Mais infoProdutora: Splash Damage/The CoalitionEditora: Microsoft Game StudiosLançamento: 28/04/2020Plataformas: Género:

Mudar paradigmas nunca é uma tarefa fácil, sobretudo quando uma franquia foi firmada num género tão peculiar. Gears Tactics é uma nova visão do lendário universo de Gears of War. E é óbvio que vinha dividir a opinião de muita gente, sobretudo dos fãs de longa data.

De um lado, teremos os veteranos desta mítica franquia da Epic Games, habilmente herdada pela The Coalition. A série Gears of War é um marco nos jogos de acção, trazendo das melhores ofertas de sempre no género dos Third Person Shooters. Muitos jogos tentaram, mas só mesmo Gears conseguiu juntar uma boa história, com excelentes mecânicas e ainda melhores efeitos visuais, isto numa Xbox 360 e mais tarde na Xbox One e no PC. Gears 5 é o mais recente título nesta longa franquia. Há quem diga que a sua essência se foi perdendo desde que Gears of War 4 foi lançado, também o momento em que The Coalition pegou no leme. Ainda assim, para estes veteranos, Gears of War tem de ser um shooter de acção na terceira pessoa, capitalizando nas mecânicas que o tornaram famoso. Até que surgiu Gears Tactics.

Para dizer a verdade, sempre achei que a acção compassada, com elementos bastante tácticos desta série, tinha potencial para um bom título de estratégia. Nunca esperei, porém que a Splash Damage e a The Coalition pudessem um dia criar um jogo de acção por turnos em perspectiva isométrica. E parece que a equipa também não soube muito bem como balancear esta nova jogabilidade. Se, por um lado, há aqui um imenso respeito pela série e pelo seu lore, há tentativas de se criar algo único. O que seria de louvar se o jogo se sustentasse por si só, sem ter Gears no título. Mas, todos sabemos que os títulos de acção por turnos raramente sobem tabelas. Culpem os muitos anos em que vários jogos nos obrigaram a esperar pela nossa vez para atacar.

Mas, vamos tentar não fazer comparações. Este não é bem um título na mesma série dos demais… embora use o mesmo lore… embora aposte no mesmo design e imagem… embora os eventos se passem em perfeita ligação com os do primeiro jogo… OK! Não podemos fugir ao facto que é um jogo “canónico” e perfeitamente inserido na história. E assim, não posso deixar de o comparar com os demais Gears. Mas, não o vou comparar literalmente, prefiro pensar nele como um “spin-off”. Vamos apenas ponderar no triângulo de qualidade que a Epic e a The Coalition desenharam para se traduzir no sucesso desta série. A saber: A história, as mecânicas de jogo e o grafismo exemplar. Logo à partida a fórmula está comprometida com as novas mecânicas “turn based” mas, acompanhem o meu raciocínio.

Doze anos antes dos eventos do primeiro Gears of War, a humanidade em Sera, um planeta semelhante à Terra, está a braços com uma terrível guerra contra as hordas dos Locust. Acompanhamos a luta de resistência do soldado COG, Gabe Diaz, o pai da futura heroína de Gears 5, Kait Diaz. Este soldado relutante, está mais interessado em fazer tarefas de bastidores mas, é inevitavelmente recrutado para uma missão ultra-secreta. E antes que se tente esquivar, a COG envia um elemento destacado para o “ajudar”, Sid Redburn e o seu respeitável bigode. A missão é simples, assassinar o líder dos Locust, o implacável general Ukkon, descrito como um “um monstro que cria monstros”. Simpático.

Numa primeira análise, parece que temos aqui uma boa história em perspectiva. As cenas intermédias iniciais deixam antever alguns desenlaces interessantes, uns mais previsíveis que outros. Contudo, embora o enredo seja relativamente sólido até ao final do jogo, confesso que não senti grande ligação ou empatia com as personagens. Gabe não é um Marcus Fenix, nem pouco mais ou menos. Nem sequer consegue ter o carisma da sua própria filha Kait. Talvez lhe faltem mais momentos icónicos na trama. Talvez precisasse de mais protagonismo em algumas cenas. Enfim, a primeira ponta do triângulo está lá mas não é tão marcante como no resto da série. É uma trama mediana, cumpridora na melhor das hipóteses. Falta-lhe aquele “toque” dos demais jogos.

