Mais infoProdutora: CriterionEditora: Electronic ArtsLançamento: 02/12/2022Plataformas: , , Género:

Nos últimos vinte anos, desde o lendário NFS: Underground, a série Need for Speed adoptou as corridas ilegais como fórmula. Need For Speed: Unbound adopta essa fórmula com muita convicção.

Ao longo do tempo tivemos variações interessantes deste tema na franquia, algumas bem sucedidas e outras nem por isso. Em 2019, por exemplo, NFS: Heat introduziu corridas diurnas e nocturnas: as primeiras legais, concebidas para recolher dinheiro e as segundas ilegais, úteis para aumentar reputação e, ao mesmo tempo, desbloquear novos eventos e upgrades para o nosso bólide. Isto, com o risco de ser perseguido pela polícia e, se capturado, perder todo o dinheiro angariado na noite.

Para o seu regresso à série, a Criterion considerou adequado recuperar este conceito peculiar mas também tentou revolucionar o aspecto visual do jogo graças a personagens animadas e efeitos em cel-shading, um grande número de opções de personalização e muitas referências à cultura “street”. Continuem a ler para saberem qual o resultado desta mistura.

Need for Speed tem basicamente contado a mesma história durante várias edições, com base numa ambição de um condutor, alguma traição pelo meio e um qualquer desejo de vingança do protagonista, sempre com as corridas como base. Neste caso, a história de Unbound não foge à regra.

A trama tem lugar em Lakeshore, uma cidade fictícia inspirada em Chicago, onde a personagem que vamos criar, homem ou mulher, trabalha em conjunto com Jasmine (Yaz) na oficina de Rydell. O herói tem a ambição de ganhar reputação nas corridas ilegais e ajudar Rydell com o seu negócio, depois deste ser quase como um pai. Yaz, parece sempre ter outros planos.

Um dia, ao ir buscar um novo veículo, assim que chegamos ao local de entrega, descobrimos que era apenas uma diversão para permitir que a garagem de Rydell fosse assaltada por um grupo de criminosos que roubam todos os carros. Como devem calcular, Yaz é a mentora do assalto e humilha o protagonista roubando o seu próprio carro.

Passados dois anos, quando a oficina luta por se manter relevante, o protagonista conhece Tess. Os seus planos são algo convergentes, já que também pretende investir nas corridas de rua e no negócio de Rydell. A sua ajuda financeira permite-nos voltar humildemente às corridas ilegais que, entretanto, descobrimos ser Yaz quem as organiza. Esta descoberta dá-nos mais uma razão para entrarmos nos planos de Tess e, não só vingarmos o que Yaz fez a Rydell, como também recuperar o nosso carro.

O enredo de NFS: Unbound retoma assim um caminho já amplamente percorrido pela série e fá-lo de uma forma aparentemente desprovida de ideias únicas ou inéditas. O que já sugere, logo nas primeiras horas, onde terminará no final da campanha. Sem grande coisa para descobrir, é um enredo cumprido, algo acessório mas é o que esperamos. Felizmente, os diálogos são escritos de forma credível e mantêm a experiência a fluir, ajudando a caracterizar a nossa personagem. Se os estereótipos estão exagerados ou não, fica ao critério dos jogadores, claro.

Um mundo aberto à exploração é agora quase garantido nesta série. Unbound não é excepção, mesmo que essa fórmula já esteja um pouco gasta. O mapa de Lakeshore City, como os anteriores, é bastante grande, cheio de estradas, ruas, túneis, pontes e outros caminhos, mas também pode oferecer panoramas sugestivos. Como sempre, a realidade é que passamos quase todo o tempo a deslocar-nos de A para B para participar numa corrida ou regressar a um dos abrigos disponíveis, sem que estas “vistas” sejam realmente apreciadas. Talvez por isso, a produção tenha decidido não recorrer a viagens rápidas (fast travel).

Por falar em abrigos, ao ajudar as pessoas certas serão desbloqueados ao longo da campanha. Agem como “pontos seguros” para esconder da polícia, mas não só. Também podemos aqui personalizar a personagem, desde o penteado, as poses e até a roupa, que usa marcas reais. Para além da personagem, podem também comprar e modificar os vossos veículos, tanto ponto de vista estético como também de desempenho. Possuir vários carros será útil para participar em eventos limitados a categorias e a corridas com características específicas.

