Lá porque a Bioware e a Electronic Arts a chamaram de “demonstração”, não quer dizer que o fosse realmente. Neste fim de semana jogámos o que chamaram de “Demo VIP” de Anthem. Só que, na verdade, fomos cobaias de uma experiência que não resultou bem.

Quem leu o nosso artigo de opinião de sábado, sabe esta demonstração foi um completo desastre nas primeiras horas. É que, muitos dos que fizeram pré-encomenda, só agora iriam ver se o dinheiro investido era bem empregue. Convenhamos que uma demo que nem funcionava era um mau presságio. Contudo, algo mais profundo está latente nesta demo, muito além dos problemas técnicos. E acreditem que teve mesmo bastantes problemas técnicos. A questão mais complicada em Anthem, pelo menos até agora, é a sua crónica indefinição, algo que também menciono no artigo já destacado. Se é só isto que a Bioware tem na manga, muita gente ficará desapontada.

Desde grandes clássicos como Baldur’s Gate que a Bioware tem sido reconhecida como grande produtora de RPGs. Knights of the Old Republic é, ainda hoje, reconhecido como um dos melhores jogos de Star Wars de sempre. Os jogos e sequelas de Mass Effect e Dragon Age são autênticas séries de culto, mesmo com Mass Effect: Andromeda a manchar esse histórico impecável. Por isso, quando vemos Anthem a enveredar por um caminho invulgar, mais focado na acção directa, é inevitável sentir “uma perturbação na Força”. Tanto Mass Effect como Dragon Age já tinham mostrado um interesse maior na acção mais directa, entre o shooter e o hack’n’slash, respectivamente. Ainda assim, essa interacção era claramente secundária, apostando mais em enredos e diálogos fortes.

Anthem vira claramente a fórmula no inverso, parecendo colocar a narrativa para segundo plano. Isto, nesta demonstração, claro. Recordo que a Bioware modificou bastante esta demo por causa do nível com que começamos (nível 10). De modo a evitar spoilers e para dar uma experiência rápida das mecânicas, muita coisa foi removida ou limada para garantir que nada que não fosse essencial passasse aos jogadores. Essa lógica, porém, trouxe uma inevitável confusão aos jogadores. Uma demonstração deve ser uma fatia de jogabilidade, que exemplifique bem o que o jogo é ou será. Se o que vamos ter foi o que joguei até ontem, mesmo com contexto em missões introdutórias até ao nível 10, fico apreensivo.

Começando pela história. Tudo o que sabemos do plano de fundo desta trama, surgiu em trailers ou textos promocionais. Anthem é um planeta em vias de ser colonizado por um grupo de humanos que, por qualquer motivo, mistura nuances de vida tribal com tecnologia de ponta. No ápice dessa tecnologia, estão os exo-fatos chamados de Javelin, que dão força, destreza e velocidade aumentada aos seus pilotos, os Freelancers. Como, quando e porque motivo estamos em Anthem, é uma incógnita. Há, de facto, um códice em jogo, mas nem mesmo este repositório de informação nos dá muitas respostas. Para uma produtora tão habituada a histórias ricas, fico desapontado com este vazio narrativo.

Claro que tudo pode mudar no jogo final. Tudo isto pode servir para surpreender os jogadores, dando-nos uma excelente narrativa cheia de desenlaces e emoção, como só a Bioware sabe oferecer. Contudo, o espectro de Andromeda não é facil de apagar. Não queremos mesmo voltar a jogar um título com uma história meio aborrecida, com desenlaces sem substância e com um final ainda mais controverso, como uma justificação para dar uns tiros. Mesmo que não aprofundasse muito a trama, esta demo era uma oportunidade soberana para a produção fazer os jogadores se apaixonarem com o que sempre soube fazer melhor. Não o conseguiu, infelizmente.

A única missão disponível, é uma mini-campanha para ajudar um NPC a obter um artefacto do que parece ser uma civilização arcaica que habita em Anthem. Essa peça, pelos vistos, tem uma propriedade única: divide uma pessoa em várias cópias com personalidades únicas. Faremos várias incursões, saindo de Fort Tarsis até ao terreno de batalha na superfície do planeta verdejante, para obter essa peça e depois complementar o que sabemos dela. Eventualmente, todas as missões passam por desancar os nativos, uns tais de Dominion que primam pela antipatia. O nível de dificuldade aumenta, mas também as capacidades bélicas dos Javelin. Algo que se assume ser o verdadeiro foco do jogo.

