Mais infoProdutora: AtlusEditora: Deep SilverLançamento: 04/04/2017Plataformas: , Género:

Mais ou menos três anos depois, este ainda continua a ser um jogo viciante, cheio de boas ideias e uma história cativante. Por isso, reeditá-lo numa versão modernizada é uma boa ideia. Contudo, Persona 5 Royal é bem mais que uma mera reedição de um jogo de culto, trazendo consigo algumas novidades relevantes, tanto para os fãs, como para os que só agora irão invadir os sonhos alheios.

Basta lerem a análise em baixo para concluírem que fiquei fã deste jogo. Isto, embora seja um devorador de horas e que obrigue a alguma dedicação até que consigamos jogá-lo decentemente. Como qualquer outro JRPG que se preze, tem uma elevada dose de estranheza na fórmula, o que pode não agradar a todos. E também pode soar a puro oportunismo que um jogo com três anos de vida seja reeditado em tão pouco tempo. Mas, felizmente, Persona 5 Royal é bem mais que uma simples oportunidade comercial. Como irão ver, é uma subtil mas convincente remodelação do jogo-base, melhorando-o em inúmeros pontos, ao mesmo tempo que introduz novidades interessantes. E é óbvio que aceitaria qualquer pretexto para voltar a jogá-lo. E vocês que não jogaram o original, esta é a vossa derradeira oportunidade de o descobrir.

Não se deixem enganar. Este é o mesmo jogo de 2017 no que toca ao enredo, à jogabilidade (com algumas novidades que já falarei) e até tem a mesma premissa estranha. O que a Atlus fez aqui foi polir o jogo em tantos pormenores que muitos serão ignorados pelos menos atentos ou não será significativos para quem só agora chega ao jogo. Mas, começando logo na nova cena introdutória, os veteranos irão perceber o que digo. A energia, as cores e as animações nessa introdução, dão o devido mote para o que se vai seguir, tudo embrulhado com uma nova ênfase ainda mais vincada na diversão. O que, inegavelmente, é o que mais precisamos nos dias que correm.

Não irei abordar nenhum pormenor do enredo geral. Para isso, devem ler a análise original em baixo, onde explico alguns dos pormenores básicos da trama. Não há muitos pormenores novos neste campo, de qualquer forma. Há algumas pequenos desenlaces subtis que notei e ligeiras alterações nas personalidades de cada personagem. Nada é francamente modificador, tratando-se de ligeiros ajustes na forma como interagimos e como as personagens reagem a determinadas situações. Não vale a pena ser exaustivo neste ponto, quanto a mimi. Acho que a Atlus quis apenas polir a fluidez da história, mas o contexto geral mantém-se inalterado. E ainda bem.

A verdadeira novidade de Royal é o seu conteúdo adicional. Além de novas personagens, há umas quantas novas áreas para explorar e um novo arco de história antes da secção final do jogo. Esta nova porção de história abrange todo um semestre e visa dar mais profundidade ao enredo lá mais para a frente. Sem querer escrever nenhum spoiler, diria que muitas pontas soltas são, de certa forma, finalmente coladas. Mas, muitas outras se levantam, com seria de esperar. Sempre que criadores tentam reescrever uma história, isto pode acontecer. Como é uma porção de história encaixada no meio de linhas de enredo já existentes, não altera nada do chamado End Game. Apenas pretende fazer serviço aos fãs, quanto a mim. E cumpre esse objectivo.

Falando das novas personagens, temos em jogo Kasumi Yoshizawa, Takuto Maruki e Jose. Kazumi é uma nova personagem jogável, uma Phantom Thief. Infelizmente, junta-se à trupe de ladrões algo tarde no jogo, tendo uma influência algo escassa nas primeiras horas. Já Takuto é uma personagem não jogável, um conselheiro da escola que age como Confidant em jogo. Também ele surge algo tarde e precisamos granjear a sua confiança para que tenha um papel significativo. Agora, o pequeno Jose é que irá fazer a diferença na jogabilidade. Embora seja um pouco misterioso, acaba por nos ajudar bastante. Além de pedir para reunir coleccionáveis, confere alguns bónus e ofertas preciosas. Em algumas missões fez mesmo a diferença para as concluir.

