Além do muito amado DCS: F-16C Viper, havia uma outra plataforma que os fãs de DCS World, ora pensavam que nunca iria chegar, ora ansiavam que um dia fosse possível. O DCS: AH-64D promete revolucionar a simulação de helicópteros neste simulador de combate.

Depois do exemplar DCS: Mi-24p Hind, a fasquia para a simulação de helicópteros de combate no DCS World elevou-se bastante. No horizonte, teremos ainda mais helicópteros para inundar os campos de batalha virtuais, pelo que a falta de plataformas de ataque não será um problema. Se terão a mesma qualidade ou utilidade, é que teremos de ver. Contudo, a grande questão aqui é que, até agora, o DCS World não foi bem desenhado para usar helicópteros de ataque, faltando-lhe imensos detalhes importantes para tornar essa simulação tão entusiasmante como a dos aviões. A chegada do AH-64D poderá mudar esse paradigma.

Desde sempre, a questão principal no que toca a missões de combate com helicópteros no DCS, é a falta de cobertura de uma boa parte dos mapas e a falta de bases, estruturas e de objectos dedicados a este tipo de aeronaves. Por outro lado, temos de lidar com a infalível pontaria de unidades terrestres a baixa altitude, conseguindo até detectar unidades atrás de edifícios ou de terreno elevado. Para mim, a principal questão, era a incapacidade dos helicópteros de ataque do DCS fazerem operação nocturna com eficácia. Tudo isto está a ser abordado em torno do AH-64D e é por isso que é tão importante.

A grande questão de trazer o Apache ao DCS, curiosamente, foi sempre uma de segurança. Dificilmente aeronaves que se encontrem actualmente ao serviço das suas forças armadas são criadas no DCS, sob pena de expor pormenores secretos da sua operação. Por causa disto, a falta de manuais e de pilotos dispostos a colaborar neste projecto, deixou no ar a impossibilidade de vermos um Apache credível. Felizmente, a ED conseguiu reunir toda a informação pública necessária e finalmente conseguimos esta fantástica aeronave de asa rotativa.

A história do AH-64 Apache é uma de sucesso. O protótipo do Hughes YAH-64A voou pela primeira vez em 1975, com um aspecto algo diferente da aeronave actual mas que já demonstrava muito potencial. A grande novidade era a montagem dos motores em casulos externos e separados na fuselagem, a posição de piloto e artilheiro em cockpits independentes e a capacidade de usar unidades ópticas de visão nocturna, tornando-o verdadeiramente multifacetado. O pormenor mais famoso foi o piloto mirar o canhão com a cabeça, o que na altura foi uma grande inovação.

Ao longo dos anos, a concepção e manutenção do Apache mudou de mãos duas vezes, primeiro para a McDonnell Douglas e depois para Boeing, mas a sua fama e performance nunca abrandou. Depois de demonstrar toda a sua proficiência em vários palcos de conflito, o Apache foi sendo actualizado com mais e melhores sistemas, tornando-se rapidamente no mais avançado helicóptero de ataque de sempre. Isto, mesmo com a rivalidade de “veteranos” como os nossos conhecidos KA-50/52 ou Mi-24 Hind do “outro lado” da cortina de ferro.

Aliás, os sistemas usados no Apache serviram de inspiração a muitos outros helicópteros que, tecnicamente, replicaram as suas habilidades únicas em novos designs. É o caso do Mi-28 Havoc ou do Eurocopter Tiger. É discutível se foi mesmo o Apache que estreou todas as suas inovações mas foi, sem dúvida, este helicóptero que melhor as colocou em prática. A prova disso foram as várias missões que desempenhou de forma exemplar no Iraque, Afeganistão e vários outros palcos modernos. É, hoje em dia, o principal helicóptero de ataque do Exército dos EUA e internacionalmente de Israel, Reino Unido, Holanda, Japão e vários outros.

