Editorial – A sala secreta e o jogadores banidos de Fallout 76

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Uma sala que não devia existir foi descoberta, a produção baniu em vez de simplesmente corrigir.

Convenhamos que a Bethesda não anda muito contente nestes dias. Fallout 76 revelou-se uma desilusão para muita gente, acabando abaixo das expectativas em vendas e recepção. Pior que um jogo falível, porém, é antagonizar a comunidade. Não ajuda muito, produção.

Tudo começou quando um grupo de jogadores mais “curiosos” descobriram uma sala secreta na versão PC, no que parecia ser uma “dev room“, um nível escondido para a produção usar e que funciona como um repositório de todos os itens no jogo. Outros títulos da Bethesda, como TES V: Skyrim já tinham um sala secreta semelhante, acedida apenas via linha de comandos. Contudo, este é um jogo online e uma sala destas pode significar uma incrível fonte de batota.

Depois de difundirem o seu achado em vários locais, desde o Discord à rede social Reddit, inevitavelmente muitos decidiram também deambular por esta sala. Afinal, é muito tentador vasculhar pelas inúmeras armas, armaduras e outros itens, alguns destes ainda inéditos, para engrandecer a sua personagem… a custo zero. Por outro lado, foi encontrado muito conteúdo curioso na sala, inclusive o que parecem ser itens de futuras expansões e até um NPC humano para interagir, algo inexistente no jogo base.

Obviamente, a Bethesda tinha de agir e cortar o mal pela raiz. Só que a sua decisão é um tanto drástica, diga-se. Podia ter-se ficado por bloquear o acesso à sala secreta, obviamente removendo o conteúdo ilícito aos jogadores prevaricadores. Afinal, por mais que os jogadores tenham acedido à sala de uma forma não autorizada, esta estava lá, deixada pela produção que já devia saber que não o devia fazer e que a comunidade colocaria o jogo sobre grande escrutínio.

A Bethesda já suspendeu os jogadores que entraram inadvertidamente na sala, dando mesmo “bans” (anunciados como “temporários”) às suas contas. A explicação é que estes jogadores usaram “software de terceiros” para mexer no conteúdo do jogo, justificando assim o banimento com uma quebra nos termos e serviços acordados pelos jogadores. O que é mais curioso é que parece que a sala continua acessível, embora alguns jogadores aleguem que não é possível interagir com os objectos presentes.

A questão parece óbvia. Alguém modificou os ficheiros de jogo e tem de ser punido por isso. Contudo, esta é a velha questão do ovo e da galinha, “quem veio primeiro”? É certo que os jogadores fizeram algo ilícito, uma batota para todos os efeitos. Ninguém quer jogar contra alguém que adquiriu itens elevados de forma ilícita. No entanto, os jogadores não conjuraram a sala secreta, ela estava lá e não devia estar. Ou, pelo menos, era necessário uma melhor protecção da mesma.

Banir jogadores movidos pela curiosidade de algo existente, mesmo que isso resulte em ganhos e proveitos ilícitos, parece uma medida demasiado desproporcional. Até porque muitos destes jogadores criaram contas alternativas para o efeito. Para muitos, é uma medida algo desajustada, bastando que a Bethesda soubesse corrigir um erro criado por si e dando uma devida “palmada na mão” aos prevaricadores. Banir parece ser uma medida vistosa para encobrir uma falha. O que, num jogo a passar por tantas dificuldades, só vem agravar o fosso entre a produção e a comunidade.

Resta a ressalva que esta sala apenas podia (ou pode) ser acedida na versão PC, salvaguardando-se as versões para as consolas PS4 e Xbox One.