seu tamanho em situações que assim o exijam (em cruzeiro ou a aterrar/descolar) ou que se transforme num mortífero caçador, bem mais “nervoso”.

Até que ponto este modelo de voo é realista, claro, estamos a confiar na ED e na documentação. A fama da performance do “Mossie” em combates aéreos é conhecida mas não sobreviveram muitos registos de embates aéreos. De um modo geral, pela sua performance única baseada na velocidade, há uma clara vantagem na volta sustentada e rácio de subida, por exemplo. O que deixa antever que o avião (em teoria) possa ganhar muitos embates directos. Ainda assim, acho-o um pouco ágil demais para a sua envergadura. Mesmo sabendo que a sua construção o torna bastante leve, acho que a inércia devia ter um papel mais preponderante.

Falando nessa construção única em madeira, com este módulo, a ED criou um impressionante modelo de danos para a estrutura. É possível, não só esburacar a frágil superfície em madeira e tela, vendo através dela e tudo, mas também sofrer danos específicos mediante a zona onde somos atingidos. Em várias missões que fiz, curiosamente, sempre que fui alvejado, numa tive uma avaria idêntica ou, pelo menos, algo que parecesse genérico. Perda de combustível ou óleo, falha de motor, perda de superfícies de controlo que afectam as manobras… enfim, tentem ser alvos difíceis, porque blindagem aqui não abunda.

No que toca ao cockpit, claro que temos tudo recriado com um enorme rigor. Seja no denso painel de controlo frontal, sem esquecer o estranho manche ou os painéis laterais característicos desta era, seja na posição de rádio-navegador. Esta posição, aliás, está devidamente desfasada do piloto, um pouco atrás para operar os rádios e outros sistemas posicionados atrás do piloto. É uma configuração estranha, mas que até funciona bem, permitindo ampla visão ao piloto e um acesso desimpedido à famosa porta lateral direita. Algumas das funcionalidades da posição de radio-navegador ainda precisam de refinamento mas é possível entrar nesta posição e colaborar o piloto nas várias tarefas.

A ajudar nesta imersão estão todos os sistemas eléctricos, pneumáticos e hidráulicos recriados coma precisão necessária. Como já disse, há avarias possíveis resultantes de danos e que obrigam a correr checklists para encontrar solução. Os motores Merlin são também bastante delicados em algumas operações, com os erros a pagarem-se caros, desde meros excessos de temperatura a falhas de operação graves. Em complemento a isto tudo, está uma sonoridade única e fantástica dos dois motores, um elemento que trabalha muito bem para nos dar a devida imersão.

No exterior, o “Mossie” está também reproduzido de forma exemplar. Nesta fase, temos apenas duas pinturas da RAF, incluindo a famosa pintura “invasion” com as listras brancas e negras. Futuramente, a ED planeia adicionar mais pinturas e países que voaram a aeronave mas, para já, está devidamente “vestido” com as cores da nação que o concebeu. A modelação e as animações são aquelas que esperam de uma reprodução fiel, onde nem falta a flexibilidade das asas ou a suspensão realista. Se há algum reparo a fazer, só mesmo pequenos detalhes, como as luzes externas que não estão bem posicionadas e pequenos erros de animações e peças da fuselagem quando o avião se danifica.

Estando ainda em acesso antecipado, já mencionei que a estação de radio-navegador precisa de ajustes ao nível de sincronismo com o piloto e outras pequenas questões. Também acredito que a ED venha a mexer neste modelo de voo, quanto a mim algo optimista demais. De um modo geral, porém, acho o “Mossie” um lançamento muito completo, muito bem composto e cheio de detalhe. Ultimamente, como vimos com o DCS: Mi-24P Hind, a Eagle Dynamics aposta numa produção mais longa com testes internos fechados antes deste lançamento para a Open Beta. O resultado está à vista: módulos mais compostos, sem tantos erros ou omissões. Os pilotos virtuais agradecem.

Veredicto

Há algum tempo que esperava este acesso antecipado ao DCS: Mosquito FB VI. E não fiquei desapontado com o resultado. Não só adorei a performance e tenacidade neste avião, como o nível de detalhe e rigor que a Eagle Dynamics lhe deu tornam-no num dos melhores aviões da Segunda Guerra Mundial no DCS World. Nesta era Histórica da aviação, pode não ser o melhor bombardeiro de todos mas, como avião de caça, poucos lhe farão frente.

O módulo está já disponível para voar em acesso antecipado (via Open Beta) na loja da Eagle Dynamics. Será ainda alvo de algumas melhorias e adições num futuro próximo. Aconselho vivamente a voarem este e outros aviões desta era nos mapas DCS: Normandy e DCS: The Channel, este último usado para as imagens acima.

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, gentilmente cedido pela Eagle Dynamics. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento. As características fornecidas, assim como previsões de desenvolvimento, foram dadas pelos produtores.

Se desejarem conhecer a comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook e o canal de Discord DCS Portugal – Esquadra 701. Algumas das imagens que usamos neste artigo foram criadas neste grupo.