Mais infoProdutora: SquareSoft / Dotemu / Access GamesEditora: Square EnixLançamento: 03/09/2019Plataformas: , , , Género: ,

Nesta era de reedições, é preciso muito cuidado com os termos usados para as descrever. Remakes, reboots, remasterizações… são todos termos algo banalizados e nem sempre correctos. E não podia ser mais apropriado falar nisso em Final Fantasy VIII Remastered.

Não, não se trata de um remake. A Square Enix parece reservar esse tipo de reedição para jogos bem mais populares. Para os demais, talvez porque estejam a necessitar de uma revitalização ou actualização na licença da franquia, há reedições planeadas. Final Fantasy VIII é a mais recente aposta, trazendo este clássico de 1999 para a actual geração. E o salto tecnológico não podia ser mais abismal, uma vez que este clássico foi lançado originalmente na velhinha PlayStation One. 20 anos depois, o que era necessário era dar uma nova chance para o jogo brilhar. Para isso, as produtoras Dotemu e Access Games só tinham de fazer um bom trabalho de curadores, recuperando o jogo na sua essência e melhorando-o para os padrões actuais. Uma tarefa delicada, em que muita coisa podia correr mal.

Antes de avançar, vamos falar um pouco do que é, realmente, uma remasterização. Antigamente, esse termo era quase só usado no mundo da música, em que temas anteriormente lançados em registos mais arcaicos, como antigos discos de vinil ou cassettes, eram reeditados com uma recuperação e “limpeza” do áudio original em formatos de alta-definição. Depois, vieram o cinema e a televisão pegar neste conceito, reeditando filmes e séries clássicas em formatos digitais com maior resolução de imagem (DVD e mais tarde BluRay). No fundo, uma remasterização ficou convencionada como um polimento no material original, dando-nos uma versão revista e melhorada do original.

Entretanto, também a indústria dos videojogos pegou nesta lógica e trouxe algo mais ao conceito. Nesta indústria, a definição de remasterização é mais vasta e, por vezes, até ambígua. Para algumas produtoras, basta aumentar a resolução do ecrã, talvez melhorando a definição e qualidade das texturas para equivaler à maior dimensão do ecrã. Também vemos muitas vezes os modelos tridimensionais serem revistos para obterem mais polígonos, os efeitos visuais merecerem uma actualização e o próprio áudio ser revisto e melhorado. Isto significa muito mais que uma “escovagem” genérica de poeira, é um trabalho de requalificação e, em muitos casos, de carinho.

Bom, não sei bem o que a Square Enix disse no briefing com a Dotemu e Access Games, mas algo falhou na ideia do que queriam que Final Fantasy VIII Remastered fosse. Já vimos muitos jogos serem simplesmente reeditados, sem quaisquer melhorias técnicas, apenas tornados compatíveis com a actual geração de hardware. Veja-se o caso da série clássica DOOM, recentemente reeditada tal qual a original, (praticamente) intacta. Às vezes basta só isso, uma revisita. Os fãs agradecem e temos um clássico de volta, ao qual não podemos pedir mais nada que uma recuperação de nostalgia. Só que a Square queria algo mais e é aí que reside o problema desta edição.

Quero só dizer que Final Fantasy VIII não merecia um tratamento descuidado. “Vítima” de um sucesso sem precedentes do seu antecessor Final Fantasy VII, apesar da boa recepção da crítica, é bem possível que poucos o tenham jogado ou dado o devido interesse. Não se tratava de um mau jogo, notem, havendo só algumas divisões na jogabilidade e objecções quanto à longevidade e persistência de algumas cenas intermédias. Simplesmente não era o famoso FF7 e a audiência soube deixar isso bem claro. Por esse motivo, esta geração podia muito bem ser o momento certo para o trazer de volta, dando-lhe o devido destaque e consideração. Infelizmente, essa oportunidade parece ter-se perdido.

Mas, estou a adiantar-me, falemos primeiro do que é o jogo em si.

Se não se recordam ou nunca jogaram Final Fantasy VIII (eu perdoo), este jogo conta a história de Squall Leonhart, um jovem solitário que deseja um dia tornar-se mercenário. E é nessa ambição que iniciamos a história, passando pela arena de treino chamada de Garden a aprender as artes de combate. Eventualmente, Squall acaba por cumprir o seu sonho, recebendo o primeiro contrato de trabalho mercenário para cumprir. Mas, logo nesse seu primeiro contrato, as coisas começam a complicar-se. O exército invasor da República da Galbadia ataca em força e, numa reviravolta inesperada, acaba por aliciar um dos companheiros mercenários de Squall… que acaba por trair o protagonista.

Eventualmente, os primeiros instantes desta aventura são tão ou mais empolgantes como o seu antecessor, dando bons momentos dramáticos. Acho mesmo que este argumento inicial está muito bem contado, deixando-me na altura boas perspectivas quanto ao resto da história. Infelizmente, sempre achei que, depois deste primeiro acto, o ritmo se perde completamente, acabando por ser uma história de romance e batalhas mentais de moral relativamente previsível. Arranca bem, mas perde-se com detalhes e desenvolvimentos menos brilhantes, resumidamente. E, em plano de fundo, há sempre uma crise tremenda que parece depender de um herói relutante, um cliché francamente recorrente nesta franquia.

