Habituado que estou a aviões bem mais complexos e tão dependentes de automatização, voltar à aviação executiva é como uma “mudança de ares”. A famosa Carenado desafiou-me a voar no X-Plane 11 com o seu mais recente FA 50 EX, a versão moderna e expandida do famoso Marcel-Dassault Falcon 50, um avião que até conhecemos por cá.

O que não faltam é Falcon 50 pelos céus nacionais. É um dos jactos privados mais conhecidos do mundo e por cá até equipa a Força Aérea Portuguesa, na sua Esquadra 504 “Linces” que efectua transporte VIP, apoio logístico, evacuação sanitária, transporte de órgãos para transplante, entre outras missões. Infelizmente, a F.A.P. opera uma versão bem mais antiga que a que vou mostrar hoje, mas é ainda hoje uma das aeronaves mais capazes da sua frota, com uma folha de desempenho impecável. E esta evolução do aparelho na versão EX apenas mexe um pouco no conceito do aparelho tri-motor, sendo mais notório nos aviónicos a bordo. De resto, é o mesmo fiável e robusto F50.

O Dassault Falcon 50 é um sério caso de sucesso para a fabricante Francesa, isto desde 1976. Foi um dos primeiros aviões na sua classe “super-midsize” de longo alcance. De facto, teve tanto sucesso que inspirou os seus sucessores Falcon 7X e 900, não só no conceito, como até no visual muito característico. Já nesta altura a Dassault fabricava aviões de combate, tendo emprestado muita da robustez necessária para esses aparelhos, também para esta linha de aviões civis, de onde também nasceu o Falcon 20, uma versão de menor potência e alcance. Daí, foi um passo até que a Dassault actualizasse o seu avião mais popular de sempre, tendo criado a variante EX.

Estreado em 1996, o Falcon 50 EX recebeu um novo painel “glass cockpit” com integração completa de um novo sistema de FMS da Collins, uma revisão nos sistemas de controlo do leme vertical, nova motorização e uma unidade de potência auxiliar (APU) montada de raiz, equipamento que antes era apenas opcional. Apesar do último avião ter sido fabricado em 2008, ainda hoje vemos bastantes Falcon 50 e 50 EX nos céus, num sério atestado de longevidade. Com quase 5700 km de autonomia, Mach 0.89 a 49000 pés, até 9 passageiros (mais 2 pilotos) que podem circular em pé na cabine (e não curvados como em muitos jactos privados) e uma capacidade impressionante de mais de 8 toneladas de carga, tão cedo não vamos ver o F50 reformado.

A Carenado tinha assim a tarefa complexa de replicar um dos jactos privados mais famosos do mundo. E à sua boa maneira, criou um aparelho que, não tendo forçosamente a complexidade de outros disponíveis para o X-Plane 11, é certo, tem aquela qualidade desejada para nos envolver na simulação. Onde, de facto, a Carenado sempre brilhou foi a modelar os aviões e os seus cockpits, com muita atenção ao detalhe e ao design de exteriores e interiores. De facto, uma breve visita ao modelo em si, já nos enche as medidas. O próprio Falcon 50 é um avião lindíssimo, com linhas suaves e com uma fluidez de linhas impressionantes. E isso é perfeitamente retratado pela Carenado.

Também o interior mereceu uma cuidada atenção, com muitas interacções possíveis entre a cabine e o cockpit. Como é habitual, a Carenado tem um menu próprio para a vistas interiores e exteriores que devem recorrer para observarem a qualidade extrema da modelação por dentro e por fora. Digo-vos com honestidade que até conheço bem este avião, tendo a oportunidade de visitar um modelo original de Falcon 50 por diversas vezes. Adorei recordar algumas características únicas como a porta do cockpit em carril, as persianas curvas das janelas e ainda a manivela da escada de acesso. Pormenores. E há até algumas pinturas fantásticas para escolher no exterior.

Mas, se o visual deste aparelho é deslumbrante, é preciso que a sua operação seja igualmente interessante, sobretudo para os “simmers” mais exigentes. Aquilo que acredito que foi sempre o compromisso da Carenado é que os seus aviões não sejam peças complexas demais que obriguem a ler FCOMs inteiros, ou a estudar performance dedicada. O que até pode ser uma contradição para pessoas como eu, como já disse, habituado a aviões de operação complexa. Contudo, também gosto de descomplicar por vezes, tendo sempre um ou outro aparelho mais simples no meu hangar. Até mesmo no DCS World gosto de voar o Yak-52. Não pelo desafio de sistemas, mas pelo puro prazer de voar.

