Mais infoProdutora: Claudiu Kiss Editora: The Irregular CorporationLançamento: 29/01/2019Plataformas: Género:

Não, não é bem um simulador. Também não é um jogo de grande acção. Trata de uma profissão que ninguém jamais daria como exemplo de algo excitante. A vida de um informático é retratada em PC Building Simulator.

Da produção de Claudiu Kiss e edição da The Irregular Corporation, este jogo esteve em acesso antecipado no Steam até agora. Durante esse processo angariou dois tipos de atenção. A dos fãs de jogos de “building” (como Car Mechanic Simulator, por exemplo) que encontraram aqui uma jogabilidade que apreciaram. E a dos principais fabricantes de componentes informáticos. O resultado foi um fenómeno de popularidade, aliado a uma impressionante adição de hardware licenciado (virtual, claro) para colocar em jogo. Finalmente lançado, PC Building Simulator também foi acumulando inúmeras melhorias e aperfeiçoamentos na jogabilidade, sobretudo na lógica dos trabalhos a executar e nas fatídicas avaliações dos clientes. Peguem na chave de parafusos e sigam-me.

A lógica é simples. Somos um informático que acabou de abrir uma pequena loja de montagem e reparação de computadores. Acedemos à nossa caixa de email e recebemos trabalhos de computadores nas mais diversas situações. Apenas uma limpeza na caixa, uns vírus para eliminar ou um programa para instalar, são dos trabalhos mais simples. Mas, também surgem tarefas mais complicadas como trocar placas gráficas, substituir um CPU danificado ou até tentar diagnosticar o que se passa com uma máquina que não arranca. Os trabalhos possuem, em muitos casos, um tempo limite de execução, condicionantes impostas ou apenas sugestões dos clientes que podem passar despercebidas.

Contudo, temos outras condicionantes mais prementes para executar o trabalho. A principal é o dinheiro disponível. Não abunda ao início e só podemos pedir até 1000€ de crédito se precisarmos. Esse orçamento é importante para pagar as contas (luz e renda) ao fim do mês e encomendar peças de substituição, que também podem demorar a ser entregues, jogando com o tempo limite. Há casos em que teremos de pagar um valor extra para virem no dia seguinte, por exemplo. Depois, temos de avaliar se o trabalho compensa o pagamento feito. Há clientes que nem quererão pagar. Fazemos o trabalho perdendo dinheiro mas ganhando um futuro cliente? Depende…

É que, depois, temos uma mecânica, muitas vezes injusta, para condicionar tudo isto. A das avaliações. A partir de uma dada altura, os clientes deixam uma avaliação do nosso trabalho, até cinco estrelas. Esta reputação é importante, uma vez que nos permite angariar trabalhos mais complexos. Se, por acaso, não atenderam a um pedido especial do cliente, por exemplo, usar uma marca da sua preferência nalgum componente, é o suficiente para nos darem uma avaliação mais baixa. Demorem um pouco mais a entregar a máquina ou ultrapassem o orçamento, péssima avaliação. Não é preciso muito, infelizmente.

E não pensem que é só uma questão de executar tudo o que vos é proposto, uma máquina de cada vez e durante um dia inteiro de trabalho. Por vezes, não teremos tempo para isso. Inicialmente o volume de trabalho é reduzido, até porque só temos uma mesa de trabalho. Terminarão o dia só com uma ou duas reparações. Bons tempos… Com o evoluir da nossa carreira, desbloqueamos mais mesas e armazenamento, que até nos permite fazer uma melhor gestão de tudo. Mas, com isso também surge a complicação do jogo. Agora temos mais volume de trabalho, que obriga a gerir bem as compras para não entrarmos na bancarrota e a lidar com mais que uma reparação em simultâneo. Com isto, começam os enganos. É muito fácil receber uma nota negativa, como veem.

