O tal avião tão esperado para o DCS World já cá está. Depois do sucesso que foi o DCS: F/A-18C Hornet, ficou bem claro que a comunidade aprecia bastante caças polivalentes. Por isso, a Eagle Dynamics só podia trazer um dos aviões militares mais populares das últimas décadas, o DCS: F-16C Viper já rasga os céus virtuais.

Numa tarde de Verão há uns anos, estava a aguardar a minha vez para algo muito especial na Base Aérea Nº5 em Monte Real, Portugal. Ia visitar um General Dynamics/Lockheed Martin F-16AM “Fighting Falcon” da Força Aérea Portuguesa. A ocasião era de ouro, uma vez que este era o avião icónico da FAP (PoAF) e estava prestes a pegar nos comandos e… OK! Obviamente, não iria levar “aquele” avião a lado nenhum mas, uns breves instantes depois chegar ao cockpit, segui as checklists mentalmente e o piloto da FAP ao lado percebeu isso mesmo. Numa breve conversa posterior, consegui dar-lhe quase todos os passos, mesmo alguns bastante avançados e fora do alcance do “comum mortal”. A pergunta foi inevitável, “onde é que eu tinha aprendido tudo aquilo“. E a resposta foi igualmente inevitável, nos simuladores de voo…

Antes do DCS: Viper, a minha experiência com estes fantásticos aviões de combate foi um pouco dispersa. Além da grande base estabelecida pelo DCS World com outros modelos, inclusive o já mencionado F/A-18C Hornet com tantos sistemas partilhados, passei por simuladores clássicos dedicados ao próprio F-16. Uma importante plataforma, bem mais limitada no visual e na tecnologia, foi a lendária série clássica Falcon, sobretudo na mais recente versão 4.0, que recebeu o popular mod comunitário Falcon BMS. E não posso esquecer os ainda mais limitados simuladores da saudosa Janes’s Combat Simulations. Estas foram duas importantes plataformas para aprender o básico do voo, da navegação e mesmo dos sistemas de combate.

Contudo, por mais que outras simulações sejam francamente credíveis e detalhadas, como tenho dito tantas vezes, não há equivalência com o DCS World no panorama actual. Nem só em termos visuais mas também em profundidade de simulação, sem esquecer o constante trabalho da Eagle Dynamics de trazer a melhor experiência possível a este género de simuladores. Contando com tantos módulos de elevada qualidade, especialmente os que são licenciados ou produzidos com o auxílio de Forças Aéreas de vários países, era a casa perfeita para o famoso F-16. A espera foi incrivelmente curta desde o seu anúncio, até ao seu lançamento em acesso antecipado na passada semana. Muito do trabalho tinha sido iniciado pelo F/A-18C. Mas, agora, é o “Falcon” o grande foco… perdão, o “Viper”!

Embora muitos o conheçam como “Falcon”, especialmente por cá, os pilotos da USAF (Força Aérea dos Estados Unidos) começaram a apelidar o pequeno F-16 de “Viper” (“Víbora”). Isto porque, especialmente visto de frente, o desenho do nariz e da raiz das asas no avião parecem representar uma cobra pronta a atacar. Esta designação “colou” entre os demais países da NATO, com os pilotos a serem designados de “Viper Drivers” (“Condutores de Víboras”). É, hoje em dia, um dos aviões de caça polivalentes mais populares entre os países da NATO, equipando Forças Aéreas europeias como Portugal, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Grécia, mas também noutros países como Israel, Emirados, Indonésia, Coreia do Sul e muitos outros. Mas, de onde vem esta popularidade?

O programa F-XX (Advanced Day Fighter Concept) da USAF, começou em 1972, com cinco empresas a apresentar os seus projectos. O programa pedia um caça de pequeno porte, até 9000 kg, com capacidades de combate diurno, excepcional manobrabilidade e aceleração, alcance médio e capacidades de Mach 1.6 até 40000 pés. Entre os proponentes, a Northrop, com o seu YF-17 e a General Dynamics com o seu YF-16, foram os finalistas. O vencedor foi obviamente o F-16 Falcon. Mas, a Northrop haveria de se “vingar”. O protótipo do YF-17 haveria de ser modificado para concorrer e ganhar um outro concurso, desta vez da Marinha dos Estados Unidos, recebendo a designação de… F/A-18 Hornet. Estão a ver porque estes aviões são tão semelhantes?