Considerando que este projecto queria trazer algo novo à franquia, poderão dizer que talvez a produção também não quisesse estar tão agarrada à trama. Mas, Gears sempre foi tão cinematográfico e carregado pela história. Sim, a produção, de facto, menciona que esta é uma visão mais “fast paced” (com passada mais rápida). O que pode explicar porque é que  não se prende muito com diálogos extensos ou longas cenas intermédias. Ainda assim, eles estão lá e notou-se o esforço para não destoar do estilo que os fãs estão habituados. E vamos lá falar dessa passada mais rápida que tanto queriam implementar.

Este é outro vértice do triângulo, a acção. Sim, estamos num outro tipo de Gears, não há dúvida. Se gostam do género de acção por turnos, tornado famoso pela série XCOM, já sabem o que vos espera. E, sim, no seu auge de oferta, é realmente rápido e visceral, com quase todos os elementos de tiroteios e combate próximo de elevadíssima qualidade e bastante gore, tornados essenciais nesta série. Mas, noutros momentos, naqueles em que não nos manda Locusts para matar, é extremamente lento, sem profundidade e algo insípido. Já me estou a adiantar nesta análise e peço desculpa. Ante de mais, tenho de explicar porque motivo digo isto, obviamente.

Como seria de esperar, a câmara é agora colocada no alto e deixamos de ter controlo de uma só personagem para combate directo, agora temos uma equipa inteira. Até quatro unidades são controladas em simultâneo, movendo-las pelo mapa e combatendo a cada ocasião. Por cada movimento, disparo, recarregamento, uso de equipamento ou comando, a acção gasta pontos de acção no actual turno. Uma vez esgotados, é a vez do outro lado fazer o mesmo. Fazemos isto numa espécie de combate de atrito até não haver mais adversários. Então, avançamos para outro ponto do mapa onde temos uma cena intermédia, uma área de transição ou outra arena de combate. Rebobinar, repetir.

O combate, apesar de faseado, inspira-se bastante em Gears. Tirando alguns elementos únicos, como o facto dos inimigos estarem muitas vezes escondidos pelo chamado “fog of war”, típico neste género de jogo, ou de não dispararmos directamente (e de falhar tantos tiros), sentimos o poder da acção crua e agressiva de Gears. A diferença é que não podemos reagir de imediato, até que seja a nossa vez de atacar ou retorquir. Mas, lá estão a célebre moto-serra na espingarda, as granadas que esventram monstros ou os buracos no chão de onde saem Locust. Imaginem XCOM no seu melhor, insiram elevadas doses de gore, muitas explosões e imensos inimigos a invadir as arenas, tudo do ADN Gears, e já terão uma ideia do que aqui se passa.

Como elementos singulares (não propriamente inovadores, apenas adaptados aqui pela produção), estão os cones de visibilidade que nos permite perceber quanto do mapa podemos cobrir com fogo, que inclui uma habilidade que até permite responder com tiros automáticos, caso um inimigo passe à frente. Outro elemento interessante, são as execuções de inimigos caídos, algo que até pode restituir pontos de acção para toda a equipa. E outro elemento, bem ao jeito de Gears, é a forma como, por vezes, o ecrã fica inundado de inimigos para chacinar. Não é por mero acaso que se chamam de “Horda dos Locust”. E eles fazem questão de o demonstrar, especialmente lá mais para o fim do jogo.

Como em todos os jogos de estratégia, é preciso um bom trabalho de equipa de cada elemento em jogo. Existem cinco classes e quatro proficiências de combate para explorar e, o seu uso combinado, acaba por ditar o desfecho de cada encontro. Cada uma destas classes tem capacidades e armamento único e é possível fazer upgrade para as melhorar com a evolução da campanha. E as proficiências também possuem árvores de evolução para obter habilidades activas e passivas únicas. Ou seja, quanto mais jogamos, mais evoluímos o nosso esquadrão e melhor saberemos lidar com a Horda, com mais e melhores capacidades para mais e maiores inimigos.