É sempre uma tentação nossa tentar criar a melhor máquina possível, com orçamento ilimitado. Não o podemos fazer no modo carreira, pelo menos ao início, porque as máquinas são dos clientes e nem todos os componentes mais avançados estão disponíveis no início. Para isso, temos um modo de construção livre e, aí sim, vemos todo o potencial deste jogo, sem quaisquer restrições, excepto as óbvias compatibilidades das peças. Podemos construir autênticos colossos com um Core i9, com duas RTX 2080 Ti em SLI, 128 GB de RAM, tudo com overclock e refrigerado a água, enfim, um sonho quase incalculável. Como já disse, temos muitas peças licenciadas e com preços relativamente actuais. O que nos dará uma boa ideia do absurdo de preço. Depois, metam no 3D Mark e deslumbrem-se com o resultado… um dia, um dia…

Algo que pode não agradar a todos é a interacção propriamente dita. Construir um PC é uma actividade pouco deslumbrante, mas tem a sua “ciência” que cria muitos “viciados” do modding e da personalização. Infelizmente, aqui a montagem e desmontagem são algo simplificadas. Basicamente, instalamos ou removemos as peças de hardware numa sequência linear, recorrendo a um guia visual e com um simples pressionar do botão do rato. As que removemos vão para armazém e as que montamos são ligadas e aparafusadas também com um clique. Por vezes esta lógica é simples demais, sobretudo com os cabos, que surgem milagrosamente enrolados e passados no sítio certo. Quem já montou um PC, sabe que jamais foi uma coisa tão simples. Enfim, vida facilitada para os informáticos virtuais.

 

Outra coisa que também não agradará a muitos, é a linearidade das situações mais morosas. Os diagnósticos são demasiado simples, quanto a mim, não exigindo grande investigação, passando por trocar peças ou instalar um programa ou outro “até dar”. As avarias e os problemas são quase sempre baseados em trocas de peças, afinal. Adorava que um scan de vírus real demorasse os 20 segundos deste jogo. Ou, que a instalação de um sistema operativo fosse tão simples como colocar uma pen drive e aguardar um minuto. Obviamente que é tudo a bem de uma jogabilidade que convide vários tipos de usuários. Contudo, torna-o inevitavelmente repetitivo ao fim de umas horas.

A nível técnico, descansem. Não precisam montar uma máquina bestial como as que aparecem neste jogo. Trata-se de um título de grafismo simples, com requisitos francamente acessíveis para máquinas mais modestas. Nem sequer ocupa muito espaço em disco (cerca de 7GB). Nada na arte visual pretende ser hiper-realista, apenas modelar as peças correctamente e não dar nenhum compromisso visual. E cumpre isso mesmo, nada a assinalar no visual. Apenas tive de tirar a música genérica e irritante original mas, gostei da opção de podermos carregar a nossa própria biblioteca de música em jogo. Ah, nada como montar uma máquina infernal ao som de Heavy Metal!

Uma pequena nota interessante. Este jogo possui integração com sistemas de iluminação de periféricos que tenham interacção in-game, como o Razer Chroma Workshop. Ou seja, se tiverem periféricos com Razer Chroma, por exemplo, irão notar que diversos eventos em jogo criam padrões de cores diferentes. Andar pelo escritório, faz iluminar as teclas de função apenas (WASD, cursor, etc). Ligar um PC, acende todas as teclas e o rato na cor que decora o PC em questão. Não é algo que altere a interacção substancialmente, mas é uma integração simpática que me surpreendeu pela positiva.

Veredicto

Este é mais um daqueles jogos para um nicho muito específico de audiência, pelo que as avaliações dividem-se. É uma boa ferramenta para quem quer aprender a montar um PC, sim, mas serve mais os que já o fazem e têm um particular gosto numa das profissões mais aborrecidas de sempre. PC Building Simulator é uma oportunidade de viver a vida de um informático que paga contas ao fim do mês… com todo o “glamour” que esta afirmação traz consigo. Por vezes, simplifica demais e, noutras, complica. É, contudo, mais um daqueles jogos “zen” para se “ir jogando”. E pode muito bem ser a única oportunidade que terão e construir o vosso PC de sonho de orçamento ilimitado.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.