A guerra Ucrânia-Rússia e os videojogos

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Cada vez mais, vivemos num mundo “pequeno”, tornado global pela facilidade com que a informação nos chega. Por mais que os videojogos se queiram apartar da guerra entre Ucrânia e Rússia, é impossível.

Não vamos comentar como alguns jogos retratam guerras e conflitos mundiais, criando óbvias tendências de opinião. O jogos ocidentais várias vezes retratam os Soviéticos e Russos como opositores, raramente como benfeitores na ordem mundial. Só por aí, já temos uma propensão para achar que tudo o que vem do ocidente é negativo. Faça-se guerra e subitamente parece que se confirmam os preconceitos.

Análises superficiais à parte, fugindo o mais possível ao tema político, a comunidade mundial ligada a esta indústria, um pouco como a comunidade mundial no geral, uniu-se a repudiar a invasão Russa. Não está em causa propriamente a motivação da mesma mas o acto em si, que coloca a vida de inocentes em risco. Isso, é indesculpável.

Além das várias sanções governamentais à volta do mundo, várias empresas juntaram-se para inibir acesso por parte da Rússia a bens e serviços, inclusive digitais. E é óbvio que a comunidade de produtoras e editoras de videojogos tem vindo a reagir (lentamente, diga-se) em conformidade com os eventos e com a opinião pública.

Várias produtoras de videojogos estão activamente a protestar a invasão com comunicados e mensagens mais ou menos reactivas. Entre as mais “vocais”, está a GSC Game World, produtora da lendária série S.T.A.L.K.E.R. A equipa de produção sediada em Kiev veio a público várias vezes a repudiar a invasão, chegando mesmo a alegar que o trabalho continuará “depois da vitória”.

A 4A Games, responsável pelo projecto Metro, foi fundada na Ucrânia e ainda possui um estúdio em Kiev. Embora os escritórios centrais tenham sido movidos para Malta depois de 2014 (com a anexação da Crimeia), o estúdio está obviamente a ser afectado pela situação. A empresa-mãe Saber Interactive já veio a público a informar que está a monitorizar a situação e agirá conforme o que for necessário.

Quem sabe a empresa com mais “investimento” na Ucrânia é a Ubisoft. A equipa de Kiev trabalhou em jogos como Ghost Recon, Assassin’s Creed, Far Cry, Watch Dogs, entre outros, encontrando-se actualmente a trabalhar no próximo jogo Avatar. A Ubisoft está também a monitorizar a situação, tendo já disponibilizado meios e instalações para funcionários que sejam evacuados da capital Ucraniana.

A Gameloft também tem funcionários na Ucrânia, neste caso na problemática cidade de Kharkiv onde os combates se têm intensificado nos últimos dias e também em Lviv, outra cidade problemática, se é que na Ucrânia ainda existe alguma cidade que não o seja. Um representante já fez saber que a equipa está atenta e pronta a tomar decisões, “avaliando diariamente a necessidade de apoio” dos que lá trabalham.

Outras empresas como a N-iX Game, Vostok Games e a Frogwares estão também numa situação difícil, com o país a enfrentar faltas diversas. Mas, a julgar pelo último post (acima) desta última produtora, o espírito, pelo menos, continua positivo. A realidade destes estúdios, porém, é a mesma de mais de 44 milhões de Ucranianos a braços com a guerra. A vida tem de prevalecer, mesmo perante adversidade.

Do outro lado, na Rússia, há bastante prudência nas comunicações para o estrangeiro. Não há propriamente reacções públicas a defender ou a repudiar as acções de Moscovo, mas pessoalmente muita gente protesta esta invasão. Mesmo assim, fica claro que entre estúdios e produtoras Russas existe uma divisão clara de opinião quanto à invasão ou “acção militar especial”, como Moscovo chama a esta guerra.

Ainda assim, centenas de produtores, designers e artistas que trabalham neste meio e são naturais ou residentes na Rússia assinaram uma carta pública em que pedem “o fim da guerra com a Ucrânia”. Cerca de 900 pessoas ligadas a empresas como a Epic Games, CD Projekt RED, MY.GAMES, Saber Interactive e outras assinaram esta carta iniciada por Nikita Ivanov, numa demonstração de união do lado Russo desta indústria contra o conflito.

Por mais que não se queira juntar tudo no mesmo “saco”, as sanções contra a Rússia começam também a chegar aos videojogos. Há movimentações para fechar servidores, cancelar serviços de jogos e até restringir acessos em alguns títulos. Há, com certeza absoluta, muita gente inocente também do lado Russo, igualmente apanhados de surpresa, igualmente repudiando esta guerra. Mas, nesta fase, é difícil dividir os justos dos menos inocentes.

Várias empresas de eletrónica, entretenimento e de lazer ou já cortaram por completo ou estão a restringir bastante o acesso de utilizadores Russos nas suas plataformas. Apple, Youtube, Facebook, TikTok já estão a aplicar restrições, por exemplo. Inevitavelmente, o cerco chegará também aos videojogos. O apelo em baixo é de Mykhailo Fedorov, vice-primeiro ministro Ucraniano que falou directamente à PlayStation e Xbox a apelar para a restrição das suas plataformas na Rússia.

Infelizmente, no meio de tanta confusão, onde reina a propaganda e bastante desinformação, lá surgem os oportunistas que tentam tirar proveito de uma desgraça alheia para ganhar hits. Sempre que há uma nova guerra, lá surge alguém que se acha mais esperto que os outros e grava a acção de um jogo e chama de “vídeo real” do actual conflito.

Nas primeiras horas de combate, uma série de vídeos surgiram alegando que pertenciam ao conflito entre Rússia e Ucrânia. Vídeos que, afinal, não passavam de recriações de combates realizados em simuladores como DCS World ou ARMA III. Dois dos mais famosos chegaram mesmo a meios de comunicação social que, infelizmente, não perderam muito tempo a tentar verificar a legitimidade dos vídeos em questão.

Uma das histórias mais entusiasmantes vindas deste conflito fala de um tal de “Fantasma de Kiev”, um pretenso piloto que terá abatido seis aeronaves Russas nas primeiras horas do conflito. Os mitos nascem assim, sem confirmação, apenas com a história que se conta tantas vezes até que se torna verdade. Vídeos como este em baixo, claramente uma simulação de combate feita no DCS World, só alimentam este mito em particular.

Há um outro vídeo que é frequentemente publicado a cada novo conflito que mostra uma bateria anti-aérea a interceptar um avião… no ARMA III. Não só as imagens têm fraca qualidade, como demonstram aeronaves que claramente não são Russas e ainda por cima nem possuem o realismo necessário para serem credíveis. Porque é que as pessoas ainda caem neste engodo vezes sem conta, é uma incógnita.

As redes sociais Twitter, Facebook e Youtube estão activamente a remover vídeos deste género, claramente criados para enganar e ganhar notoriedade de forma fraudulenta. Alguns destes vídeos são partilhados de forma inocente por quem confia ser algo real. Outros partilham-nos como que participando numa campanha de desinformação que não serve para mais nada, senão confundir.

Aqui no WASD, não vamos tomar partidos. Todos sabemos que as notícias são veiculadas da forma mais conveniente para um ou para outro dos lados. Apenas podemos expressar o nosso profundo descontentamento pelo que se passa na Ucrânia, independentemente das razões dos dois lados. E sem dúvida que os videojogos (e muito mais além) serão profundamente afectados por causa de uma guerra decidida por gente que não pega realmente nas armas.

Ao menos nos videojogos, podemos simplesmente pousar o comando e sair do jogo. Aqui… nem por isso.