Simuladores – Carenado F50 (XP11)

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O mundo dos aviões comerciais não é apenas composto por jactos rápidos e espaçosos. Também os turbo-props, ou aviões turbo-hélice têm um papel essencial nas rotas de baixa densidade ou entre aeródromos de pista reduzida. E há um avião icónico para este tipo de operação, o lendário Fokker 50, imortalizado para X-Plane 11 com o Carenado F50.

Embora este seja um pequeno avião no segmento dos “airliners”, para a Carenado é uma das suas maiores criações. A empresa já desenvolveu outros aparelhos na linha dos “commuters”, sendo este F50 a sua mais recente adição nesta linha mais “pesada” de aviação para o XP11. Como a empresa está mais habituada aos aviões ligeiros, há sempre um leve receio que um add-on mais complicado como este tenha algumas restrições. Contudo, já anteriormente falámos no seu Falcon 50X (Carenado FA50 EX) e vimos como, apesar de ter algumas reservas quanto aos aviónicos mais avançados, é um avião bastante competente. Curiosamente, um dos aviões que mais espero para o X-Plane 11 é mesmo o lendário Dornier Do228 que tarda em aterrar aqui nestes lados. Até lá, este Fokker 50 é o que mais próximo terei para desfrutar.

Um pouco de história, como sempre faço para os aviões que analiso. O “Fokker F27 Mark 50” é um aparelho turbo-hélice desenvolvido pela empresa Holandesa no início dos anos 80, voando pela primeira vez em 1985. Foi concebido como um substituto do emblemático e popular Fokker 27 Friendship, depois dos operadores se começarem a virar para a concorrência. Designado comercialmente como Fokker 50 ou F50, partilha muitos dos pormenores de design do seu antecessor, inovando com vários sistemas e uma nova motorização com os novos PW-127B, substituindo os velhinhos Rolls-Royce Dart, que garantiam uma economia na ordem dos 30%. Numa primeira análise, os aviões eram virtualmente idênticos, pelo menos no exterior. Contudo, no seu interior notava-se uma grande evolução, com um cockpit renovado e uma cabine redesenhada.

O F50 é um avião de operação média-curta, de carácter regional ou de ligação, o chamado “commuter”. Serve, essencialmente, aeródromos pequenos ou remotos, tendo capacidades STOL (Short Take Off or Landing, Descolagem ou Aterragem Curta). Na sua configuração básica, podia carregar 46 passageiros (56 numa segunda configuração) ou várias peças de carga, num peso total a rondar os 7000 kg. A principal operação do avião foi sempre transporte de passageiros, mas vários foram convertidos para carga e ainda outros foram implementados em forças armadas e para transporte VIP. Uma versão “esticada” dedicada a carga e operação militar também foi concebida, designada de Fokker 60.

Infelizmente, a vida do F50 está intimamente associada ao sucesso da própria Fokker. Não sendo o principal causador, foi um dos catalisadores da falência da empresa Holandesa. O F50 foi vítima de um mau momento, com uma intensa competição no seu segmento (Saab, De Haviland, ATR entre outros). Também sofreu com as várias reestruturações e renegociações com fornecedores e com o governo Holandês nos piores anos da Fokker. Não foi o único avião desta empresa a ter dificuldades na produção (também o jacto Fokker 100 sofreu), é certo, mas os cortes no orçamento ditaram um fim algo prematuro. A linha de produção do F50 foi extinta em Março de 1996 e o último avião foi entregue ao cliente em Dezembro de 1997. Todos os planos de “upgrade” foram igualmente descartados.

Hoje em dia, a Fokker é uma marca do passado. Os poucos aparelhos desta construtora que ainda voam, são mantidos por operadoras de baixo custo ou de recursos reduzidos. A manutenção dos aviões é garantida por algumas empresas certificadas, mas vários factores estão a tirar os F50 (e todos os demais aviões da Fokker) do céu. Acima de tudo, está a ausência de peças e de especialidade. Em Julho do ano passado, 76 unidades do Fokker 50 ainda voavam algures no mundo. Mais de 20 anos depois do último avião ser entregue, é um atestado de durabilidade, um sentimento que todos os aviões da construtora Holandesa davam aos operadores. Em Portugal, não tivemos Fokker 50 em operação regular, mas os Fokker 100 (os tais jactos) ainda voaram na antiga Portugália até há poucos anos, sendo depois substituídos na íntegra pela actual frota Embraer.

