Entre a espada e a doença em A Plague Tale: Innocence

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Uma surpresa tão agradável, que a preview soube mesmo a pouco…

Há cinco protagonistas em A Plague Tale: Innocence. Dois são óbvios, outros dois são acessórios e o quinto é o Asobo Studio que nos trouxe este título. Isto porque, como irão ver, também esta equipa é uma heroína nos actuais campos de batalha desta indústria.

Não faltam jogos por aí que capitalizam nos temas genéricos de pandemias de larga escala para criar aventuras, por vezes bastante grotescas. Mas, descansem que aqui não há zombies ou algo do género. A Peste Negra foi uma das mais mortais pandemias na História da Humanidade. Entre 1346 a 1353, dizimou mais de um terço da população Europeia, estimando-se perto de 200 milhões de pessoas mortas na Europa e Ásia. Não havia nada romântico nesta doença altamente contagiosa, que se pensa ter sido disseminada por uma proliferação do vulgar rato preto indiano. A sua proximidade com os humanos fez com que a doença se espalhasse de forma galopante. A história da Peste Negra é interessante de estudar, uma vez que foi muito importante para muitas normas de higiene e de medicina que ainda hoje temos. Mas, não é disso que fala este jogo.

Em A Plague Tale, vamos acompanhar Amicia de Rune que, com apenas 15 anos, vai ter a aventura da sua vida. No ano de 1349, a Peste Negra está a chegar de forma galopante pelo Reino de França, onde Amicia vive com a sua família. Sendo uma família abastada, Amicia vive os seus dias a conviver com o seu pai e a aprender a caçar, quando tudo se desmorona rapidamente. Não só o cão da jovem é brutalmente assassinado por uma força estranha, como a Inquisição Católica surge do nada querendo capturar tanto a jovem como o seu irmão. Na confusão, Amicia acaba por ter de ficar a cargo do seu irmão Hugo de Rune. O que se segue é uma história de fuga, sacrifício e irmandade.

Infelizmente, só tivemos acesso a uma preview deste jogo que nos permitiu jogar os três primeiros níveis. Isto deixou-nos imensas perguntas no ar que, estamos certos, acabariam por ser respondidas na história mais à frente. Como tal, apenas pude avaliar o que me foi contado nestes curtos episódios. Em termos de desenlaces, fiquei confuso quanto ao papel da Inquisição nesta história. Com a França em plena Guerra dos 100 Anos contra a Inglaterra e esta Peste Negra a arrasar o país, perseguir dois jovens tem de ser algo muito mais interessante para o seu líder, que mais parece um Boba Fett devoto. Vejamos o que a história ainda nos trará no jogo final.

Em termos de acção, porém, foi possível ter um vislumbre bem mais profundo da jogabilidade que nos espera. Este é um jogo de aventura na terceira pessoa, com uns elementos de shooter e outros de acção furtiva. Na verdade, esta lógica serve apenas para criar um título de puzzles em que temos de usar o meio ambiente e alguns utensílios para transitar entre estágios.

Inicialmente, os dois protagonistas Amicia e Hugo apenas têm de passar despercebidos a guardas e gente tumultuosa, usando a funda de Amicia para lançar pedras ou arremessando potes para atrair incautos, enquanto nos movemos nas suas costas. O elemento shooter surge em algumas batalhas em que usamos a funda de uma forma mais agressiva.

Numa segunda fase do jogo, porém, entramos em catacumbas e eis que outra outro protagonista. Os ratos negros que infestam as zonas escuras são outro elementos importante no jogo. Para os afastar, temos de usar uma tocha ou uma fogueira. Assim, alguns puzzles visam misturar a transição com uma tocha ou mero ramo queimado ou a funda para deixar cair candeeiros, etc. Nada é francamente difícil e só exige estudar o que nos rodeia.

