Insólito – Talibã banem PUBG no Afeganistão por ser… violento

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Antes de mais, queremos que fique claro que este não é um artigo de ódio nem possui ambições políticas. Contudo, não podemos deixar de considerar irónico que PUBG seja banido no Afeganistão pelo regime Talibã.

Qualquer país que decida banir um jogo pelo seu conteúdo, precisa justificar muito bem esse acto. Isto porque, para todos os efeitos, é um acto que viola a liberdade de expressão e de acesso a conteúdo de forma livre e sem censura. Contudo, em alguns países, o banimento pode ser manifestado por razões que são consideradas “de força maior” e que até poderão ser justificadas num enquadramento legal.

Por exemplo, uma dessas justificações vem de uma questão histórica. Na Alemanha um jogo pode ser banido pelo uso de cruzes suásticas, como foi o caso da série Wolfenstein. Noutros países, os jogos são banidos por violar alguma lei local, como alguns jogos que correm o risco de serem banidos por usarem mecânicas de caixas de loot, que podem ser considerados “jogos de azar” proibidos para os menores.

Há ainda alguns países que simplesmente proíbem jogos por razões políticas, como a vasta lista de jogos bloqueados ou banidos na China por apresentarem mensagens contra o regime de Pequim ou gozarem com presidente Xi Jinping. Sim, há também jogos que foram banidos pela sua violência gráfica, sendo a mais popular a série Grand Theft Auto que já viu títulos banidos na Argentina, África do Sul, Tailândia, Paquistão e Venezuela.

Playerunknown’s Battlegrounds, como todos devem saber, é um jogo de acção e, sim, pode ser violento em alguns momentos. Contudo, não é, de longe, o jogo mais violento que por aí anda, nem nos recordamos que tivesse sido banido em algum país por causa disso. Sim, uma das várias versões Mobile, uma específica criada para a audiência Indiana, está banida na Índia. Contudo, o banimento surgiu por causa do uso indevido de dados de utilizadores, não por algo no seu conteúdo propriamente dito.

A não ser que vivessem numa caverna nos últimos dois anos, saberão que o regime Talibã governa novamente o Afeganistão, depois das forças da Coligação abandonarem o país em Agosto do ano passado (e os anteriores governantes terem fugido do país). Não vamos mover o assunto para a política para comentar a legitimidade deste governo. Vamos apenas dizer que, por mais que muita gente quisesse outro desfecho, é um facto que o Afeganistão tem um governo Talibã, que este está no seu direito de legislar.

Assim sendo, os Talibã decidiram, então, banir PUBG. De acordo com o site Khaama Press, os governantes alegam que o jogo “promove violência”, “ilude os jovens” e é “uma perda de tempo”. Por isso, decidiram bani-lo nos próximos três meses e as empresas de telecomunicações Afegãs possuem este tempo para efectivamente bloquear o jogo no país. Em paralelo, também a plataforma TikTok foi banida nas mesmas condições, neste caso com apenas um mês de prazo para bloquear.

Não é preciso recordarmos que o regime Talibã foi responsável por uma lista infindável de atrocidades durante os seus anos de poder e subsequente guerra que enfrentou com as forças da Coligação Internacional, adicionando ainda a sua ligação com a organização terrorista Al-Qaeda. No pretexto da sua defesa de leis Islâmicas, prendeu, roubou, apropriou-se, torturou e matou durante décadas. A sua retoma de poder em 2021 veio com algumas promessas de moderação mas situações como este banimento são apenas a ponta do iceberg para a inevitável perda de liberdade neste país.

A grande questão aqui, não são os argumentos usados para o banimento. Seria de esperar que um estado “Islâmico” proibisse muito conteúdo de entretenimento que não se alinha com as suas crenças. Muitos concordarão que o jogo é, de facto, violento, mesmo desconsiderando princípios religiosos. Outros também concordarão que até poderá iludir os jovens, talvez até influenciando actos violentos (é muito discutível mas há sempre quem concorde). E muitos concordarão que pode ser mesmo uma perda de tempo para quem o joga ininterruptamente.

Contudo, as motivações poderão ser outras bem menos “puritanas”. Com mais de 100.000 utilizadores activos no Afeganistão em 2021, PUBG para dispositivos móveis é um jogo muito popular neste país. Só que, sendo “free to play” não parece haver forma de algum lucro parar às mãos do regime. Também foi reportado que o jogo estaria a “açambarcar” a rede de telecomunicações Afegãs. O que pode significar uma capacidade reduzida da rede de dados para outros efeitos que é preciso resolver.

Ainda assim, o consenso será que esta medida agora implementada serve claramente como mais uma tentativa de controlo populacional. Desde que tomaram o poder, os Talibã já baniram mais de 23 milhões de sites por “conteúdo imoral”, PUBG é só mais uma vítima. É um facto que o jogo vai ser banido e possivelmente outros jogos também, além de plataformas como o TikTok e outras, cada vez mais fechando o país à influência ocidental e ao acesso livre ao entretenimento (e informação).

Enquanto isso, debaixo da lei Sharia as execuções públicas são uma realidade, em conjunto com intimidações e uso de armas para potenciar as perdas de direitos sociais e civis. Mas, aí, o puritanismo não chega para banir nada nem ninguém .