Cogito Ergo Gamer: Didacticidade dos Jogos

1933

É inquestionável o papel lúdico dos videojogos. Mas a componente didáctica dos mesmos tem vindo a perder relevância, sobretudo nos jogos mais famosos e mais comerciais. Hoje em dia, salvo as evidentes excepções que já vamos falar, os jogos pouco contribuem para o conhecimento geral dos jogadores, para aprofundar assuntos importantes da História moderna ou antiga ou ainda que coloquem os jogadores a pensar com assuntos de carácter filosófico ou metafisico. Existem jogos que até vão mais longe ao deturpar os eventos reais para serem mais “jogáveis” ou a criar doutrinas perfeitamente fictícias “vendidas” como reais. De quando em vez um ou outro jogo desperta consciências, outro que realça eventos Históricos. Mas de um modo geral, a cultura fica de fora em troca de uma acção desmiolada ou sem grande justificação.

A nível da História adaptada a jogos, temos de mencionar como alguns jogos deturpam eventos históricos como God of War e a sua visão extremamente fictícia da mitologia grega ou Assassin’s Creed e a sua altamente delirante visão da História recente e contemporânea. Por outro lado temos jogos como Modern Warfare 3 que dão a entender que os suspeitos do costume (Russos) são sempre o arquétipo do Inimigo eterno. A nível de formação filosófica, nada como jogos como Final Fantasy para criar ilusões de divindade e deturpação de valores. Já agora a maioria dos jogos nipónicos tem sempre um perigoso périplo pelos ideais religiosos que nem todos se apercebem.

Tudo bem! É um jogo. Mas há formas de criar uma estória sem interferir com os valores estabelecidos na sociedade. Sobretudo em jogos para menores de 18 anos ainda a formar opinião sobre o mundo e tudo o mais. Por fim temos de apontar o dedo a jogos lineares em que o pensamento é acessório só para pensar onde disparar primeiro ou correr mais depressa e em que local. O convite ao raciocínio é mínimo. Jogos como Mortal Kombat ou Street Fighter, ou a maioria dos shooters modernos não possuem qualquer tutano psicológico. São autenticamente desmiolados sobre pancadaria ou sobre a “arte” de matar pessoas a tiro. E depois há os que juntam tudo num só como Grand Theft Auto

Dirão: Mas esses jogos são mesmo assim. Não são feitos para ser substanciais. Mas já viram as consequências morais de jogos como Mass Effect ou Skyrim em que o jogador pode enveredar por decisões positivas ou negativas que afectam o desenrolar do jogo? Aí, mesmo que a acção seja desmiolada, que não é, as consequências das escolhas no mundo fictício facilmente se transportam para o real se estivermos a falar não de adultos pensantes de opinião formada, mas de crianças ou jovens adolescentes ainda a criar a sua mentalidade.

Não sugerimos a proibição ou o boicote, porque, sejamos sinceros, por vezes é preciso esquecer a realidade e andar pelas ruas de Liberty City a desancar gangues de traficantes de droga, mas é preciso complementar. Por que tal como uma dieta saudável, há que equilibrar a experiência.

Mais que apontar dedos sobre deturpações, é preciso louvar os jogos que tentam dar verdadeiras lições aos jogadores. Veja-se a ode à camaradagem e de amizade de Gears of War, o convite ao pensamento e à reflexão da nossa dependência de tecnologia de Deus Ex ou ainda a fantástica lição de perseverança perante as dificuldades e de valores acima do ego de Metal Gear Solid. Mesmo estes jogos podem alterar certos pontos da História moderna para criar novos mundos, avanços tecnológicos e um futuro completamente diferente, mas o valores que transmitem, esses são eternos. Mencionamos jogos emocionais que apelam ao que de melhor a humanidade consegue conceber.

A nível de cultura Histórica, nada como jogos como Uncharted que nos convida a locais exóticos, mas mais do que isso, a investigar factos Históricos, perfeitamente adaptados ao enredo do videojogo sem a pretensão de os alterar. Também não podemos esquecer as batalhas travadas em Medal of Honor e nos primeiros Call of Duty a fazer recordar as sangrentas partes da História que jamais podemos esconder.  L.A. Noire é uma reprodução quase fiel da Los Angeles dos anos 40 e da cultura, vivência e ambiente dessa época quase perdida no tempo e só explorada por Hollywood. Mas notem que até mesmas recriações Históricas poderão conter imprecisões. Mas fica a intenção.

Falando de cultura geral, jogos como Gran Turismo ou Forza ensinam-nos a apreciar os feitos mecânicos e tecnológicos do mundo do Automóvel do mais antigo ao mais moderno. Ambos são um compêndio sobre mecânica automóvel e são essenciais a todos os entusiastas dos automóveis. Há jogos como Fallout que nos ensinam normas e dicas de sobrevivência a catástrofes. Ou os simuladores de voo que ensinam milhares de pessoas todos os anos a voar.

Há jogos que nos obrigam a pensar. Heavy Rain é um Thriller que nos convida a juntar provas, analisar factos e a pensar em evidências e a juntar tudo para encontrar um culpado. Os puzzles de Portal são quebra-cabeças complexos que quase sempre tem apenas uma solução, por vezes a menos óbvia. E nada como os pequenos jogos Echochrome ou Tumble para resolvermos pequenos problemas com soluções criativas.

Acima de tudo, a acção desmiolada, a diversão fácil ou a linearidade desligam-nos da realidade. O que para muita gente até pode ser uma vantagem. Mas somos todos seres inteligentes e sabemos que se não há nada a ganhar nas muitas horas que perdemos a jogar, então é tempo perdido. Infelizmente, o jogos de maior sucesso, nem sempre cumprem o papel didáctico que tem o dever moral de exercer. A questão mais profunda da essência do videojogo como ferramenta de aprendizagem e ensino é que pode ser usada de forma errada. Lembramos que o jogos entram nas nossas casas sem grande filtragem, através de compras de pais para filhos ou de compras quase compulsivas de jogadores por causa de hype e de pressão de marketing. Se tivermos atenção da próxima vez que pegarmos num jogo e nos perguntarmos que é que esse jogo nos vai ensinar hoje, até pode ser que tenham uma surpresa.