Mais infoProdutora: CodemastersEditora: CodemastersLançamento: 11/10/2019Plataformas: , , Género: ,

Em tempos idos, a Codemasters não se dedicava apenas aos Ralis ou à Fórmula 1. A sua passagem pelas corridas de pista trouxe-nos um dos maiores marcos dos jogos de condução. Chamava-se GRID e este é o seu muito esperado reboot.

Os amantes dos simuladores de condução, podem já arrumar as luvas Mechanix e descalçar as botas Sparco. GRID nunca tentou ser um simulador propriamente dito. O que é, aliás, um interessante contraste com o rigor técnico das demais séries desta produtora britânica. Ainda assim, este também não pode ser considerado um mero “joguito de carros”. Ao longo das suas edições, GRID mostrou-se um compromisso claro entre as corridas de arcadas e a dureza das provas mais sérias. É um herdeiro quase directo da mítica série TOCA Race Driver, mas não de forma tão séria. O que pode, de facto, ser um problema para este reboot, numa era em que o realismo das físicas e da condução é quase obrigatório para cada jogo de condução que se preze (e queira evitar a crítica).

É óbvio que haverão sempre jogadores menos exigentes no que toca a acelerar virtualmente. Séries actuais como Forza Horizon, por exemplo, são prova disso, mesmo que se afirmem tão “realistas” em determinados pontos. Estou a falar do factor diversão, algo que parece estar cada vez mais em falta neste género de jogos. Ainda me recordo de jogos como Ridge Racer, Need For Speed, Test Drive, Burnout: Paradise e… sim, GRID. Todos estes foram jogos que me ocuparam tanto tempo e onde não me preocupava tanto com o realismo ou com as mecânicas apuradas. O que contava era a perícia ao volante e a recompensa de uma ultrapassagem in extremis ou um ápice de curva dominado.

Mas, há um limite claro do que se pode pedir de GRID. Este é um jogo francamente tolerante a erros, os veículos são todos “dominados” e é muito fácil recuperar de lugares mais modestos na grelha de partida. É mesmo esse o ADN do jogo, não há volta a dar. Sim, é possível remover uma boa parte das ajudas à condução, algumas ligadas por defeito. E, sim, chegamos a ter algum desafio contra uma IA mais apurada e adaptiva. Mas, é só isso que terão, mais dificuldade e menos tolerância. O realismo das físicas, o aprimorar da mecânica do carro, as aerodinâmicas e outros elementos são todos passados para segundo plano.

Isto não significa que não seja um bom jogo, notem. Ao longo das 91 provas em jogo, divididas por seis categorias, cada uma com classes de veículos e desafios próprios, há muito para fazer. Não me lembro de achar a sua oferta enfadonha, pelo contrário. GRID, como sempre, aposta em nos empolgar pelo desafio de ganhar mais uma prova e chegar à grande competição em jogo, as World Series.

Por outro lado, não há aqui um sentimento de real progressão, porque tudo parece encadeado numa sequência previsível e numa espécie de modo de carreira linear. Não sei como a Codemasters poderia criar um esquema de progressão baseado em mérito, por exemplo, se depois a condução é tão facilitada. Ainda assim, achei que progredi sem grandes dificuldades pelas provas todas que passei, ganhando inequivocamente quase todas.

Este facilitismo é bastante claro também no seu esquema tão linear de progressão. A cada novo nível ou corrida ganha, ganhamos pinturas para os carros. Também temos diversos desafios para cumprir num quadro que se refresca constantemente e que também dá recompensas cosméticas. E é só. Não há uma verdadeira recompensa material (peças de performance, por exemplo) por ganhar numa classe ou por afinidade com uma marca ou tipo de corrida. Enfim.

Gostei bastante de ver alguns pormenores clássicos desta série regressarem. Um deles é a gestão do colega de equipa, que age como um companheiro de prova e a quem podemos dar comandos para nos ajudar na corrida. Imaginem que estão a ser pressionados pelos adversários, podemos pedir ao companheiro para agir como “tampão” e proteger-nos na frente. É importante contratarmos companheiros mais habilidosos e que consigam dar-nos vantagem em pista. Honestamente, tirando alguns momentos de defesa, como o que descrevi acima, para pouco mais serve esta funcionalidade. Mas, é uma boa dinâmica e que nos dá um aliado em pista.

