Mais infoProdutora: Square EnixEditora: Square EnixLançamento: 05/03/2019Plataformas: , Género:

Muito embora a série Metal Gear Solid não tenha só tido boas ideias, reuniu uma horda de fãs inflexíveis. E, estou certo, muitos deles vibraram com o aspecto que Left Alive tomou nos meses que antecederam o seu lançamento. Esse hype, sem dúvida, jogou contra si.

Não era para menos. Left Alive mostrava-se como um título promissor, inserido no universo da série de jogos Front Mission, também da Square Enix. Depois da série passar por muitos géneros, este título parecia francamente promissor, dando-nos um shooter de sobrevivência com foco na acção furtiva. Juntou as mentes brilhantes de Yoji Shinkawa, o mesmo designer de personagens da lendária série de Hideo Kojima, com Toshifumi Nabeshima, mentor da série Armored Core e Takayuki Yanase, designer dos mechs da série Ghost in the Shell e Xenoblade Chronicles X. A fórmula parecia evidentemente brilhante, com as primeiras imagens e vídeos a dar-nos um vislumbre de algo muito interessante. Só que, de vez em quando, “os astros não se alinham” como deve ser e algo, ou melhor, muita coisa corre mal.

Por onde começar… Pelo menos negativo, talvez. A sua história tem vindo a ser contada (de uma forma ou de outra) deste o primeiro título de Front Mission datado de 1995. Neste universo, uma guerra destruidora coloca de um lado uma nação inspirada na Alemanha (os maus) e no outro uma outra nação inspirada na Rússia (os bons). A sua luta é travada com tecnologia de ponta, com o topo da engenharia representado pelos gigantes mechs “Wanzers”. A luta, leva-nos para Novo Slava no ano 2127, contando-nos uma história de sobrevivência da opressão e de heroísmo perante adversidade.

Neste jogo vamos acompanhar as desventuras de três personagens no meio deste conflito:Mikhail, um piloto de Wanzer do exército de Ruthenia, Olga, uma agente da polícia de Novo Slava e Leonid, um rebelde de um movimento de libertação desta cidade. Os três mostram três perspectivas do que é ser sido deixado ao seu próprio cuidado no campo de batalha. Se mais nada falhasse neste jogo, a sua história consegue tornar-se tão densa, que é até interessante. Conseguia ver aqui um guião formar-se, numa história com potencial… não fosse tudo o resto estragar esses planos logo no arranque.

Notem que disse acima “menos negativo”. Não esperem desta história grandes momentos narrativos ou incrivelmente intrincados. Temos diversas tarefas e missões que visam lutar de forma indirecta contra o inimigo, passando por investigar segredos militares, assaltar bases, salvar cativos e outras missões mais ou menos elaboradas. Mas, nada surpreende, mesmo quando o jogo nos tenta dar uma ou outra reviravolta na história. Em cerca de 10 horas, não terão nenhum evento memorável ou grande manobra de alguma personagem para vos cativar. O esforço, está lá todo. De facto, aquele “tom” Metal Gear vai “gritar bem alto” em inúmeras cenas intermédias. Mas, rapidamente lhe “tapam a boca” e seguem em frente.

De facto, estou a tentar não ser demasiado duro com o jogo. Mas, é inevitável. O que se segue é praticamente uma lista de tudo o que está mal num jogo moderno. Algo que os jogadores (e consumidores) dificilmente aceitam nos dias que correm. Confesso que não me motivou muito a terminá-lo, algo que não acontece muitas vezes. Regra geral, nunca deixo uma experiência a meio mas esta esteve quase para se juntar a um lote muito reservado de jogos que simplesmente desisti de jogar. Ainda assim, não basta dizer mal só “porque sim”, é preciso mesmo explicar porque motivo este jogo, quanto a mim, falhou a marca.

A jogabilidade, à falta de melhor definição, é francamente banal. Não é, quanto a mim, tão má como se escreveu por aí, mas também não é tão competente como desejamos num jogo destes, não tendo mesmo nada de memorável para assinalar. Podia haver uma forte aposta no combate furtivo, ou no combate com os mechs gigantes, dando-nos uma excelente jogabilidade neste nível. Mas, nada disso aconteceu.

No caso do combate furtivo a pé, vemos logo que o jogo precisava de mais trabalho. Até porque os inimigos têm das piores inteligências artificiais que já vi em títulos deste género. São inconsistentes, entre o super-preciso e o completo absorto. Depois, temos o problema dos mapas. É-nos dado a entender que temos mapas de mundo aberto à exploração, mas é um logro. A progressão nas zonas é totalmente linear e sem grande incentivo a deambular.

