Mais infoProdutora: Hangar 13Editora: 2K GamesLançamento: 25/09/2020Plataformas: , , Género: ,

Pode dizer-se que a compilação Mafia Trilogy não foi uma boa aposta da 2K Games. Não pelos seus jogos, mas pela estratégia. Mafia II: Definitive Edition foi um desapontamento total, numa remasterização que não correu bem. Mafia III: Definitive Edition nem teve direito a uma revisão, tratando-se de uma mera reedição de um jogo recente. Resta-nos Mafia: Definitive Edition para “salvar a casa”.

Reedição, remasterização e remake. É esta a fórmula encontrada pela produção para trazer os três jogos para o mesmo nível de qualidade. E, sim, a Hangar 13 conseguir elevar a qualidade deste jogo, diria ao nível de Mafia III, pelo menos em termos visuais. Mas, o segundo título não teve direito a um tratamento tão refinado. O que deixou os fãs desta franquia algo apreensivos com o que a produção estaria a preparar para o primeiro título. Felizmente, muita campanha promocional e uns adiamentos pelo meio, este Mafia: DE cedo se mostrou mais refinado. Na verdade, não é apenas um remake simples, é também um trabalho cuidado de recuperação de um clássico.

Em 1930 o mundo era bastante diferente. Ao conduzir num bonito “calhambeque” pelas ruas movimentadas de Lost Heaven, em plena Lei Seca, apercebemo-me de como estamos tão longe no tempo. Tommy Angelo podia ser qualquer um de nós, apanhado nas teias do crime organizado por mero acaso. Como taxista, vive a vida como pode, até que numa noite se cruza com dois mafiosos e lhes salva a vida. Em troca pelo favor, entra nas boas graças dos criminosos. Nestes anos 30, porém, o crime organizado era “honroso” e os mafiosos defendiam a comunidade. A extorsão era entendida como protecção e… nada de drogas.

Mas, algo aconteceu no percurso de Tommy como gangster mafioso ao serviço de Don Salieri. E as autoridades estão muito interessadas em saber o que aconteceu. A história do jogo é narrada pelo protagonista a confessar o seu percurso em detalhe e, bom, não vou revelar o que aconteceu. Mas, já devem imaginar que o tal crime “honroso” lentamente perde o seu brilho. Não é por mero acaso que máfia americana ganhou uma conotação tão negativa ao fim de uns anos de hegemonia. Culpem Mario Puzo e a sua série “O Padrinho”, claro. A história original de 2002 emana muitos dos clichés e… sotaques dessa série literária.

Diria que não são apenas os anos 30 e o seu retrato fiel que se tornam longínquos neste título. Nos 18 anos desde que foi lançado, muito mudou no mundo dos videojogos, inclusive nas histórias contadas. Já não se fala também de valores como a honra ou a lealdade da mesma forma. E é por isso que, tal como o original, continuo a achar que a história do primeiro Mafia é um clássico obrigatório. O que mudou mesmo foi a componente técnica. E não falo apenas do visual que irão constatar ter merecido a melhor das atenções da produção. Falo também das mecânicas de jogo e das lógicas de interação.

Não se enganem com este pretenso mundo aberto que se abre à vossa frente. Na verdade, embora possam circular pela vastíssima cidade de Lost Heaven, este não é bem um jogo de mundo aberto. Do princípio ao fim da trama, é perfeitamente linear e obriga-nos a seguir uma linha narrativa rígida. As missões são de um só orientação, desenhadas para se passarem em locais específicos e compartimentados. Não é bem aquela acção “sandbox” que temos noutros jogos do género (sendo óbvia a comparação com Grand Theft Auto). Não, na verdade esconde-se atrás desta fachada “open world“, um “shooter” com elementos de condução e muitas cenas intermédias a apostar na narrativa.

O forte destes jogos sempre foi a sua atmosfera, algo que não sinto ter sido tão bem tralhado em Mafia III, curiosamente. Mas, aqui, a fórmula resulta muito bem. A passada é lenta, levando-nos aos tiroteios de forma quase relutante. Vamos ali almoçar, mas os rivais do outro gang têm outras ideias e incendeiam o restaurante connosco lá dentro. Temos de sair a disparar, claro. Mas, tudo começou com uma conversa agradável, numa viagem de automóvel e uma curta lição em gastronomia italiana. Eventualmente, como percebem, os tiros vão aparecer. O intuito não é dar-nos mais um jogo de acção desmiolada.

