Acesso Antecipado – Flashing Lights

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Uma ideia muito bem vinda, falta só a execução.

Com análises positivas no Steam, com uma fórmula que faz sucesso noutros lados, este é um título francamente ambicioso. Imaginem ser agentes da polícia, bombeiro ou paramédico numa cidade cheia de problemas. Sigam para a berma e deixem Flashing Lights passar!

Das muitas horas de Grand Theft Auto V que tenho registadas no PC, uma vasta maioria não foram bem passadas a jogar no seu vastíssimo modo de carreira. E, não, também não foram a jogar GTA Online. Muitas destas horas foram registadas a jogar um extenso mod chamado LSPDFR, ou LSPD First Response. Para quem não conhece, este é um mod muito complexo para ser jogado a solo, trocando as três personagens da trama por um agente policial (e não só). Depois, podemos responder a chamadas dos mais diversos incidentes e crimes, ignorando por completo as histórias do jogo. Trata-se de um mod de role play e que até já tem outras expansões para jogar como paramédico, agente federal, SWAT e tantos outros. Com isto em mente, quando vi a premissa de Flashing Lights fiquei interessado.

A ideia é mesmo essa: jogar nestes três papéis numa cidade aberta à exploração, respondendo a diversas chamadas e usando veículos, equipamento e utensílios únicos de cada profissão. No papel de polícia, escolhemos um carro patrulha e somos chamados para intervir em vários incidentes, desde pessoas suspeitas a assaltos com tiroteios, passando pelas chatas multas de estacionamento. Como Bombeiro, o foco são os incêndios e os acidentes, usando mesmo mangueiras para extinguir incêndios e escadas para salvar gatos indefesos em cima de árvores. Já os paramédicos têm a tarefa de assistir pacientes feridos e outras situações similares. E podemos trocar de profissão rapidamente na esquadra, quartel ou hospital, respectivamente.

Ou seja, tudo o que os tais mods de role play de GTAV nos deram, sem a chatice das instalações demoradas, injectores de mods com bugs e incompatibilidades de versões para resolver. Só que há aqui uma clara diferença entre um mod famoso de um consolidado líder de jogos em mundo aberto e este novo título da Excalibur Games (da autoria de Nils Jakrins). Já vimos mods tornarem-se jogos de sucesso (por exemplo, o famoso PUBG começou como um mod para a série ArmA). Mas, para isso, os jogos produzidos precisam atingir um patamar de qualidade inegável, nem que seja para honrar as suas inspirações. Ainda em Acesso Antecipado, como irão ver, há muito trabalho a fazer em Flashing Lights.

Os primeiros instantes de jogo são de algum desapontamento. Diria que estamos perante um conceito prematuro de algo grandioso, com muito boas ideias à mistura mas uma execução a precisar de revisão urgente. Os conceitos estão lá todos e já vou falar do que mais gostei, mas há muita coisa ainda incompleta, por implementar ou simplesmente ausente que inibe a melhor das experiências. Dirão que esta fase de acesso antecipado serve para isto mesmo, aprimorar o conteúdo e a jogabilidade, num jogo que também nem é caro para quem quiser apoiá-lo. Contudo, se pudesse classificar o estado deste jogo, diria que é uma autêntica pré-alpha, algo longe do produto final prometido.

Nota-se claramente a herança de LSPDFR em diversos sectores do jogo. A ideia de jogarmos na terceira pessoa, sendo possível passar para a câmara da primeira pessoa a conduzir, passando pelas chamadas de rádio escritas no ecrã (que também podemos aceitar ou rejeitar) e até mesmo as lógicas de interacção com transeuntes, tudo é familiar para quem jogou o mod de GTAV. O que me deixou bastante agradado, porque senti que o espírito deste jogo está de acordo com as minhas expectativas. Também gostei bastante da condução, seja dos automóveis, seja das ambulâncias e auto-tanques. Tem físicas bastante cumpridoras e, sendo uma interacção essencial ao jogo, achei francamente acessível.

Infelizmente, o que salta mais à vista não são esses pormenores bem concebidos. Vamos por partes. A pé os controlos são francamente limitados. Como polícia, não podemos andar e mirar a pistola ao mesmo tempo, nem sequer podemos recarregar esta arma em andamento. O sistema de cobertura é… bom, não existe, podemos agachar-nos, pronto. Como bombeiro, não conseguimos usar muito do equipamento, por exemplo a escada do auto-tanque para chegar a fogos em altura, sendo obrigados a “adivinhar” onde podemos apontar para apagar o fogo através das paredes. Como paramédico não temos uma interacção muito credível com as vítimas, sendo esta, para mim, a actividade menos interessante.