A General Dynamics, mais tarde adquirida pela Lockheed Martin, havia produzido um avião incrivelmente capaz, com fantásticas características e muito carisma. Até hoje, foram produzidos mais de 4600 exemplares, contando com dezenas de variantes e actualizações de aviónicos e motorizações. O sucesso do F-16 é resultante de inúmeras provas dadas, inclusive em palcos de guerra onde provou não ter par entre os seus semelhantes. Com tantos avanços tecnológicos, na tecnologia “stealth” e noutros campos, há só um avião que é ainda hoje genuinamente “temido” pelas Forças Aéreas que não o têm: o F-16 Falcon. E o DCS World é o local perfeito para este avião descolar e dominar os céus.

A versão escolhida pela Eagle Dynamics para retratar no simulador é o F-16C Block 50 com motorização General Electric F110 (Turbo-Fan) e a actualização CCIP (Common Configuration Implementation Program). Este programa de modernização da USAF, trouxe uma normalização de sistemas, com o primeiro avião modernizado entregue em 2002. O programa é muito semelhante ao MLU (Mid Life Update) que a Força Aérea Portuguesa implementa na sua frota F-16 para a modernizar em sistemas e capacidades. Visa trazer todos os aviões a um padrão de software, hardware, estrutura e armamento para cumprir os requisitos actuais da NATO. O que significa que temos no DCS um F-16 moderno e que, não contando com sistemas sensíveis ou classificados (já lá vamos), será uma simulação avançada de um caça da quarta geração.

Neste DCS: Viper, vamos poder contar com quase todo o armamento e sistemas encontrados no Block 50 CCIP real. Mas, vamos ter de fazer concessões. A Eagle Dynamics já fez saber que este será um Block 50 puro, pelo que teremos de esquecer as modificações criadas para forças aéreas específicas, como os tanques dorsais (CFT – Conformal Fuel Tanks) ou a espinha adicional de aviónicos, estas duas opções de sistemas encontrados nos Block 50/52+. Mas, também teremos de fazer cedências no que toca a equipamento classificado. O famoso Sniper Pod, embora presente no avião real, foi preterido pelo Litening Targeting Pod. As diferenças são importantes entre os dois sistemas, mas esta foi a opção da ED e teremos de viver com isso. Pelo menos, temos um TPOD para operar.

Adicionalmente, enquanto escrevo estas linhas, o DCS: Viper está numa fase de acesso antecipado. Se já leram as demais análises que tenho feito, já sabem que isto significa que o avião ainda está em desenvolvimento e tem muitas faltas e alguns bugs para esmagar. As faltas mais notórias são o tanque de combustível central, diversas opções de armamento (como os lendários AGM-65 Maverick), luzes exteriores, o NavPod e outros sistemas mais ou menos críticos que serão adicionados mais tarde. Quando estiver completo, no entanto, o F-16C corre o sério “risco” de rivalizar o F/A-18C em todas as frentes, só não tendo óbvias capacidades de combate naval, sendo esse o território privilegiado do Hornet. Contudo, em tudo o mais, o DCS: Viper não se limita a equivaler, chega mesmo a ultrapassar o “primo”.

O DCS: Viper, no preciso momento em que estamos, ainda está um pouco incompleto também em sistemas. O arranque do motor e dos sistemas eléctricos, assim como alguns testes e lógicas, estão implementados, embora alguns precisem de trabalho e refinamento. As checklists podem ser seguidas quase na íntegra, embora tenhamos saltar alguns parâmetros por não estarem sequer modelados. Também importantes páginas dos MFDs e do ICP/DED não estão presentes, sendo as mais flagrantes a inserção de pontos de navegação, a página de falhas e testes, o programa de “self test” do FCR (radar) ou a página da data cartridge (sim, este avião ainda usa cartuchos de missão). Todos estes são sistemas planeados, mas que nem fazem real falta para operar o avião para já. E o que temos, já é francamente fantástico.

Sentando-nos no cockpit, é inevitável admirar a incrível qualidade e detalhe na modelação deste aparelho. Uma vez mais, a Eagle Dynamics mostra que é capaz de recriar de forma quase insana os mais pequenos detalhes. Quase todo o cockpit é interactivo, o que inclui quase todos os botões e comutadores. Digo “quase todos”, porque, de facto há alguns por implementar e outros não são essenciais à operação do avião. O arranque do F-16 é dos processos mais simples que encontrarão em caças modernos, com dois o três passos simples para simplesmente arrancar motor e dar energia aos sistemas. Quando estiver completo, demorará cerca de 7 minutos (em média) a ficar pronto para voar. Por agora, vamos para o ar em menos de 3 minutos.