Ou seja, a tarefa da Carenado aqui era recriar um autêntico clássico, um pouco mal compreendido, da história da avião comercial. O Carenado F50 tem aqui a responsabilidade de nos trazer uma simulação de elevada performance em operação regional, com implementação de um cockpit híbrido que mistura o digital com instrumentação clássica e operação com computador de bordo (Flight Management Computer ou FMC). Como já disse, a Carenado está mais habituada a criar aviões mais simples, não sendo bem o seu forte a criação de add-ons ao nível de estudo. Contudo, a promessa para este avião em particular, é um misto entre o realista e o acessível, respeitando o clássico em mãos. Como aliás são quase todas as aeronaves desta empresa.

O primeiro impacto de qualquer avião da Carenado é sempre positivo. O nível de empenho em criar algo visualmente apelativo é notório. O F50 goza de uma excelente modelação, garantida também por texturas PBR (Physically-based Rendering), que são integradas no próprio modelo 3D e emulam materiais e reflexos de forma bastante realista. O resultado é um deslumbre visual, sobretudo em resoluções mais altas (até 4K) e com suporte HDR. A melhor notícia neste campo visual, é que tudo foi optimizado para usar a Realidade Virtual. Embora não me fosse possível testar, a Carenado garante óptimas performances e qualidade visual também nessa exigente operação em VR.

E não é só a nível visual que o avião deslumbra. A sonoridade de qualquer aeronave a hélice, é qualquer coisa de “intoxicante”. A Carenado, uma vez mais, teve o cuidado de recriar todos os sons a bordo de forma realista. O design do som é inteiramente personalizado, com efeitos de distância e posição muito bem conseguidos, dependendo de onde estamos no cockpit ou cabine. Devo dizer apenas que notei que os avisos sonoros me parecem duplicados. Não sei se é alguma questão com o meu próprio X-Plane 11, mas também acredito que uma ou outra actualização resolverão esta questão no futuro próximo.

Passando o deslumbre inicial, porém, é quando nos debruçamos na operação do avião que começam a surgir as primeiras questões com este add-on. Começo por aquelas que considero menos relevantes e que só demonstram que o mundo dos simuladores deu enormes saltos de qualidade e de pormenor… deixando-nos mal habituados. Tantas manivelas, botões e comutadores a bordo, podendo até mesmo fechar ou abrir as persianas da cabine… e não podemos abrir as janelas do cockpit? Não é sequer é essencial para a operação mas não posso abrir uma janela pela “fresca”? E porque não simular o uso da máscara de oxigénio? Ou dos circuit-breakers? Enfim, “picuinhices”, talvez…

Nada disso que mencionei é, de facto, importante para a operação. Contudo, há algumas cedências no que é realmente importante que eu tenho de assinalar. Tal como aconteceu com o anteriormente analisado FA50 EX, novamente a Carenado decidiu usar o FMC por defeito do X-Plane 11. Entendo que a complexidade de um sistema tão complicado de replicar, encarecesse o projecto (e o módulo), além de roubar imenso tempo de produção que talvez não existisse. Ainda assim, a Fokker tinha um sistema de FMS muito próprio nos seus aviões. E é pena não termos aquele FMC retro de letras coloridas como o clássico. E notem que não é só estética, a operação do FMC “default” do XP11 pouco tem a ver com o sistema clássico do Fokker 50.

Felizmente, noutros lados, houve um cuidado bem maior em replicar os demais sistemas. O piloto automático, os painéis frontais, o sistema EFIS, o painel superior e o pedestal, foram todos recriados com bastante qualidade. Não diria “com precisão”, porque os ecrãs do EFIS são ligeiramente diferentes no original e o painel do FMC, como já disse, também não era assim. Contudo, os sistemas eléctricos, de combustível, de ar-condicionado, hidráulica e de arranque foram concebidos com base no avião real. Tive a oportunidade de consultar o manual real do F50 e notei que os passos nos procedimentos são francamente paralelos, com um ou outro pormenor alterado ou que não é possível recriar no simulador.

Para operar o Carenado F50 criei uma pequena missão de ida e volta a ligar a ilha da Madeira ao Porto Santo, através dos seus aeroportos. LPMA-LPST e LPST-LPMA. Voos curtos com um “turn-around” rápido, era para isto que o Fokker 50 tinha sido criado. Seguir os procedimentos reais, como já disse, é possível, mas decidi seguir o manual fornecido pela Carenado. Escolhi uma das 10 pinturas disponíveis para o avião (mais uma em branco para futuras personalizações) e depois abri portas para embarcar. Como acontece com os demais aviões da Carenado, temos um menu lateral para aceder a opções de câmara, opções de extras, como colocar calços no trem ou ligar o gerador de chão (GPU). E é aqui que também abrimos as portas.