Claro que nunca estamos lá tão perto da acção como nos tradicionais Gears. Claro que pouca coisa substitui pegar na espingarda Lancer e colocar-se atrás de um muro a desancar Locust. Claro que queríamos ser nós a ir lá cortar um Locust ao meio com a moto-serra. Contudo, esta jogabilidade é francamente divertida e inovadora. Por mais diferente que seja,  encaixa-se perfeitamente no universo Gears. Imaginem assistir a alguém a jogar um nível clássico de Gears of War. Esse alguém recebe comandos nossos, que executa sem recusa. Pode não ser tão “mãos na massa”, mas cumpre. Ou seja, pelo menos na jogabilidade, tão diferente que é, este outro vértice de qualidade está garantido.

Mas, depois, o jogo desacelera nos intervalos da acção. E isto nota-se logo nos primeiros instantes com as primeiras missões. Não quero dizer que seja completamente aborrecido passar pelas áreas de transição ou pelas cenas intermédias. Mas, falta aqui bastante miolo para preencher os momentos entre missão. Temos a oportunidade de evoluir personagens, personalizá-las e a equipá-las para a próxima escaramuça, tudo em menus. Notem que há muito para fazer nestes momentos, até porque vão ganhar imenso equipamento em missão, sobretudo a cumprir desafios, que é preciso passar em revista. Só que Gears of War é uma série de acção e não de consulta de listas.

E considerando que não há neste jogo modos multi-jogador (pelo menos por agora), só temos mesmo a campanha para desfrutar. O que nos leva a terminar toda a oferta em cerca de 20 horas de jogo, entre muita acção e muitas listas para consultar. Honestamente, uma vez terminada a campanha, não vi aqui grande incentivo para a voltar a jogar. Como já disse, a história não é particularmente entusiasmante no seu todo. Por mais que gostasse da acção, a sua cadência por turnos não é a mais entusiasmante para avançar na sua oferta, sem que uma certa dose de repetição se instale entretanto. E ainda falta outro pedaço do triângulo para falar, o seu aspecto.

Tecnicamente, nota-se que este título não dever ter recebido o mesmo orçamento de um Gears of War. Por isso, não esperem a mesma qualidade visual que viram nesses títulos. Analisando o jogo num bom PC, conseguindo colocar o preset de qualidade em Ultra, obtendo o que entendo ser o máximo que este jogo oferece. Embora haja imenso detalhes nos mapas e o jogo seja bastante polido, ainda assim, nada é verdadeiramente surpreendente neste nível. Talvez tenha sido influenciado a pensar assim por causa da maior distância da câmara, admito. Só que essa câmara está bem no meio da acção nas cenas intermédias. E aí notam-se modelos menos polidos, deficiências no sincronismo de lábios e uma qualidade geral “uns furos abaixo” do que estamos habituados.

Momentos antes de jogar este título, curiosamentem estive aos tiros em Gears 5 e a diferença visual foi notória, mesmo na Xbox One X. O motor gráfico é o mesmo, o Unreal Engine 4, mas a mestria da Splash Damage é que não é a mesma das demais produtoras. Curiosamente, a versão deste jogo para Xbox One, embora prevista, ainda não foi lançada. Mesmo sabendo que as versões PC serão sempre superiores, até estou curioso para ver o que a equipa consegue fazer na consola, esta bem mais limitada em hardware. Mas, com bastante trabalho de optimização e um esforço maior no polimento de algumas cenas, até podem vir a fazer a diferença. Espero bem que sim.

Veredicto

Em muitas ocasiões, quando estamos aos tiros e a desancar Locust em Gears Tactics, mesmo que a acção seja tão diferente, estamos mesmo no universo Gears of War, sobretudo naquelas celebres enormes arenas de conflito, com a Horda a enviar tudo o que tem. Contudo, noutras ocasiões não “soa” tão bem. Sobretudo no importante elemento que o enredo sempre representou nesta série, tendo aqui uma trama e personagens meramente cumpridoras. Mas, também a qualidade visual fica ligeiramente aquém, algo que foi sempre uma parte importante desta franquia. A história cumpre, assim como o visual, o que não abona muito para a excelente acção tão diferente que oferece.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.