E depois temos inúmeros problemas com a inteligência artificial do jogo. Algumas questões com a IA nas interacções entre as três profissões ficam mitigadas se jogarmos online com outros jogadores. Cada um a (pelo menos tentar) cumprir o seu papel, dá uma fluidez evidente a cada chamada. O polícia bloqueia a estrada, o bombeiro apaga o fogo ou desencarcera a vítima e o paramédico evacua-a para o hospital. No entanto, offline, esta dinâmica perde-se com uma IA francamente básica ou inexistente mesmo, para não dizer “embrutecida”. E nem vou comentar como os transeuntes se comportam, enfaixando-se uns nos outros ao tentarmos bloquear o trânsito.

Depois, há imensos bugs de interacção para lidar. Tive inúmeros problemas de colisão, de animações, de posição da câmara e até de sensibilidades. Já que falo nos controlos, se quiserem usar um gamepad para jogar, preparem-se para programar e calibrar tudo à mão, por que o jogo não o faz por nós. Ainda que o programem bem, a resposta do comando é estranha e mais vale voltar ao teclado e rato. E mesmo com esses periféricos, preparem-se para alguma frustração a controlar a personagem. Considero uma questão de optimização, algo que a produção pode facilmente colmatar, a bem da jogabilidade. Mas, há outras questões mais prementes.

É que Flashing Lights precisa de mais conteúdo. A cidade fictícia até nem está mal desenhada, tendo zonas urbanas e áreas de floresta, praia e deserto bastante vastas. Contudo, a concepção de todas estas áreas precisava de mais variedade e mais cuidado nos detalhes. As ruas, por exemplo, estão quase desertas, com poucos veículos ou transeuntes. E as zonas de deserto são só mesmo isso, deserto. Não esperava nada ao nível do jogo da Rockstar, claro, mas é mesmo preciso que se insira conteúdo ou o jogo perde-se no seu vazio crónico. Algo que, já agora, não é nada favorecido com uma distância de rendering tão baixa e muita falta de efeitos visuais mais realistas.

Depois, temos de falar do design visual. Além dos imensos bugs, problemas de controlo e falta de conteúdo que já mencionei, o visual também precisa de alguma atenção. Apesar dos melhores esforços a modelar personagens e veículos, com elementos que considero bem feitos, o visual deste jogo não irá ganhar nenhum prémio de beleza. E o mesmo posso dizer da sonoridade, muitas vezes tão básica. Como já disse, tal como está agora, considero este jogo algo embrionário, justificando (até agora) algumas ausências ou necessidades de aprimoramento. E isso é por demais evidente no que toca ao grafismo e ao áudio.

Assim sendo, prefiro falar deste jogo como “uma ideia em progresso”. A execução ainda não está “no ponto”, num estágio em que possa considerar um jogo completo. É uma demonstração de um projecto que, bem executado, terá muitos adeptos no futuro. Contudo, o produtor independente Letão Nils Jakrins precisa por mãos à obra se quiser entregar o que promete. A ideia de ter um jogo standalone claramente inspirado num mod de sucesso, é um campo fértil que merece ser cultivado. Infelizmente, isso também exige dedicação a preencher este mundo em detalhe, a esmagar bugs que estragam a experiência e até a dar uma melhor performance visual e sonora.

A título de curiosidade, Flashing Lights chegou a ter uma campanha de crowdfunding via Kickstarter que arrancou em Agosto de 2017, tendo sido rapidamente cancelado no final do mês seguinte. Embora tivesse sido um cancelamento abrupto, o produtor justificou na altura que o cancelamento deveu-se a ter encontrado uma editora disposta a investir na sua produção. Continuou pelo Steam, entretanto já pela mão da editora Excalibur Games, ultrapassando em mais de um ano a sua previsão inicial de Fevereiro de 2018. O jogo ficou finalmente disponível em Acesso Antecipado no Steam a 7 de Junho deste ano.

E prevejo que fique nesta fase uns largos meses enquanto Jakrins se debruce nas inúmeras melhorias que os fãs têm vindo a pedir nos fóruns. Também acredito que este ainda não seja o jogo que o produtor queira entregar, dando-nos a possibilidade de o visitar numa fase tão prematura de desenvolvimento, aproveitando um preço simpático de 12,49€ (9,36€ até 24 de Junho). Assim, há aqui uma possibilidade dos fãs, não só ajudarem a financiar o projecto, como também ajudar a desenvolvê-lo com o seu feedback. Quero mesmo voltar a Flashing Lights num futuro próximo e ver onde chegou. Acredito que ainda virá a ser o tal jogo divertido que me despertou tanta atenção. Talvez me faça desinstalar um certo mod…