O planeamento do voo é feito via FMC. Se já usaram este FMC do XP11, já sabem que a operação é simplificada para o plano de voo e tem uma simulação de performance limitada, que este dispositivo chama de VNAV. Confesso que não era preciso criar um plano via FMC para este voo, bastando referências visuais e uma ou outra radio ajuda, como o ADF da Madeira. Contudo, o objectivo aqui era testar o avião na sua plenitude. Com um voo tão curto, o avião está leve pelo que a performance também será acima da média. Se optarem por operar em altitude, aí a vantagem de um turbo-hélice é mais evidente. A meteorologia não era das melhores, com um tecto de nuvens baixo e cerrado e o voo foi nocturno. Daí ter criado um voo por instrumentos.

A operação é francamente interessante. Voar um pequeno turbo-hélice de asa alta e com capacidades STOL é uma oportunidade única de voar pelo simples prazer de o fazer. Os maiores jactos possuem imensos automatismos e são particularmente “hands-off”. Voar este F50 é um processo constante, com muitos elementos manuais. De notar que este avião surge na era do início do conceito Glass Cockpit, pelo que há uma mistura entre o digital e o analógico que lhe dá um certo charme. Durante anos, voei o Boeing 737-400, um jacto mais ou menos da mesma era. E este cockpit faz-me recordar esses tempos áureos da minha “carreira” de simmer.

Controlar o Carenado F50 é simples, considero-o um avião “domado”, algo tolerante de erros, com um modelo de voo que podia ser um pouco mais exigente para voar “nas tabelas” e não tanto a “olho”. Mas, pronto. Esta também é uma característica da Carenado, oferecer uma simulação credível mas que não castigue pelo “excesso”. Notei nas especificações do produto que o modelo de motores foi criado com base na lógica de motores a jacto do X-Plane 11. E nota-se. Os motores reagem um pouco rápido demais para um “turbo-prop”. Falta-lhe aquele “atraso” na resposta que temos neste tipo de aviões, mesmo com o passo de hélice automático.

O voo de regresso segiu-se. Queria aproveitar para ver melhor os pormenores de iluminação nocturna que fazem parte dos destaques deste avião. De facto, a iluminação dinâmica do X-Plane 11 faz toda a diferença em qualquer avião. A luz amarela pálida que a Fokker terá optado para este avião e que a Carenado replicou, pode não ser a melhor para a concentração dos pilotos, mas é a melhor para um simmer a voar de madrugada para aterrar num aeroporto quase fechado pelas nuvens. De notar que este avião tem uma boa simulação de chuva nas janelas (pelo plugin “librain”) e de  acumulação de gelo nas asas, tendo apreciado bastante a luz lateral de inspecção.

Um pormenor curioso da aproximação e aterragem. O Aeroporto da Madeira não possui sistema de aterragem por instrumentos (ILS), pelo que é sempre uma aventura, seja qual for o avião. Neste meu voo de ensaio, fiz uma aproximação visual normalíssima, com uma volta pela direita para o enfiamento da pista 05. Vento fraco, quase de frente, zero turbulência, enfim, ideal para este tipo de aterragem. Estando o avião algo vazio com pouco combustível para estas duas pernas e tendo um vento considerável de frente, aterrei na 05 em muito pouca pista. Talvez exageradamente pouca. Bem sei que o avião tem capacidade STOL, mas achei que a performance é um pouco optimista demais.

Veredicto

O seu nariz estranho, o seu leme vertical “à antiga”, com uma cauda pontiaguda, o Fokker 50 não é propriamente um avião bonito. Contudo, a recriação da Carenado deste lendário aparelho é um trabalho artístico de qualidade, no plano visual e sonoro, especialmente para os amantes da aviação comercial clássica. Tem algumas cedências que entendo, mas que considero simplificadoras para quem procura uma simulação precisa. Contudo, enquanto recriação de um respeitável airliner para operação de curta distância, o Carenado F50 é dos melhores comerciais turbo-hélice que terão para o X-Plane 11. É especialmente recomendado para os que gostam de “levar o avião à mão”.