Considerando a tradição da série, seremos capazes de revolucionar o design dos nossos carros, adicionar luzes néon e sons estridentes, alterar os efeitos especiais exibidos quando nos desviamos e saltamos e também substituir vários componentes mecânicos para actualizar o veículo e torná-lo mais competitivo. O acesso às actualizações mais avançadas, contudo, estará ligado aos upgrades da oficina e será necessário muito dinheiro para chegar ao bólide de sonho, demolidor da competição.

Ao abandonar um abrigo é possível escolher se queremos sair de dia ou de noite. Tal como em NFS: Heat, os dois momentos diferentes implicam a possibilidade de participar em desafios diferentes. No caso das tarefas e provas diurnas o risco é menor e também as recompensas são menos elevadas. Quanto às provas nocturnas, podemos ganhar muito mais dinheiro, claro. A contrapartida é que arriscamos perder tudo o que ganharmos, já que a polícia está mais presente, pronta a perseguir-nos.

E há mais risco envolvido. Em várias ocasiões, para participar nos eventos será necessário pagar uma inscrição e não teremos o retorno desse investimento se não ganharmos a prova. Também podemos apostar em que lugar terminamos, basicamente apostando contra outros pilotos. Obviamente, se acabarem acima de nós na classificação, ganham o nosso dinheiro e também não teremos a sua devolução.

Notem que isto pode acontecer frequentemente, especialmente no nível de dificuldade intermédio. Achei que a jogabilidade pode ser algo desafiante, especialmente dados os obstáculso no traçado, alguns criando perdas de performance acentuadas, já para não falar num comportamento algo errático na condução, com um “efeito elástico” na física dos carros, bastante acentuado e frustrante. Os erros são muito penalizadores e podem fazer-nos perder a corrida na última curva devido a um único e infeliz deslize.

A ideia será criar um desafio acentuado para incentivar a melhorar o carro e, claro, a nossa prestação. De facto, consoante vamos evoluindo o carro, os erros serão menores ou menos penalizadores. Este factor de risco é interessante, sem dúvida. Mas, a IA do jogo não parece ser afectada da mesma forma quando erra. E já mencionei que evoluir tudo para continuar competitivo é francamente moroso. Um bom exemplo de como o jogo não facilita neste aspecto, é a prova maior em jogo, o “Grand”.

Neste lendário torneio organizado pela nossa “velha amiga” Jasmine, a estrutura de Unbound muda de eventos aleatórios para qualificações semanais com objectivos muito específicos e de diferentes estipulações. Há uma certa obrigação de recolher uma quantia de dinheiro para poder pagar a inscrição para o confronto final, que tem lugar no contexto de várias corridas de eliminação. O que nos obriga a poupar capital que seria para investir no carro. Mas, se o carro não for melhorado, pode nem ser admitido ou então ficar aquém para se qualificar. Uma “pescadinha de rabo na boca”.

Ao fim de umas horas, esta lógica cria um claro problema de conceito na experiência. Ao contrário de NFS: Heat, parece-me que a alternância entre dia e noite foi aqui implementada de forma vaga, as perseguições policiais são triviais e inconsistentes e os tipos de eventos disponíveis, embora variados, não entusiasmam. Não há uma razão concreta para realmente explorar a diferença entre provas diurnas ou nocturnas. Torna-se quase instintivo escolhermos somente as provas que garantem o maior lucro para evoluir mais rapidamente. Quase nos obriga a ignorar uma boa parte de provas “menores”. Por causa disto, a sua oferta real fica reduzida.

Em termos de jogabilidade, Need for Speed Unbound propõe claramente a abordagem arcade que sempre prevaleceu nos jogos mais recentes da série da EA. Contudo, há algumas diferenças em relação ao título anterior. De facto, o drift ainda é essencial para se poder atravessar as curvas em velocidade mas parece menos “sintético, deixando a traseira do carro mais “solta”, notando-se mais falta de tracção, algo que exige upgrades e também alguma perícia para dominar. Nesse momento, entram em jogo os tais obstáculos “antipáticos” que roubam velocidade, algo que no título desenvolvido pela Ghost Games não acontecia tão frequentemente.