A versão que a Eagle Dynamics escolheu para emular no DCS World é o AH-64D Apache Longbow Block II. Esta foi a segunda grande actualização de hardware e software nesta plataforma, adicionando um novo radar no topo do rotor principal, melhorando as ópticas de angariação de alvos e, mais importante de tudo, um novo sistema de Datalink, o sistema Longbow que lhe dá o nome neste bloco. Esta foi a variante mais fabricada do Apache, havendo também muitos AH-64A convertidos para a norma “Delta”. Infelizmente, pelas razões de segurança que já mencionámos, a terceira geração AH-64E Guardian seria impossível.

Este é um helicóptero bi-motor, equipado com duas turbinas General Electric T700-GE-701, com capacidade de elevar até 10 toneladas de peso. Numa configuração média, é capaz de velocidades de proa perto dos 150 nós (limpo), quase 300kmph. É também extremamente estável a pairar, podendo usar o seu armamento em distância com incrível precisão. Nas suas asas, carrega quatro pilares articulados para até 16 mísseis Hellfire, até quatro casulos de foguetes ou uma combinação destas duas armas. No queixo, possui um devastador canhão de 30mm, a sua “imagem de marca”.

Para aquisição de alvos, o Apache conta com sensores independentes ópticos para piloto e artilheiro. O TADS é o sensor principal na frente, para uso do artilheiro, composto por unidades de vídeo, de infra-vermelhos (FLIR) e visão nocturna. O PNVS é o sensor do piloto que também lhe permite obter visão FLIR. A combinação dos dois sistemas permite à tripulação coordenar esforços e até atacar alvos distintos com armas diferentes. A grande vantagem neste helicóptero é que a mira é feita com o movimento da cabeça, com o monóculo IHADSS no olho direito dos pilotos.

Ou seja, para adquirir um alvo, tecnicamente, basta olhar para a sua direcção e designá-lo com os sensores a bordo. Adicionalmente, o TADS pode ser manobrado manualmente, mantendo-se fixo no alvo, independentemente da manobra do helicóptero ou para onde os pilotos estão a olhar. E, como já disse, o artilheiro pode estar a adquirir um alvo e a atacar com mísseis, enquanto o piloto está a mirar o canhão noutra orientação. Tudo isto, numa plataforma rápida e muito manobrável, rica em informação situacional e com várias defesas passivas e activas.

Adicionalmente, o AH-64D Apache Longbow possui também um radar de chão no topo do rotor principal. Nem todos os Longbow possuem este radar, notem. O que define um Longbow é mesmo o tal software de datalink e não esse radar. O FCR, como é conhecido, permite vasculhar o terreno e até obter informação de elevação em tempo real. É até possível designar alvos e disparar mísseis sem linha de vista ou LOS (Line of Sight). Ou seja, sem realmente os ver, apenas com informação de radar. Infelizmente, este radar está disponível apenas com o “radome” acoplável, não tem funcionalidade neste acesso antecipado, chegando mais tarde.

No que toca ao canhão, trata-se de uma unidade M230 Chain Gun de 30mm, dispara imponentes munições de efeito explosivo para blindados leves ou infantaria. É uma AWS (Area Weapon Sub-system), o que significa que não é suposto ser muito precisa, mas sim atacar por saturação de área. No actual modelo do DCS, na verdade, o grupo de balas é um pouco optimista até, parecendo necessitar de um ajuste na sua dispersão. É, contudo, a arma mais impressionante do Apache, dando a habilidade única de “olhar e disparar” que não temos noutras plataformas.

Quando o canhão não chega, temos outra “arma de área” que são os foguetes. Neste acesso antecipado não temos ainda todos os tipos previstos mas há já uma variedade de ogivas explosivas, de iluminação ou de fumo. A vantagem é que podemos levar várias configurações de foguetes nos três anéis do casulo, facilmente seleccionados a bordo. Por agora, só temos dois anéis distintos por casulo mas ED tenciona adicionar ainda mais opções. Como os pilares são articulados, é possível ajustar em distância, mesmo a pairar, bastando orientar o nariz para onde queremos que caiam. Genial.