Entre as novas áreas de jogo, primeiro falo da Thieves Den, um novo local passivo, disponível no mundo dos sonhos. Trata-se de uma espécie de hub, onde podemos consultar os troféus dos nossos feitos em jogo. É também aqui que desbloqueamos uma série de itens de colecção, como imagens de arte, vídeos e música, além de poder visualizar modelos 3D das personagens e dioramas de alguns locais. Além disso, podemos interagir entre as personagens, com conversas que poderão ser bastante interessantes e importantes para o enredo. Este covil, honestamente, não serve para grande coisa, senão uns minutos de descanso entre missões e algum serviço aos fãs. Mas, é uma área muito bem trabalhada e que se encaixa bem no contexto de um Role Play Game.

Outra área nova, desta vez no mundo “real” do jogo, é Kichijoji. E aqui a conversa é outra. Trata-se de um centro comercial com imenso para descobrir e explorar. Assim de repente, faz-me lembrar Kamurocho da lendária série Yakuza, pelo menos em contexto de área social neutra. Aqui, podemos comprar imensas coisas, como é óbvio. Mas, o que mais gosto de fazer aqui é… jogar dardos. Sim, temos aqui um mini-jogo chamado DartsLive3, que recria uma máquina arcade muito parecida às que temos nas casa de jogos de arcada reais. Lançar os dardos é bastante intuitivo, usando o sensor de movimento do DualShock 4. Acho que perdi mais tempo aqui que em qualquer outra parte do jogo, honestamente. Até porque, ao jogarmos estes dardos, ganhamos bónus para algumas habilidades de combate.

No que toca ao resto do jogo, confesso que não notei nenhuma alteração significativa. A importante componente do combate continua impecável, com as suas dinâmicas estratégicas sem grandes diferenças de assinalar. Temos umas novas habilidades e opções de ataque, mas nada que considere realmente diferente. Como no jogo base, é preciso vasculhar e experimentar as habilidades e bónus para conseguir chegar a uma fórmula que funcione connosco. Ainda assim, notei que os combates possuem uma melhor fluidez, não parecendo tão “rígidos”, dando-nos mais liberdade. Também a rotina diária das personagens nos dá mais opções de melhorar a energia e a vida das personagens para que não fiquemos tão “cansados” nos Palácios. No fundo, são alterações subtis de balanceamento que só melhoram a jogabilidade.

Por fim, a novidade que mais saltará à vista. Persona 5 foi originalmente lançado na PS3 em paralelo com a PS4. Não podemos dizer que nessa altura o jogo tivesse alguma vez mau aspecto, longe disso. Contudo, nesta versão Royal, o polimento visual atingiu novos patamares de qualidade, não tanto no design ou animações mas mais na resolução e qualidade geral de modelos, texturas e iluminação. Também os menus de jogo e o interface foram mexidos, tornando-se bastante mais legíveis e arrumados. Para mim, a melhoria mais importante nesta revisão gráfica, é a fluidez geral do jogo na nossa PS4 Pro, num bom trabalho de optimização que tira proveito do hardware mais potente.

Veredicto de Persona 5 Royal

É sempre complicado justificar a compra de uma reedição de um jogo com três anos, ainda por cima a preço de um título novo. Contudo, Persona 5 Royal não é apenas uma mera actualização “GOTY” deste jogo. Adiciona novas personagens, novos locais e uma porção de história inédita. Mas, a principal novidade aqui são os inúmeros ajustes de “qualidade de vida” e ao nível gráfico e não só, que tornam esta a edição definitiva do jogo, sem dúvida. É obrigatório para os fãs do original, como um pretexto bastante válido para regressar. E não posso recomendar mais para quem quer experimentar um excelente JRPG, cheio de acção e inúmeros pormenores de qualidade. É realmente uma edição… de realeza…

[Análise Original de 6 de Abril de 2017]

Desde que foi lançado em Setembro do ano passado no Japão, Persona 5 tem vindo a ser aclamado pela crítica local, o que levou a alguma antecipação por parte do mundo Ocidental. Chegando cá, parece que a qualidade se confirma com uma excelente reacção. Resta saber o motivo desta receptividade.