E, no ar, o Viper brilha profundamente. Este é um aparelho construído para a agilidade, numa era em que os “dogfights” ainda eram uma realidade. Também no modelo exterior a ED teve um trabalho exímio. Notarão que estou a usar duas pinturas diferentes, uma da Força Aérea Portuguesa e outra da Esquadra 701. Ambas são uma cortesia deste grupo Português, criadas a tempo destas imagens serem capturadas (e sem ainda haver um kit de texturas público). Toda a modelação e texturas do aparelho são exemplares, trazendo toda a qualidade que já conhecemos dos módulos da ED no DCS World. Também os efeitos visuais, como o cone do afterburner, vórtices e vapor sobre as asas estão presentes, num trabalho constante de nos dar bom “feedback” visual das dinâmicas.

Ainda há alguns reparos a fazer no modelo de voo, como é lógico num produto em desenvolvimento. Contudo, o DCS: Viper comporta-se muito bem com o seu sistema de Fly-By-Wire a dar-nos um controlo suave, mas sempre absoluto. O F-16 possui um pequeno comutador que limita a capacidades manobra (Cat III) quando temos o avião pesado com armamento ou tanques ou remove essa limitação (Cat I). Em ambos os casos, o DCS: Viper é fantástico de operar, mesmo nas situações mais complicadas de elevada manobra, ou mais contidas como nas fases de descolagem e aproximação com vento cruzado, sem esquecer o sempre “temível” reabastecimento aéreo. A grande dificuldade neste último, é que o receptáculo da lança está na dorsal e não o vemos a fazer contacto. Felizmente, temos operadores de lança competentes a bordo do KC-135.

Os combates com este avião são também bem simulados, mesmo com a falta de armamento que já mencionei. Temos à disposição nesta fase, modelos diferentes dos mísseis de combate aéreo AIM-120 AMRAAM e os AIM-9 Sidewinder, com os modos de combate do radar algo incompletos mas funcionais. Temos também a integração destes mísseis e modos no JHMCS (Joint Helmet Mounted Cue System), a famosa retícula no capacete que acompanha o movimento da cabeça. Fazer combate aéreo no DCS: Viper é todo um novo mundo de agilidade e reacção. O formato da canópia em bolha é genial, dando-nos uma visibilidade fantástica. É um dos elementos positivos do avião real e agora, também, do DCS: Viper.

O ataque ao solo é que sofre um pouco pelas omissões de armamento. Ainda faltam os planeados Mavericks (anti-tanque), os AGM-88 HARM (anti-radiação) ou as JDAM/JSOW (bombas inteligentes), o que limita um pouco o que podemos fazer num palco moderno de conflito. Com o Litening Pod podemos usar as famosas bombas guiadas a laser (Paveway) com a necessária precisão. De resto, temos diversas bombas de queda livre, inclusive com retardação, bombas de clusters e rockets, sem esquecer o mítico canhão de 20mm M61A1 Vulcan de seis canos, também usável no combate aéreo. Mas, não chega, honestamente. Por agora, o F-16 não está ao nível de outros módulos do DCS no ataque ao solo. Mas, há-de lá chegar, tenho a certeza absoluta.

Até esta fase, o DCS: F-16C Viper da Eagle Dynamics surpreende pelo fantástico empenho da produtora em trazer um modelo visualmente preciso, cujos sistemas podem ainda não estar completos, mas que já permitem prever um futuro risonho para o pequeno “Falcão”. A prova desta qualidade está nos diversos servidores multi-jogador onde o DCS: Viper é agora o “rei” dos céus, empurrando um pouco o “primo” DCS: Hornet para segundo plano. A popularidade deste módulo é proporcional à ambição da ED de recriar o Lockheed Martin F-16C Block 50 CCIP com o máximo de detalhe possível, mesmo que tenhamos de fazer algumas cedências de conteúdo, a bem dos segredos operacionais óbvios das Forças Aéreas reais que operam o avião.

Nos próximos meses o F-16C terá uma vasta lista de conteúdo adicional. Além dos elementos em falta que já mencionei, a ED conta adicionar dezenas de outros itens que só vão melhorar a experiência. Falta a importante implementação do datalink (Link 16) com a rede, o igualmente importante IFF (para identificar alvos aéreos), modos de radar de ar e de chão e tantos outros sistemas críticos. Felizmente, a ED está empenhada, tendo até alocado elementos da produção do DCS: Hornet para este projecto, encontrando-se o F/A-18C, por agora, em passo mais brando. Sigam esta página do fórum oficial orientada pelo produtor Matt Wagner para saber o que está a ser feito e o que falta fazer. Mas, uma vez mais, o que aqui temos vale bem a pena o investimento.

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, gentilmente cedido pela Eagle Dynamics. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento. As informações e previsões de produtos, foram dadas pelos produtores.

Se desejarem conhecer a comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook e o canal de Discord da Esquadra 701. As imagens que usamos neste artigo foram inteiramente criadas neste grupo.