Os exo-fatos são realmente fantásticos. Além de oferecer uma protecção contra armas e elementos, possuem foguetes que nos permitem voar e flutuar no ar, além de correr e saltar de forma sobre-humana. Apenas terão de ter cuidado com a temperatura do fato, obrigando a paragens momentâneas para evitar sobreaquecimento. Temos também dois slots de armas convencionais (pistolas, metralhadoras, espingardas sniper, etc), três armas especiais (granadas, mísseis, escudos temporários, etc) e um poder recarregável para os momentos mais difíceis. Todo o fato possui um nível quase insano de personalização, onde podemos escolher peças, cores e até materiais disponíveis, além de alternar armas e poderes.

É, de facto, neste Javelin que vamos passar os melhores momentos deste jogo, não há dúvida. Poder voar a alta velocidade, pairar, correr pelas densas selvas ou dar grandes saltos acrobáticos, parece antever um shooter interessante. Há várias classes de Javelins (Ranger, Colossus, Interceptor e Storm) com atributos diferentes, mas adorei a manobrabilidade e velocidade do Interceptor. No que toca à acção, tudo se resume a destreza com o gatilho, gestão das munições e dos recarregamentos das armas secundárias e do uso da habilidade especial no tempo certo. Tudo, enquanto lutamos contra hordas de inimigos e não deixamos que o escudo caia ou que fiquemos à mercê do respawn ou do revive dos companheiros.

Toda a acção é cooperativa. Aliás, nem vale a pena aceitar algumas missões sem uma party completa (até 4 jogadores) com amigos ou via matchmaking. Infelizmente, este título possui o que vulgarmente chamo de “esponjas” de balas. São inimigos, na maioria dos casos bosses, com uma aptidão de absorver balas, a troco de muito dano causado em nós. Não são particularmente difíceis, possuindo pontos fracos para descobrir. São apenas fastidiosos e, por vezes, exageradamente resistentes. O que diz muito do potencial atrito a longo prazo neste jogo. É bem possível que mais e melhor equipamento se traduzam numa acção mais equilibrada, mas esse equipamento, pelos vistos, obriga-nos a ter uma certa dedicação.

Se a Bioware alega que nesta demo a progressão foi acelerada, só podemos temer o que será o grinding no jogo final. Todo o equipamento ganho é criado via crafting, apanhado em missão através dos inimigos derrotados, ou como prémio de cada missão terminada. As peças parecem “cair” a conta-gotas, com equipamento mais elevado “comprado” com dinheiro virtual ou micro-transacções (não disponível na demo). Em teoria, tudo pode ser ganho em jogo mas, se pudermos comprar, já estamos a ver onde a EA quer chegar com isto. Ou compram, ou jogam exaustivamente para obter melhor loot.

Se este grinding não vos incomodar, talvez os controlos vos dêem umas dores de cabeça. Mesmo depois de algumas horas e de ter feito inúmeros ajustes na configuração e sensibilidades do meu comando, lutei sempre com as lógicas de voo. O jogo não parece ter nenhum esquema de cobertura efectivo, obrigando-nos a estar em constante movimento. Voar parece ser uma lógica interessante, mas não é lá muito intuitivo. Temos de primeiro saltar e depois iniciar o voo, até aqui tudo bem. Mas, essa transição parece precisar de alguns ajustes. Claro que preciso de treinar mais, não duvido, mas a própria Bioware admitiu que o voo precisa de um polimento até ao jogo final.

No final, devo ter demorado umas três horas a descobrir tudo o que a demo tem para dar, entre uma missão principal, uma secundária e os modos de exploração de Fort Tarsis e do mundo de Anthem. Tão limitada como é, não tive oportunidade de testar mais que duas classes de Javelin, por exemplo. Notei que existem inúmeros coleccionáveis e zonas vedadas. Também notei que muito equipamento e crafting está desabilitado, assim como algumas interacções com NPCs. Se querem chegar ao nível máximo da demo (15), terão de repetir tudo várias vezes para lá chegar. É notório o receio da Bioware em partilhar “demais”. É normal que assim fosse numa demonstração. Mas, ainda falta o pior.