Com cinco títulos na série, qualquer pessoa que chegue agora pode sentir-se intimidada. Não é de estranhar. Pessoalmente, os jogos da série Persona passaram-me um pouco ao lado, tendo testado de forma sucinta um ou outro título. Não significa que os JRPGs (Japanese Role Play Games) não me atraiam, mas convenhamos que muitos nos são estranhos. Persona 5 poderá ser mesmo isso nos primeiros minutos de contacto: Estranho. Contudo, penso que todos gostamos de jogos que possuem profundidade. E não há maior exemplo dessa profundidade que um jogo que, à partida, nos faz franzir o sobrolho, mas que, com dedicação e vontade de o explorar, revela uma pérola escondida. Só que isso implica que todos os outros jogos na vossa PlayStation 3 ou PlayStation 4 terão de esperar um pouco enquanto descobrem este novo título da Atlus. Já vão perceber porquê.

Na pele de um jovem estudante que é enviado para Tóquio, Japão, vamos ingressar numa nova escola, a Academia Shujin, depois de uns problemas com a Lei. Rapidamente, voltamos aos ditos problemas quando nos apercebemos que temos a capacidade de deambular por um bizarro mundo alternativo chamado de “metaverse”, onde “palácios” escondem aberrantes desvios mentais de realidades deturpadas. Na essência, percebemos que temos uma identidade real e depois… uma personalidade alternativa chamada de Joker. Com esta entidade, temos de liderar uma rebelião perpetrada pelos chamados “Phantom Thieves of Hearts”, cujo objectivo é muito simples: mudar a sociedade por tocar os seus corações e alterar comportamentos. Nada fácil…

Para nos acompanhar nesta complexa e estranha tarefa de tomar de assalto as mentes dos incautos, temos uma série de companheiros peculiares. Na nossa companhia estará, um gato falante (Morgana), um atleta e músico (Ryuki) e uma rapariga… digamos, perturbada (Anna). Eventualmente, estas personagens são bem mais que companheiros de aventura e terão espaço para criar relações entre estas personagens, tanto as “reais” como os seus alter-egos do universo alternativo do metaverse. Vai levar algum tempo até que estas relações evoluam e é óbvio que ao início ainda estarão a vencer a estranheza inicial, que só se amplifica com estes companheiros. Mas, é essencial que desenvolvam as amizades para melhorar prestações em combate e até desbloquear bónus especiais.

Não se assustem com o número “5” no título. Apesar desta série contar com uma mão cheia de jogos, este quinto título é totalmente independente ao nível de enredo. O que é uma excelente notícia para os que pensavam que tinham de ir a correr jogar quatro extensos e complexos jogos antes de pegar neste título. O enredo é completamente inédito e sem ligação aos jogos anteriores, algo comum na série, diga-se. É óbvio que se jogaram esses demais jogos terão uma melhor “bagagem” para abordar Persona 5. Até porque há alguns temas recorrentes e mesmo alguns eventos que fazem chamadas de atenção para os títulos anteriores. Se só agora chegam à serie, o máximo que pode acontecer é algumas dicas vos passarem ao lado. Mas, acreditem… muito mais vos vai passar ao lado.

Infelizmente, apesar de muitas das mensagens serem comuns, alguns pormenores culturais da sociedade nipónica ficaram perdidos na transição para a nossa própria cultura. Apesar de já termos conhecimento de muitos desses pormenores dada a nossa exposição a jogos e outros meios Japoneses, é perfeitamente normal que não entendam algumas piadas ou situações. O que também dificulta um pouco na transmissão de algumas mensagens mais profundas que estão engenhosamente embebidas no enredo. Acredito que a localização para a língua Inglesa trouxe iguais desafios para os tradutores. Mas, também acredito que esse é mesmo o encanto dos JRPGs, a descoberta de uma sociedade tão diferente da nossa.