E isto aplica-se muito bem ao Carenado FA 50EX. Notem que a produtora não o chama de “Falcon 50 EX” e isto tem uma lógica. Apesar do seu aspecto complexo no primeiro impacto, o FA 50EX é, na verdade, um avião simplificado. O FMS a bordo, por exemplo, é o CDU “default” do próprio X-Plane 11, o mesmo que encontram noutros aviões genéricos deste simulador. Apesar de ser muito semelhante na operação de um FMS moderno, num estilo Boeing, está muito limitado e faltam-lhe imensas páginas, sobretudo de performance. Também muitos sistemas estão um pouco simplificados, embora mantenham uma complexidade assinalável. Ou seja, há um claro compromisso que devem fazer à partida.

Onde esta simplicidade é mais notória, quanto a mim, até nem é na operação do FMS. Simplesmente não consigo ultrapassar este sistema de PFD e ND proprietário da Carenado, a que chama de Proline 21, baseado (livremente) no software homónimo da Collins. O avião é inteiramente compatível com o muito mais capaz sistema GTN 750 (Garmin) da Reality XP, mas este não está incluído no pacote. Este outro software, infelizmente, é só visualmente parecido com o verdadeiro, tendo falhas inultrapassáveis, por exemplo replicando o ND nos quatro monitores, repetindo informação, como também não é nada prático de operar, com os botões rotativos a darem mais dores de cabeça, que a funcionar como o desejado (muito por causa do constante movimento do Track IR que eu uso, bem sei).

Recordo-me de ver o grafismo deste Proline 21 em outros aviões da Carenado, numa tentativa de criar um sistema de Glass Cockpit comum e que permitisse evitar alguma complexidade (e licenças). E, no rigor, funciona como o pretendido. Oferece muitas funcionalidades de operação e navegação modernas simplificadas e que possibilitam uma navegação mais “visual”. Contudo, está um pouco longe do que o verdadeiro sistema EFIS Proline da Collins nos poderia dar. Características como o “moving map”, GPWS visual no PFD e personalização dos instrumentos, por exemplo, não estão lá. O que é pena, porque depois isto reflecte-se na qualidade e desafio da própria operação.

Ainda assim, recordo que este e outros aviões não pretendem ser tão profundos como alguns que já revimos aqui, reflectindo-se também no seu preço. Pode desapontar os mais exigentes, sim, mas como disse lá em cima, há aviões que tenho no meu hangar pela simples vontade voar. “Aerodinamicamente falando”, não vos consigo dizer ser o FA50 EX da Carenado é alguma proeza técnica fidedigna (faltam-me os manuais de performance deste avião). Contudo, é mesmo um prazer voá-lo, sobretudo à mão, aproveitando as suas dimensões e velocidades mais reduzidas, incluindo Thrust Reverse para aterrar nos mais remotos aeródromos que me lembro de usar.

Tem também uma agilidade simpática em manobra, que se alia muito bem a uma resposta muito domada, muito longe dos sistemas mais modernos “fly by wire” que equipam muitos aviões actuais, mas também não é um aparelho “nervoso”. Gostei muito dos monitores de gestão dos motores e dos painéis digitais de rádio. São fáceis de ler e substituem muito bem os sistemas analógicos mais comuns. Se bem que tive algumas dificuldades a usar o transponder para o colocar em modo C (charlie). A completar este produto, está um sistema sonoro muito bem desenvolvido, diversos sistemas reproduzidos (pressurização, inércias, combustível, bleeds, etc) e alguns efeitos detalhados e realistas.

Veredicto

De facto, gosto de fazer uma pausa nos Boeings e Airbus com aviões mais “simpáticos”. E foi com prazer que juntei ao meu hangar virtual o Carenado FA50 EX. Fico um pouco desapontado por não ter sistemas tão aprofundados nos painéis “Proline21”, estão de certa forma aquém do software real onde se baseiam. Gostava mesmo de ter mais que uma mera compatibilidade com a RealityXP, acho mesmo que este avião beneficiava dessa integração de raiz, mesmo que isso encarecesse ligeiramente o preço. No final, concluo ser um avião simpático para voar, sem complicações, ali entre os complexos airliners e os básicos aviões ligeiros. Tudo isto a Mach .80 e a 40000 pés…