Já falei no tal artigo das inúmeras questões técnicas relacionadas com a ligação aos servidores. Apesar dos problemas de conexão terem sido mitigados (mas, não resolvidos totalmente), umas quatro horas depois do arranque outros problemas subsistiram. Um dos problemas foi o constante loading infinito. Um problema crónico, tínhamos de reiniciar o jogo por completo sempre que arrancássemos uma missão. Sempre. Por duas vezes, também perdi estatuto VIP e numa ocasião ainda recebi a mensagem que os servidores estavam saturados. Por tudo o que a Bioware foi dizendo nessas horas, fico com a clara sensação que esta não é uma demonstração… mas uma Beta pública.

O que me leva a pensar assim é que estes testes são realizados em janelas temporais, neste passado fim-de-semana e no próximo, claramente num crescendo de capacidade técnica. Regra geral, esse tipo de comportamento surge quando uma empresa está a testar servidores, aumentando a sua capacidade, algo que geralmente ocorre durante uma fase de testes… Beta. É para isso que servem as Betas públicas de jogos online, por exemplo: levar os servidores ao limite. Que falhem agora e não no jogo final, é essa a premissa. Uma demo jamais terá esse propósito, visto que o objectivo é muito diferente.

Por outro lado, não posso deixar de mostrar desagrado pelo visual desta demo. Nada a apontar quanto ao design geral, fruto daquelas mentes criativas que sabemos que a Bioware tem. Personagens, objectos, arquitectura, vegetação tudo emana qualidade e estou certo que será mais um ponto positivo no jogo. Também acredito que o grafismo geral, nas animações e efeitos visuais, tenham a qualidade desejada. Mas, estava tudo prejudicado por um filtro horrível que criava um efeito esbatido e um arrasto indesejado na imagem. Também não se admite o bloqueio de fotogramas nas consolas PS4 Pro ou Xbox One X, o que num shooter é quase um anátema. As quebras de performance durante os combates são mesmo gritantes, num mau exemplo do potencial do motor gráfico Frostbite.

Dirão que esta é uma fase de desenvolvimento. Recordarão o que a Bioware tem vindo a dizer, que esta é uma build antiga e que não representa o jogo final. Dirão até que estou a ser muito exigente com o que, para todos os efeitos, é só uma demonstração. Mas, acho que fui bem claro nas minhas críticas acima. Se a frustração dos problemas de ligação não bastaram, a qualidade geral da oferta posterior deixou muito a desejar. Depois, tenho muitas dúvidas sobre a orientação do conteúdo ou a qualidade do enredo. E até mesmo da capacidade da produção neste novo género para si. Já nem falo da validade deste jogo no panorama actual dos shooters online.

Vi muitas influências claras, como a mistura de cultura tribal e tecnologia de Horizon Zero Dawn, as lógicas de combate em modo cooperativo e de loot de Destiny ou The Division, entre muitas outras influencias de outros shooters online. Já não há muito espaço para “inventar a roda”, na verdade. E, se a fórmula de Anthem for bem construída, teremos aqui um título interessante, onde a Bioware pode muito bem surpreender com a sua robusta veia de contadora de histórias. Mas, até ao jogo final, esta demonstração trouxe mais dúvidas que conclusões. Talvez fruto do trabalho árduo a produção de esconder tantos elementos, talvez porque o grafismo, os controlos e as lógicas precisem de muito polimento.

Mas, hey, foi a Electronic Arts que chamou a isto uma demonstração.

A Demonstração VIP deste jogo decorreu neste passado fim de semana, num exclusivo para quem pré-encomendou o jogo final ou recebeu convite da produção/editora.

No próximo fim de semana, arranca a Demo pública do jogo, mais precisamente na sexta-feira dia 1 de Fevereiro, pelas 17:00 (Hora de Lisboa). Todos os interessados poderão simplesmente descarregar a demo nas lojas da PS4, XB1 e PC (via Origin) e experimentar o mesmo conteúdo. Esta demo terminará no Domingo dia 3, à mesma hora.

Anthem será lançado a 22 de Fevereiro para a PlayStation 4, Xbox One e PC. Jogadores que subscrevam o EA/Origin Access começam a jogar logo no dia 15 de Fevereiro.