Já falei dos dois protagonistas principais, Amicia e Hugo, do antagonista líder da Inquisição e até dos ratos que têm um papel tão importante. Falta-me falar do tal quinto protagonista, a equipa do estúdio Asobo. Este estúdio não é propriamente inexperiente, tendo trabalhado com a Ubisoft nos dois The Crew e com os Microsoft Studios em ReCore e Quantum Break, tendo outros jogos mais ou menos sonantes em carteira. Este é, contudo, o seu primeiro grande jogo de produção interna. Contudo, logo nos primeiros instantes, afastamos de imediato a sensação de estarmos a jogar um pequeno indie de uma produção limitada.

Visualmente, A Plague Tale é um jogo absolutamente arrebatador. Tem um profundo cuidado com tudo o que é modelos de personagens, com uma modelação de faces e animações impecável. Os cenários são historicamente correctos, há inúmeros objectos e decorações, entre o que é civilização e o caos da peste e da guerra, que são simplesmente geniais. Mas, para mim o melhor de tudo é a iluminação. O jogo entre luz e sombra é simplesmente perfeito para um jogo. Quando estamos numa das secções de catacumbas com ratos, é também impressionante, não só as animações da autêntica massa viva de ratos à volta de Amicia e Hugo, como a luz tem um papel fulcral na acção.

Infelizmente, A Plague Tale não é perfeito. Nem vou dar muita importância ao facto das falas não se sincronizarem muito bem com os lábios das personagens. O que é pena porque o casting de vozes, diálogos e entoação estão sempre no ponto. É algo que só precisa de uns quanto toques para ficar melhor, quanto a mim. Também não me chocaram muito algumas questões de performance. Joguei esta preview no PC e notei também que há alguma inconsistência no rácio de fotogramas em cenas mais densas, sobretudo com vegetação em volta. Poderá ser fruto de uma necessidade de optimização que a produção pode muito bem abordar até ao lançamento. Nada demais, na verdade.

A minha questão com este jogo é mesmo a sua aposta no tipo de jogabilidade. Penso que a produção se inspirou em jogo como Hellblade: Senua’s Sacrifice, de onde tirou alguns elementos interessantes. Este tipo de jogos, contudo, não são muito consensuais entre os jogadores que procuram um pouco mais de interacção. E é mesmo aqui que A Plague Tale pode afastar muita gente. Tal como Hellblade, este é um jogo que prima pelo visual e pela história contada, rica em pormenores e desenlaces (pelo menos assim o prevemos). No que toca à jogabilidade, porém, não entusiasma muito. Tirando alguns momentos de maior intensidade que nos um maior ritmo, torna-se algo enfadonho e pouco “mexido”.

Nem todos os jogos precisam ser iguais, como se houvesse um padrão ou alguma “checklist” para preencher. Há imensos títulos de sucesso com uma interacção escassa ou onde o jogador tem muito menos intervenção. Ainda assim, por mais bonito e cuidado que o jogo seja, a jogabilidade é o que atrai jogadores. Se for baseada em puzzles simples e uns quantos “bosses” esporádicos, torna-se banal em pouco tempo. Espero que a produção aproveite este tempo ainda disponível para criar uma interacção bem mais profunda e com mais protagonismo para os jogadores.

Isto porque o resto é francamente bom. No final do terceiro capítulo, no auge do que o jogo parece vir a oferecer, fiquei em pulgas para saber o que iria acontecer a seguir. Como já disse, a história cativa bastante, deixando intriga no ar. O que, aliado à boa direcção de actores e à excelente qualidade geral do jogo, me fazem crer que esta ainda vai ser uma boa surpresa neste ano. Para mim foi, deixando-me com pena de não poder jogar mais que esta curta preview. E quando um jogo cria este tipo de expectativas, é bom sinal.

A Plague Tale: Innocence será lançado no dia 14 de Maio para PlayStation 4, Xbox One e PC. E recomendo que fiquem de olho neste título.

Esta antevisão foi feita com uma versão Preview para PC, fornecida pela representação nacional e/ou relações públicas do Estúdio e/ou Editora.