Já os combates com mechs, até conseguem dar-nos alguma diversão. Mas, longe estão os jogos onde a equipa de criativos participou e tirou inspiração. Acaba por ser tudo francamente repetitivo e sem alma. Ou seja, toda a expectativa cai por terra, neste que podia ser o seu auge de jogabilidade, tornando-se superficial e sem nenhum elemento digno de destaque. Penso que as questões técnicas não ajudam nesta sensação de banalidade.

Para começar, as lógicas de jogo. Tudo bem, é um jogo de acção com elementos de sobrevivência, mas é ridícula a quantidade minúscula de munição que temos e quão ineficazes são as armas no geral. E o jogo persiste em punir-nos por apostar nos tiroteios. É como se a produção achasse que não queremos disparar, mas agir como um Sam Fisher ou Solid Snake. É verdade que queremos, mas isto não é um Splinter Cell ou Metal Gear, por mais que o tente. Alie-se isso à tal fraca inteligência artificial e temos uma receita para o fracasso. Quando somos descobertos, mais vale morrer e recomeçar de um checkpoint. É que nem vale a pena tentar retorquir fogo.

Depois temos imensos erros estranhos de linha de fogo, distâncias de tiro e uma cobertura falível. Por vezes, achamos que estamos a disparar certeiro, mas estamos a atingir a parede à frente, com um feedback quase inexistente. Também parecem haver distâncias máximas de tiro, havendo secções em que as balas nada fazem à distância. E o sistema de cobertura chega a ser tipo “cola”, algo que não vemos há anos nos títulos deste género. Nos mechs, lamento mesmo a falta de eficácia das armas e os movimentos à velocidade “estonteante” de um caracol. Como disse acima, “sem alma”.

Depois, temos de falar das questões técnicas. As animações contidas neste jogo são realmente magníficas… num jogo dos anos 90. Não acredito que alguma forma de captura de movimentos fosse usada, uma vez que tudo parece mecânico e, por vezes, as animações chegam mesmo a incomodar o ritmo de jogo. Um bom exemplo é ao receber um tiro, a animação que dramatiza o herói a tomar um chumbo em alguma parte vital, não nos deixa mexer e continuará enquanto levarmos tiros. Estão a ver porque digo lá em cima que mais vale repetir o checkpoint se forem descobertos?

Claro que a questão técnica que saltará mais à vista é o visual. Graficamente, diria que Left Alive é uma mistura de boas ideias e conceitos, criados com muito cuidado, misturados com muita pressa e falta de atenção aos pormenores. Os cenários, os modelos, as texturas, os efeitos visuais, são tão inconsistentes, que parece estarmos perante uma remasterização feita à pressa, de algum jogo da PS3 nesta geração de consolas. Pior que todo o visual pouco polido, é o áudio geral do jogo. Não me lembro do som de balas e explosivos serem tão pouco presentes em algum outro jogo… de acção. Incompreensível, mesmo.

Talvez o grande problema de Left Alive não seja bem esta sua falta de qualidade geral. Existem, de facto, muitos outros jogos de inferior qualidade, se calhar com orçamentos semelhantes. Aqui, para mim, a grande questão foi a enorme expectativa que se colocou neste jogo. Muitos esperavam um “Metal Gear renascido”, talvez contagiados pela aparência geral do jogo. Aparência essa que, de facto, é evidente mesmo quando iniciamos o jogo e vemos os menus e ouvimos os sons. Só que essa série emblemática de Kojima não podia ser mais diferente de Left Alive. Por mais que a equipa criativa (e brilhante) quisesse e tivesse aptidão para criar um jogo tão bom ou melhor, infelizmente faltou-lhe poder de execução.

Confesso que não vi “esta bomba cair”. Nada fazia prever o que aconteceu, realmente. A própria Square Enix tem imensa experiência em jogos de qualidade, tendo mesmo estúdios especializados em jogos de acção. Teve, com certeza, capacidade técnica para reconhecer as falhas e elementos menos positivos deste jogo a tempo do lançamento. O que aconteceu para deixarem passar este jogo às vendas? Não sabemos. Sabemos isso sim, que não passou por uma Alpha ou Beta com os jogadores (pelo menos que saibamos), algo que poderia salvar este título dos seus inúmeros problemas. No final, a Square acabou por limitar streams a quem o criticou. Agora sabemos porque o fez…

Veredicto

Sem rodeios, digo que Left Alive é uma enorme falha de objectivos. Há jogos que erram num ponto ou outro, mas acabam por agradar na mesma. Ou a narrativa fica aquém ou a jogabilidade podia ser melhor. Este título, porém, a produção falhou em todos os pontos possíveis, desde a jogabilidade, até à história, passando pelo visual. Aqui estava uma enorme oportunidade da Square Enix nos dar uma espécie de Metal Gear Solid ou Splinter Cell com o seu cunho, alternando com uma acção com mechs, que também há muito não temos… Mas, a única coisa que fez, foi desiludir-nos.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.