Maioria não termina os jogos

1944

Nas últimas semanas decidi voltar a jogar Wii, que estava algures perdida na casa antiga onde vivi. Fui à feira e comprei uns clássicos – entre os quais o Super Mario Galaxy. Nunca foi meu hábito jogar Mario. Estranho, sim. Talvez em parte por ter nascido num contexto Sega ou Sony, não sei. Sei sim que comecei a jogar este jogo sem nunca antes ter jogado o Mario 64. E fiquei deslumbrado.

Super Mario Galaxy é como o Tetris: vai ser avaliado da mesma forma pelo jogador que o jogar daqui a 20 anos. Também ele ficará deslumbrado. No entanto, será que esse tal jogador do futuro vai terminar todas as estrelas propostas e acabar por salvar a princesa? Mais uma vez, não sei. É inevitável que a um determinado momento pare e desista de jogar antes sequer de terminar a aventura, pois, vejamos, há outros jogos para jogar, trabalho diário por fazer e roupa por lavar. Isto aplica-se a quase todos nós, jogadores, e a muitos jogos.

Através de alguns dados de sistemas sociais (achievements) da Rockstar, chegou-se à conclusão que apenas 10% dos jogadores acabaram a missão final do Red Dead Redemption. Na mesma altura, Keith Fuller, da Activision, comentou que 90% dos atuais jogadores não terminam os jogos que iniciam, acabando muitas vezes por ver o seu fim num dos tantos vídeos no youtube. Mesmo os jogos mais aclamados não escapam, diz ele. E a questão surge: porque os jogadores nem sempre acabam os jogos que adquirem? Não gostam? É muito longo? Fartam-se, às tantas?

Novo dia, o mesmo pôr do sol. Noutro tempo, talvez, voarei por entre as estrelas. Ou talvez o faça no Mass Effect…

Os jogos, agora, são mais longos e surgem em número massivo nas lojas. Sinais claros da atualidade, do tempo de consumo, do excesso, do ruído cultural. Hoje a média de idade do jogador aumentou para a casa dos 30. Este jogador tem outro poder de compra, outra visão dos jogos mas também menos disponibilidade. Eis alguns dos possíveis motivos de os jogos não serem terminados:

  • Longevidade: demasiadas horas no mesmo jogo para conseguir atingir o tão esperado fim;
  • Repetição: mais do mesmo e repetitivo ao longo de inúmeros níveis, torna-se esgotante;
  • Muita oferta: mais em número, em todo o lado e plataforma. Com tanta oferta porque não jogar outro?;
  • Idade: mais velhos, com comida para pôr na mesa, acabamos sem tempo para nos entregarmos a um jogo de 30 ou mais horas;

Excesso de oferta, num mundo à velocidade da luz, do consome e deita fora, a indústria, perante estes factos, tem que garantir jogos à medida do gosto do jogador atual – que se sacia ao minuto. Tendo em conta que a maioria dos jogadores não terminam os jogos que jogam, as empresas podem repensar os seus planos. Não necessitam de fazer tanto conteúdo no seu jogo, de fazer aquele extra nível ou aquele número tão redondo de itens. Menos conteúdo facilita, assim, a produção e reduz os custos de desenvolvimento.

Com o aumento dos custos de produção dos grandes títulos e jogadores menos dispostos a dedicar-se a jogos com aventuras épicas, parece que a tendência para se fazerem jogos mais curtos e com conteúdo extra para download, vai prevalecer. Caso contrário, o excesso de títulos nas loja e de oferta de jogos longos e repetitivos, podem levar à saturação do mercado. Como disse, para além do Super Mario Galaxy, comprei outros clássicos. Por entre eles vejo o Monster Hunter Tri. Um jogo igualmente longo (ou mais). Será, talvez, mais um jogo, o próximo aliás, que não vou terminar.