A arma mais potente do Apache, é o AGM-114 Hellfire, parente próximo do nosso conhecido AGM-65 Maverick. Teremos no AH-64D duas variantes, uma guiada a laser (AGM-114K), outra por radar (AGM-114L). No entanto, esta última ainda não está disponível pela tal falta de radar. Na variante “K” actualmente disponível, cada míssil precisa de ser guiado até ao alvo através de um laser, tornando-o extremamente preciso. Em termos de explosivo, ambas as versões possuem uma ogiva de 9kg de explosivo HEAT, desenhados para abater tanques e blindados pesados.

Embora tenhamos as variantes “L” a caminho, notarão que a vasta maioria das fotografias de AH-64D reais, praticamente só usam a variante “K”. Isto porque, embora os Hellfire guiados por radar sejam realmente “Fire and Forget”, os motivos são vários para ser menos usado, desde o custo, peso por unidade, entre outros. Embora possam dizer que, assim o DCS: AH-64D “parece incompleto”, é bem provável que a chegada no AGM-114K não seja assim tão relevante como possam pensar. Veremos quando cá chegar.

Uma vez mais, este é um aparelho de operação multi-crew o que implica que os dois cockpits precisam ser funcionais para pilotos e artilheiros online. Já vamos falar um pouco sobre a coordenação entre dois pilotos humanos mas temos de equacionar primeiro sobre o que fazer quando estamos a voar a solo neste helicóptero. Tal como tivemos no Mi-24p, a ED criou também aqui um sistema de co-piloto virtual, o “George”, que tanto pode agir como piloto, como artilheiro, dependendo de onde escolhemos operar.

O “George” é bastante semelhante ao “primo Petrovich” no Hind. Usa um simples menu que se opera com teclas de cursor, seja para comandar o piloto a manobrar, seja para comandar o artilheiro a mirar e/ou disparar. A sua operação nesta fase é, digamos, oscilante. O “George” precisa ser aprimorado, especialmente a manobrar o helicóptero. Há diversas falhas pontuais de fluidez na operação, mas é um passo em frente com relação ao “Petrovich” do Hind, já que inclui respostas com voz.

Na hora de pegar nos controlos, o DCS: AH-64D é um paradoxo. Por um lado, aparenta ser francamente simples de ligar e gerir as várias facetas da sua operação. De facto, tem o startup quase todo automatizado, exigindo apenas alguma preparação e configurações adicionais. É quando começamos a programar o voo, os sistemas e o armamento que surge alguma complexidade. Até que esteja tudo pronto, há vários passos para seguir, especialmente no armamento e na navegação e alvos (TSD) que exige alguma leitura do manual.

É, contudo, no voo que surge o tal paradoxo. Voar o AH-64D é das melhores experiências de voo que terão nestes simulador. Graças ao sistema digital de estabilização (SAS), tudo é objectivamente “domado”, linear e muito fácil de controlar em qualquer das situações de voo ou de combate. Há uma necessidade maior de controlo dos pedais anti-torção e uma reacção mais controlada do colectivo aos “inputs”. Mas, é só uma exigência adicional de atenção. É só mesmo quando usarem ajudas ao controlo que, ironicamente, vão sentir as maiores das dificuldades.

Isto é algo que a ED terá de abordar nos próximos dias, não porque não funcione como o real, mas exactamente porque precisa de uma melhor adaptação à realidade de um simulador. O verdadeiro Apache não possui um cíclico ou pedais com mola de centragem. O sistema é livre e a compensação funciona por bloqueio de eixos num sistema magnético. O que significa que todos os que tiverem um sistema semelhante em casa, estarão à vontade com a lógica de compensação, que centraliza os eixos no último ponto marcado com o botão de compensador.

Ora, uma vasta maioria dos jogadores não terão esse tipo de joysticks ou algo que os simule (Force Feedback, por exemplo). Na maior parte dos casos, terão molas de centragem nos seus joysticks ou pedais, o que pode faz com que o ponto neutro nunca seja coincidente entre o simulador e o dispositivo. Isto gera alguma confusão e reacções indesejadas do sistema de compensação. É possível que, com prática, esta lógica se torne mais “natural” no controlo e há opções no menu “Special” do helicóptero, além dos ajustes nas sensibilidades dos eixos. Ainda assim, dá luta.