A jogabilidade de Final Fantasy VIII também sofria deste desequilíbrio de qualidade. O formato é praticamente igual ao antecessor, com os três modos de jogo do costume (exploração de mapa do mundo, exploração de mapa de área e combates pontuais). Aqui também temos uma mistura entre exploração, elementos role play com diálogos e os infames combates por turnos. Não vou perder muito tempo a explicar como estes elementos funcionam, uma vez que as dinâmicas e interacções estão idênticas nesta reedição. Apenas devo dizer que algumas destas lógicas nem sempre sobrevivem bem ao teste do tempo.

Como a mecânica de “Guardian Forces”, por exemplo. Aqui, temos monstros equipados que lutam por nós e onde não interessa muito o nível das personagens. Quando funcionam, proporcionam excelentes jogadas estratégicas que nos obrigam a pensar para juntar a melhor fórmula de GFs. Para os usar correctamente, porém, precisamos de acumular magia. E, para a obter, precisamos de… sugá-la dos inimigos durante um dos turnos dos combates. É uma mecânica estranha, inédita e francamente aborrecida. Se não me engano, nunca mais foi usada na série. E ainda bem, uma vez que foi um dos elementos mais divisores nas avaliações originais deste jogo.

E sim, cá está esta mecânica de “Guardian Forces”, de volta para todos os puristas inveterados. Notem, porém, que esta reedição faz questão de se retratar e, talvez reconhecendo o aborrecimento crónico desta lógica no jogo original, permite-nos acelerar o tempo em três vezes a sua velocidade normal. Não elimina concretamente estas mecânicas aborrecidas, é certo, mas acelera estes momentos, o que ajuda sempre. Outras batotas presentes no menu também permitem, por exemplo, desabilitar os encontros aleatórios com inimigos ou até conferir invencibilidade aos protagonistas, ideal para quem simplesmente não quer saber de combate e só quer terminar a história.

Por esta altura, deverão estar a indagar o porquê de tão longa introdução ao conceito de remasterização. E chegou a altura de falarmos nisso, mas talvez as imagens que publico nesta análise já tenham dado pistas. Na revelação desta reedição, a Square Enix mencionou que o grafismo seria revisto, trazendo resoluções mais elevadas e uma melhoria geral nas texturas e modelos das personagens. E, como já disse, isso é, de facto, uma descrição mais ou menos convencional do que é uma remasterização como a conhecemos. Só que, o que as produtoras Dotemu e Access Games fizeram aqui foi um trabalho de “corte-e-costura” honestamente pouco impressionante.

Sim, de facto os modelos das personagens foram revistos, com uma modelação 3D e texturas bem mais definidas e melhor desenhadas. Mas, tudo o resto parou no tempo de uma forma absolutamente inconsistente. Na versão analisada no PC, arrancamos com um pequeno menu que nos permite escolher a resolução do ecrã pretendida. Não há mais opções de qualidade visual, o que me deixou logo na defesa. Ainda assim, mesmo escolhendo a resolução do meu ecrã (1920×1080 16:9), fui presenteado com um… ecrã 4:3. Então, mas… não tinha escolhido formato HD? Eu até aceito que pudéssemos jogar neste formato clássico mas, pedir uma resolução moderna e praticamente negá-la, é inédito.

Estou perfeitamente disposto também a aceitar as cenas intermédias intactas, sem quaisquer mexidas em qualidade. O que não consigo ultrapassar é que, apesar das personagens revistas e actualizadas em 3D, os cenários em 2D são os originais, o que cria um contraste de qualidade absolutamente horrível. E notem que a definição destes cenários 2D não aumentou, o que significa que temos a mesma resolução 240p da PSX, esticada várias vezes para encher o ecrã. A pixelização é absurda em algumas secções, prejudicando mesmo a navegação. Ainda por cima, tem também um pobre trabalho de optimização, por vezes com quebras acentuadas de fotogramas por segundo e constantes “glitches” nas animações e alguns efeitos visuais. Faltou tempo ou financiamento? Talvez nunca saibamos.

Veredicto

Se o objectivo era recuperar um clássico incompreendido numa reedição para revitalizar o jogo, então estaríamos a falar num regresso bem vindo de um clássico, agora na PS4, XBox One, Switch e PC. Contudo, a Square Enix chamou esta edição de Final Fantasy VIII Remastered e, como tal, esperávamos muito mais que um simples regresso. Em termos de conteúdo, temos tudo intacto, fazendo as delícias dos fãs que queiram regressar 20 anos atrás. Mas, como remasterização, o ecrã 4:3, os cenários mal formatados, performance inconsistente e um pobre contraste com as personagens 3D revistas, dá-nos um produto final aquém do prometido. Vale a pena jogar pelo valor nostálgico, mas não está ao nível do que deveria ser uma remasterização. Como já disse, este clássico não o merecia.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.