A destrutibilidade ambiental ainda é muito elevada e o motor gráfico Frostbite consegue dar-nos momentos fantásticos, com desintegração de postes, vedações, árvores, etc. Contudo, parece que a produção exagerou um pouco com tráfego e com algumas paredes que aparecem no nosso caminho, provocando impactos que nos podem relegar ao último lugar. Isto é ainda mais complicado de gerir por causa da já mencionada física “dançarina” dos veículos. É muito frustrante fazer uma prova “perfeita” e chocar com um andaime que nos imobiliza por completo na última perna da corrida. Para “ajudar”, os “restarts” são limitados pelo nível de dificuldade.

De volta aos drifts, juntamente com os saltos e outros malabarismos, estão entre as manobras acrobáticas do jogo. Podem contar com efeitos especiais que se referem à estética do graffiti e que embelezam o nosso carro, desenhando asas e círculos à sua volta, ou produzindo fumo colorido. Todos estes aspectos podem ser modificados a nosso gosto, com uma panóplia de efeitos. Estas manobras, claro, também enchem a nossa botija de nitro para nos dar aquele boost instantâneo ou contínuo, útil quando o bólide ainda não está no seu pico de performance.

Abrindo o capot para falar do sector técnico do jogo, temos aqui um jogo peculiar. Já foi mencionado o seu estilo original e inesperado, com as personagens animadas tipo banda-desenhada, assim como alguns efeitos visuais “desenhados”. Contudo, os carros e cenários têm um efeito foto-realista, com muitos pormenores de arregalar o olho. Sendo um jogo Arcade, não esperem interiores dos carros, mas o exterior é bastante apurado e cheio de detalhes.

Pessoalmente, achei que a mistura é algo bizarra. Obviamente, gostos não se discutem. Mas, para mim, nem sempre funcionou. Os modelos de veículos têm um excelente nível de detalhe, com efeitos convincentes no que diz respeito às gotas de água na carroçaria, reflexos e até mesmo com os danos (puramente visuais). Os cenários são fantásticos, com iluminação e reflexos credíveis, tanto de dia como de noite. Mas, especialmente nas cenas intermédias, a mistura de cartoon com realismo mostrou-se algo estranha. Não sei se seria possível um NFS completamente em cel-shading, talvez não. Mas, se calhar, esta decisão também não é consensual.
Felizmente, a performance do jogo corresponde, com tudo a fluir com uns impressionantes 60 fps e 4K na PS5 (versão analisada na PlayStation 5). No entanto, notei alguns elementos a fazer popup à distância, o que nos faz compreender porque é que este título não chegou também às consolas da geração anterior. Também pudemos na redacção testar a versão PC do jogo e também lá temos qualidade na performance, obviamente ainda mais apurada graças ao hardware mais capaz.

No que toca ao áudio, as coisas funcionam… Mais ou menos. Tudo depende, mais uma vez, dos vossos gostos. A banda sonora, como em todos os jogos do género, é bastante moderna, entre hip-hop e música de dança. Contudo, não temos a possibilidade de mudar de música, o que pode levar alguns a simplesmente desligá-la. Alie-se a isso o tom “street” dos diálogos, repletos de expressões (por vezes cringe) que julgo não servirem para um retrato particularmente realista dos “street racers” actuais, apenas servirão para apelar ao público mais jovem. Uma vez mais… gostos…

Veredicto

Herdando tanto do seu antecessor, Need for Speed ​Unbound mostra-se algo vago em termos de conceito. Na jogabilidade, retoma a fórmula de NFS: Heat mas sem o mesmo impacto. O modelo de condução não é muito convincente, parecendo mais focado em impressionar que propriamente a dar uma experiência recompensadora. E este seu mundo aberto é, sem dúvida, bonito de se ver, mas não fornece nenhuma razão concreta para ser explorado em profundidade. No final, parece que o foco foi no seu design mas nem aí conseguirá verdadeiramente destacar-se.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.