Em 18 anos, os shooters com cobertura já evoluíram, expandiram e até misturaram-se com outros géneros. Pelo que a acção neste remake, tão fiel ao original, acaba por ser algo datada por vezes. Não entendam mal estas palavras, os tiroteios são recompensadores, com armas competentes e inimigos implacáveis. Só que a cobertura em si não funciona muito bem, colocando-nos em situações delicadas, quando nos “cola” ao obstáculo ou quando descolamo-nos dele e ficamos expostos ao tiro avulso. A regeneração de energia é inexistente e os medikits e caixas de munição são de uso único. Felizmente, os checkpoints são bem mais amigáveis do que me lembro do original de 2002.

Onde o jogo brilha, felizmente, é na condução. Os veículos possuem características únicas entre os mais clássicos e os mais musculados. Não são particularmente realistas em aspecto, tentando fugir a marcas e modelos reais, mas poderiam muito bem ser réplicas de modelos de automóveis e motas do passado. A condução é relativamente apurada, com físicas competentes. Só tenho pena que tenhamos câmaras apenas no exterior e uma por cima do capot, gostava de algo no habitáculo a bem da imersão que todo o jogo pretende oferecer. Adorei todas as missões que envolveram conduzir de A para B a ouvir o rádio ou em diálogo. E a alta velocidade as coisas ainda são mais divertidas.

Há secções de fuga à polícia ou de meliantes de outra família mafiosa que contam com alguns atalhos para os atrapalhar ou barreiras para abalroar. Agora, adicionem uns quantos tiroteios a alta velocidade e a fórmula para a diversão está garantida. Também tenho de realçar uma missão de corrida em autódromo que demonstra bem o foco na condução deste jogo. Tenho apenas umas poucas reservas na linearidade da condução dos adversários, sobretudo da polícia que é bastante previsível. De um modo geral, porém, é puro entretenimento e os carros têm óptimo aspecto. Que mais podem pedir?

E essa é mesmo a essência desta série: a pura diversão em formato de história séria. Para os que procuram desafios extra, há vários níveis de dificuldade, inclusive um modo “clássico” para dificultar ainda mais nos tiroteios e perseguições. Há imensos coleccionáveis para descobrir também, alguns posicionados de forma mais ou menos escondida. Se quiserem, ainda podem explorar a cidade à vontade no modo “free roam”, sem missões à mistura. E não nos podemos esquecer da curiosa enciclopédia sobre os automóveis em jogo, podendo até agir como “garagem” de carros coleccionados.

Para completar esta fórmula, a Hangar 13 tratou de nos dar a devida dose de modernização também no visual. Irão notar diversos pormenores de qualidade, especialmente abismais se jogaram o clássico. Preparem-se para alguns pormenores de qualidade visual a roçar o real. O design das ruas é bem mais amplo e preenchido com pessoas, objectos e animações. Qualquer missão à noite e com chuva ganha uma atmosfera fantástica. Os modelos visuais, sobretudo dos automóveis são soberbos. Os espaços onde se passam as cenas mais importantes possuem um design de época recriado com muito pormenor.

Também o áudio foi criado com muita atenção ao detalhe. A banda-sonora, embora por vezes esteja um pouco alta demais, funciona bem para dar o ritmo da trama. As rádios a bordo dos automóveis são também recriações históricas bem conseguidas. Também os diálogos das personagens assentam em boas prestações dos actores, embora ache alguns sotaques forçados demais em algumas cenas. O que mais gostei nas personagens é a sua “naturalidade”, conseguindo transmitir relativamente bem a emoção de algumas cenas apenas com gestos ou expressões.

Veredicto

Caso tenham jogado o original em 2002, este será quase um jogo irreconhecível, pelo menos no plano técnico. A Hangar 13 (re)criou um jogo quase de raiz para nos oferecer um clássico rejuvenescido para os tempos modernos. Tudo bem, os tiroteios não funcionam tão bem, há se calhar uma passada algo lenta demais para um jogo de acção. Mas, a diversão está lá, especialmente a conduzir. O foco é mais numa narrativa bem escrita, aliada a um design muito bem conseguido e uma atmosfera irrepreensível. Mafia: Definitive Edition é um bom exemplo de como um remake deve ser feito.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.