Noutros regressos, lembram-se daquela funcionalidade que alguns jogos modernos possuem de “rebobinar” o tempo e permitir repetir secções das corridas? Não diria que foi a série GRID que inventou esta mecânica, mas foi sem dúvida a que a aperfeiçoou. Na altura, recordo-me que o jogo original recebeu um misto de clamor pela funcionalidade “Flashback” que permitia momentos fantásticos, mas também de crítica pelo claro facilitismo que cria, soando quase a batota ao poder viajar no tempo. Quanto a mim, encaixa-se perfeitamente no espírito do jogo. E até tem uma certa componente de aprendizagem para os menos experientes.

E outra característica que se recordarão de GRID era o seu fantástico sistema de danos. No rigor, o seu verdadeiro âmbito é cosmético, mas a Codemasters não desperdiçou recursos para nos dar um modelo de danos novamente impressionante. Isto também cria momentos verdadeiramente espectaculares (se bem que mórbidos, eu sei) de acidentes brutais, com peças projectadas para todo o lado. O que, aliando ao sistema de “flashback” em podemos pausar tudo no meio do caos, cria momentos incríveis de encher o olho. OK, isto não acrescenta muito à condução, pelo contrário no caso dos danos resultantes na mecânica do carro, mas é um espectáculo visual, sem dúvida.

No que toca a verdadeiras novidades, a Codemasters tem vindo a destacar o novo sistema de Inteligência Artificial dos adversários. Em GRID, segundo a produção, há centenas de diferentes personalidades para a IA, tornando-se mais brandos ou mais agressivos provocados pela nossa própria condução. E o jogo faz questão de explorar esta funcionalidade ainda mais, através do sistema de Némesis. Não, não vão lutar contra orcs em pista (piada à Shadow of Mordor), mas terão mesmo um adversário a chatear-vos se baterem de forma deliberada ou contínua contra eles. Há óbvias falhas, por exemplo em embates acidentais, mas é uma lógica desafiante, sobretudo quando batemos em vários adversários e passamos a ter um punhado de Némesis em pista.

Onde o jogo desaponta, na verdade é na sua oferta de conteúdo. Não acho que os 66 veículos sejam insuficientes. Sim, temos por aí jogos que contam com várias centenas de carros na garagem, mas eu pergunto-me sempre quantos destes um jogador médio realmente conduz. Ainda assim, ao fim de umas horas, as 13 localizações, entre circuitos e provas citadinas, tornam-se algo repetitivas, mesmo com tantas variantes na disposição de pistas. Podemos sempre variar entre fases do dia ou meteorologia, mas estas opções nem são dinâmicas sequer. Ao fim de umas horas já vimos tudo o que há para ver. E é pena, porque, por essa altura, já estamos empolgados com a jogabilidade.

Resta-me falar no visual que, aliás, está bem à vista nas imagens que partilhamos. Tivemos oportunidade de testar este jogo no PC e, acreditem, o espectáculo visual está garantido. Não só temos imensos bólides, desde minis clássicos a monolugares de fórmula, passando pelos lendários Americanos musculados e os clássicos de GT, tudo devidamente licenciado. E este realismo visual também se verifica nos cenários criados para as pistas, com especial destaque para os circuitos citadinos. Passamos sempre a tão alta velocidade que nem vemos os pormenores. Mas, parem tudo com o “Flashback” e apreciem as vistas.

Veredicto

A Codemasters podia ficar-se apenas por uma reedição de GRID, o original, sem mexer em nada. Ao invés disso, tentou recriar o seu conceito, trazendo-nos um autêntico regresso ao passado com a renovação possível no hardware actual. Visualmente, traz-nos aquela qualidade que nos recordamos, devidamente modernizada. A jogabilidade está longe do que consideramos ser uma simulação, encaixando-se num segmento próprio, antes de se poder chamar de “jogo de arcadas”. O que não é de todo uma ofensa. É perfeito para quem quer um jogo de condução pela pura diversão e onde o que interessa é queimar borracha, com o némesis no retrovisor a pressionar. Apenas fica no ar a dúvida se este ainda é um título que os amantes do género queiram jogar.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.