Basicamente, o jogo irá levar-nos a duas realidades diferentes, mas perfeitamente interligadas. Quando a noite chega e somos transportados para o metaverse, surge o verdadeiro desafio de Persona 5. Cada um dos já mencionados “palácios” é uma autêntica “dungeon” repleta de demónios para combater em locais que nos são familiares, uma vez que são deturpações de locais “reais” que vimos nas actividades diurnas de Joker. O combate faz-se por turnos com selecção de ataques, defesas ou movimentos especiais. Há também secções de movimentação furtiva que obrigam a evitar o confronto ou a criar emboscadas para conferir danos inesperados nos adversários. Se estão familiarizados com este tipo de combate, estarão em casa. Mas, esta lógica de combate directo ou furtivo confere uma variedade interessante ao jogo.

Não sendo eu um grande apaixonado pela acção por turnos, o combate até é bastante intuitivo e repleto de pormenores interessante. Saibam, porém, que podem optar por um modo especial chamado de “Safety”. Neste modo, os inimigos tornam-se bem mais fáceis de derrotar e oferecem mais bónus pela sua derrota. Se morrerem a meio do combate, revivem de imediato e não perdem qualquer progresso. Este modo estará reservado para quem não pretende perder muito tempo em lutas, mas concentrar-se no enredo e na componente Role Play. Até porque, em alguns momentos, o jogo começa a ter uma dificuldade acrescida que, embora seja acessível com algum planeamento, pode não agradar aos jogadores menos habituados ao género.

Se durante a noite somos paladinos a combater os males do mundo numa acção por turnos digna de qualquer bom RPG, de dia as coisas são um pouco diferentes. A rotina do dia-a-dia do jovem estudante é estranhamente interessante. Nada podia ser mais monótono que reviver a vida de outra pessoa, certo? Contudo, esta ideia de sermos um “voyeur” numa vida de alguém com a grande diferença cultural vinda da Terra do Sol Nascente, tem sempre algum fascínio para muita gente. Vamos às aulas, trabalhamos em part-time, convivemos com amigos e até temos de fazer testes escolares. E uma boa prestação nestas actividades mundanas até tem uma validade inesperada. Existem inúmeras acções que podem melhorar as actividades nocturnas, como ler um livro específico para melhorar estatísticas, por exemplo.

E é perfeitamente normal que se deixem deslumbrar pelo conceito e arte do jogo, que nos faz lembrar um filme de animação Manga. Só que, “por acaso”, podemos interagir com este filme. Combinando elementos de banda desenhada com modelos 3D, possui um design muito interessante. Contudo, não esperem grande fidelidade gráfica na PS4, uma vez que este jogo foi concebido também na PS3. É de esperar alguma simplicidade geral do grafismo, mas que é perfeitamente compensada pela arte irrepreensível do jogo, que até nos menus se faz sentir. Nada foi deixado ao acaso neste título, inclusive na sua variada e muito bem escolhida banda sonora.

Veredicto

Ao fim de algumas horas a jogar Persona 5, fica claro que este jogo “suga” horas aos jogadores. Exige muita dedicação e atenção, o que irá, com certeza, afastar os jogadores casuais que procurem um jogo mais “descartável”. Se lhe derem uma “chance”, porém quando derem por vocês, estão completamente fixados na sua jogabilidade e arte geral. Obviamente, essa apreciação também depende do vosso apreço pessoal pela cultura Nipónica e pela banda desenhada Manga. Tem algumas questões técnicas, logicamente. Mas nada que o impeça de ser um dos melhores JRPGs que já joguei no passado recente. Com um enredo sólido, estranhamente simples ao início, mas que se ramifica em implicações sociais, políticas e morais, Persona 5 tem muita… personalidade.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.