100 Censura: Onde a tua opinião vale zero?

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É, parece que o mundo dos videojogos engrenou a 3ª velocidade e prepara-se para entrar no patamar do autismo produtivo.

No dia que termina a Beta de Battlefield 3, também pode estar a terminar um ciclo. As Betas deixaram de ser um meio pelo qual as produtoras testavam jogos e passaram a ser um veículo comercial em jeito de teaser. Nós gostamos das betas, note-se, mas quando agem como demonstrações de jogos ao invés de servirem de plataformas de teste, deixamos de acreditar na validade das mesmas.

De que me vale um bocado de jogo finito e cheio de erros, que supostamente é um teste, quando não tenho oficialmente de reportar nada e quando não me é pedido mais nada senão descarregar e “desfrutar”? Se ainda por cima não é representativo do jogo final, para que raio serve uma beta?

Conheçam a Betinha…

Há diversas fases na concepção de software mas o mundo dos videojogos convencionou apenas cinco: Concept, Pré-Alpha e Alpha, Closed e Public Beta, Release Candidate e Retail.

Concept é a fase em que o jogo não sai do papel ou são criadas apenas pequenas partes da jogabilidade para efeitos de demonstração de capacidades, ideias ou conceitos de jogo. Geralmente são mostradas Concepts a produtores, investidores, editores, etc, com o objectivo de aliciar o futuro desenvolvimento.

A fase Alpha acontece já quando o jogo está em plena elaboração. A pré-alpha é um produto ainda mal definido que é criado em partes distintas dos vários departamentos e é depois compilada numa Alpha que é entregue a uma equipa de testadores cujo objectivo é não só testar a fluidez do jogo como a interligação das suas partes. Nesta fase é comum encontrarmos jogos completos (entenda-se completos por jogos onde todas as partes estão disponíveis, tanto modos offline como online e não o jogo finalizado). Regra geral a Alpha não sai do estúdio onde está a ser elaborada e serve apenas para o trabalho interno de produção.

Depois chega a fase Beta e é aqui que as coisas se tornam interessantes. Desenganem-se se acham que a Closed Beta é uma fase interna e a Public Beta é uma fase externa à empresa. Ambas são externas. A diferença é o público-alvo a quem são distribuídas estas Betas. Geralmente até coexistem, mas uma acaba por anteceder a outra. Na verdade, a Public Beta nem devia existir pelos padrões da indústria, sendo que a sua alegre persistência em existir surge da necessidade de manter o hype.

Noutras áreas de desenvolvimento de software, a Beta é sempre pública. Não há distinção. Mas a diferença é que nessas fases a empresa exige feedback aos testadores porque é para isso que serve o software Beta. Para testar e relatar erros encontrados. Muitos programas e jogos de primeira linha são testados recorrendo a programas “debug” que encontram erros e criam relatórios precisos. Muitas vezes essas Betas são executadas por empresas especializadas que só elaboram betas. Outras vezes pede-se ao utilizador comum que descarregue a versão Beta e a relate através de mecanismos de contacto precisos.

Mas no mundo dos videojogos surgiu outra vertente na Beta: a comercial.

Coloque-se um pedaço curto de software online em que o jogador só tem de jogar livremente e encher servidores, explique-se a existência por dizer que “é para testar a performance dos servidores”, e eis que surge o mini-jogo gratuito em que a nossa opinião nem sequer é consultada.

Então chama-se “open beta” ou “public beta” até serve para alimentar outros orçamentos, tornando-se exclusivos de Gold Membership no Xbox Live ou de Plus na Playstation Network como se um jogo incompleto e cheio de erros, nada representativo do produto final, fosse um privilégio para um jogador que anseia por determinado título.

Mas é opcional… e tal…

Podem dizer que só descarrega quem quer, mas que dizer da Beta em si? Tirando a actividade em fóruns onde jogadores bem intencionados criam listas de erros que vão encontrando, não há um só mecanismo de feedback oficial. Somente a Closed Beta feita por especialistas como já mencionámos, é que surte efeito.

Falámos na Beta de Battlefield 3 e como terminou hoje e veja-se o enorme hype gerado em volta. Veja-se também a quantidade de erros detectados pelo utilizador comum e que não foram corrigidos. Confrontada com isso a DICE justificou que não iam mexer no código da Beta mas sim concentrar-se no jogo final, agradecendo os relatórios de erros. Então para que serviu a Beta Pública?

Para desfrutarmos de um jogo incompleto, cheio de erros e em que a nossa opinião contou zero…

Gostamos muito de Betas, mas adoramos ter participação nelas. Já fizemos betas fechadas e sabemos bem o grau de produtividade exigido e como as empresas como a DICE ou outras beneficiam tanto delas. Mas quando se colocam Betas como demonstrações nas stores das plataformas, fica sempre um sabor amargo, até porque depois no meio de tantos bugs, há exploits que os jogadores mais trogloditas exploram até à exaustão, quando o que se pede é que se ajude no resto.

Gostávamos mais que as empresas pedissem aos gamers que testassem o jogo pelo que é não pelo que parece. Gostávamos que a Indústria regressasse a o tempo das Betas por convite para testar convenientemente e com objectivos. Não gostamos de ver Betas como demonstrações comerciais. Chame-se a isso o que se quiser, menos Beta…

E porque nos insurgimos contra isto? Porque no final tanto os Release Candidate (produtos quase finais que são distribuídos às editoras para Controlo de Qualidade) como os Retails (Produto final em formato de jogo completo) acabam por não ser eles próprios produtos finalizados. Veja-se a quantidade de patches que são lançados posteriormente, sobretudo por jogos com demasiado hype e cheios de Betas Públicas.

Com tanta gente a testar a segunda Beta Pública de Uncharted 3, vamos ter ali um jogo perfeito certo? CERTO? Pois sim… esperem sentados…