Quando finalmente dominarem o voo, descobrem uma das armas mais poderosas do arsenal da NATO. Ao concentrarem-se na operação de armas usando o “George” para encontrar alvos e ao eliminá-los um a um, o DCS: AH-64D revela-se uma aeronave extremamente eficiente. Seja em missões de suporte próximo ou de ataque, o Apache é perfeito para o palco moderno de combate. Por outro lado, graças à sua estrutura blindada e ao sistema de protecção CMWS que detecta mísseis por azimute e dispara contramedidas automaticamente, dificilmente serão surpreendidos.

Tive a oportunidade de fazer várias missões de combate no DCS e adorei cada momento. Especialmente à noite, o domínio desta aeronave, usando a visão térmica do FLIR, sempre disponível para onde olhamos, podendo mirar e disparar sem necessidade de grande manobra, até mesmo com os foguetes, deu-me uma enorme satisfação. Em muitos aspectos, supera tudo o que há actualmente no DCS World, seja na eficácia das suas armas, seja na sua autonomia, na modernidade e até na sua inequívoca taxa de sobrevivência perante os inimigos mais persistentes.

Foi somente quando experimentei voá-lo online é que tive as minhas reticências. Se bem se recordam, a Eagle Dynamics adiou várias vezes a previsão de lançamento deste AH-64D. E teve bons motivos para isso. Neste tipo de aparelhos, a operação multi-crew é uma das funcionalidades mais importantes e desejadas para o ambiente online. Módulos como o F-14 Tomcat ou o já mencionado Hind, até podem funcionar muito bem com as suas Inteligências Artificiais mas, não há dúvida, que dois humanos fazem uma parelha bem mais dinâmica.

Infelizmente, falhas de sincronismo e outros bugs relacionados com a precisão, especialmente nos mísseis Hellfire, fazem desta experiência um pouco frustrante. Funciona, notem, mas ainda está instável e com falhas. A ED está perfeitamente ciente desta limitação e de outras que já foram identificadas pelas suas equipas de testes internos. Devem compreender que este é um módulo complexo, muito avançado tecnicamente e que precisa de ser polido nas suas anomalias. Não se esqueçam, o módulo foi lançado na Open Beta. Ainda há muito para fazer.

Resta-me só falar dos detalhes visuais e sonoros deste módulo. Em termos visuais estão novamente perante uma produção muito detalhada da ED. O nível de detalhe das texturas e modelação é quase insano. As animações são geniais e até os pilotos possuem “vida” no interior, com animações simples. O painel é inteiramente interactivo, com iluminação fantástica, desgaste e animações credíveis, dando particular destaque para a operação nocturna. E o som… bom, liguem os motores ouçam o rotor “engrenar”… é qualquer coisa de genial.

Veredicto

Este é sem qualquer dúvida o melhor helicóptero jamais concebido para o DCS World, o que é um feito tendo em conta que o DCS: Mi-24P Hind foi também ele um marco de qualidade da Eagle Dynamics. Fruto de uma enorme atenção ao detalhe e muita fidelidade à aeronave real, a equipa de produção teve ajuda de ex-pilotos e especialistas para criar algo verdadeiramente único. Há algumas arestas a limar, com a I.A. “George” a precisar de uns ajustes e o multi-jogador ainda por polir. Contudo, de dia ou de noite, seja qual for a missão, o DCS: AH-64D é “o” helicóptero.

Este software foi testado através de uma versão experimental em acesso antecipado, gentilmente cedido pela Eagle Dynamics. Sendo uma versão experimental, muitas das características, bugs, erros ou faltas assinalados poderão sofrer alterações até ao lançamento. As características fornecidas, assim como previsões de desenvolvimento, foram dadas pelos produtores.

Se desejarem conhecer a comunidade Portuguesa que treina e voa regularmente no DCS World, visitem a pagina DCS World – Portugal no Facebook, o canal de Discord DCS Portugal – Esquadra 701 e também a sua página de Instagram. Algumas das imagens que usamos neste artigo foram criadas neste grupo.