Mais infoProdutora: EA Canada/EA SportsEditora: Electronic ArtsLançamento: 25/09/2019Plataformas: , , , Género:

Há quem diga que o maior “problema” para Cristiano Ronaldo não ser tido como o maior jogador da história do futebol, é que Lionel Messi existe. Da mesma maneira, é bem possível que outros jogos actuais não tenham mais popularidade, porque FIFA 20 existe. Ou… então é mais ao contrário… 

Esta é, obviamente, uma opinião subjectiva. Regra geral, os dois grandes rivais estão um pouco distantes um do outro, nem que seja em conteúdo ou nos infames licenciamentos, algo que temos vindo a realçar como prejudicial em ambas as franquias. Mas, se neste ano PES 2020 apostou tanto em novas equipas e Ligas, aprimorando bastante a sua jogabilidade e “piscando o olho” aos eSports, FIFA 20 chutou para outro campo… literalmente. O modo estilo Role Play que tivemos até FIFA 19, “The Journey”, foi finalmente reformado e no seu lugar surge uma autêntica ressurreição de um género muito único. Volta é o modo que pretende recuperar os fãs de FIFA Street, uma série que até já dava algumas saudades. O que, para todos os efeitos, nos traz um jogo, dentro de um jogo. Só é preciso que todo o conteúdo em volta seja igualmente apetecível.

Vamos começar exactamente pelo novo modo Volta. No meu ponto de vista, seria bem mais interessante que este fosse um novo jogo independente da série base. Afinal, o futebol praticado é um tanto diferente do típico “futebol de 11”, apostando em regras muito próprias e, por vezes, pouco convencionais, como as jogadas em tabelas pelas paredes, entre outras. Talvez fazer renascer a franquia FIFA Street ainda faça parte dos planos da EA, mas talvez fosse importante testar a fórmula de uma forma um pouco mais “controlada”. Então, nada como inserir esta jogabilidade na franquia base, adoptando muitas das suas mecânicas e ainda contribuindo com conteúdo para ajudar no tal derby com o jogo rival. Boa estratégia.

Mas, de facto, Volta é um jogo à parte. Até mesmo os menus de jogo e todo o aspecto do planeamento, organização e modo de carreira são independentes, este com uma história a contar de um tal jogador de rua que ascende ao estrelado do mundo do futebol de rua. Calma, não se preocupem, o modo de carreira convencional continua em jogo, mas este é dedicado a esta nova fórmula de jogabilidade. Começamos por criar o nosso jogador, com uma vestimenta apropriada e partimos logo a demonstrar a nossa perícia com bola, primeiro num campo improvisado e depois nos palcos mundiais dos campeonatos de freestyle. A premissa é boa, bem no espírito de FIFA street, mas a execução podia ser melhor.

Se levarem em consideração a sugestão do jogo e começarem a jogar FIFA 20 por aqui, provavelmente ficarão um pouco desapontados. Não é que as mecânicas de jogo ou a perícia não entusiasmem, muito pelo contrário. Temos diversos modos de jogo para abordar, cada um mais divertido que o anterior. Seja 3×3 ou 5×5, com ou sem guarda-redes, com limites de campo ou paredes, entre fintas e passes a rasgar, uma vez dominada a jogabilidade, a diversão é garantida. Mesmo o modo de carreira que nos leva para imensas competições e campos, desde o Brasil ao Japão, as inúmeras opções de personalização e alguns jogos e treinos de perícia, vão ocupar bem o vosso tempo. O problema, na realidade, é a inconsistência que encontramos em campo.

Uma das principais características deste género de futebol são as fintas. Ora, inicialmente na nossa árvore de evolução, os dribles e fintas básicas estão bloqueados até que evoluamos. Estranho… mas até podemos viver com isto. No entanto, mesmo apostando nos passes e remates, há uma série de questões com as animações, controlos e fluidez de jogo que nos impedem muitas vezes de replicar esse “futebol espectáculo”. A Inteligência Artificial tanto pode ser incrivelmente incompetente, como ridiculamente precisa. E tudo parece girar no que está no marcador. Estão a perder? Não há problema, a IA parece falhar mais passes e remates. Estão a ganhar, tomem lá dois golos de contra-ataques fulminantes. Enfim. Tive de reduzir a dificuldade de World Class para Professional ou não acabava nenhum jogo.

Podem achar que isto é um sintoma de falta de perícia e até admito que estou “enferrujado” neste tipo de jogabilidade. Contudo, como já disse, há também inconsistências nas animações que não dependem muito da minha perícia. Em momentos de perda de bola ou quando a tentamos roubar ao adversário, as bolas soltas causam momentos caóticos de chutos e ressaltos, algo que até perfeitamente normal num campo tão pequeno, mas não deveria ser assim tão frequente. Por outro lado os tempos das animações são algo imprecisos, causando imensos momentos de perdas de bola e chutos “no ar”. Novamente, pode ser só uma questão de perícia, não duvido. Ainda assim, frustra estar a ganhar 3-0 e vir a perder ou empatar o jogo por uma estranha inépcia a manter o resultado.

Notei que esta questão é mitigada por jogarmos só com o nosso jogador em vez de o fazer com toda a equipa. Porque o ritmo é mais frenético, é mais simples controlar só um jogador e esperar que a IA se desmarque ou defenda melhor que eu. E até consegue. Mas, não chega para nos frustrar em alguns momentos, porque não conseguimos fintar como deve ser ou porque as animações quebram o ritmo que queremos impor. Quando tudo se alinha, de facto, fazemos jogadas fenomenais que nos fazem sorrir e fazem sentir que Volta é mesmo o modo que onde passaremos mais tempo. É só preciso limar as arestas um pouco, sobretudo nas animações e IA para que tudo fique como deve ser.

Mas, nem só de fintas bonitas e tabelas no meio da rua se compõe FIFA 20. E ainda bem. O que vou dizer é perfeitamente discutível, mas quero arriscar por afirmar que o que faz desta franquia tão popular é o seu modo FIFA Ultimate Team. Popular para o bem… mas também para o mal. Não podemos negar que há aqui uma ligeira componente de “pay to win” com quem investe mais com dinheiro real e compra mais cartas com a finalidade de ter melhores jogadores. Sim, as micro-transacções serão sempre divisórias mas, hey, já fazem parte de FUT há anos e temos de ultrapassar esta objecção. Ainda assim, na última edição surgiram outras queixas de inconsistência ou falta de incentivo a jogar, que a EA Canada resolveu abordar este ano de forma concisa.

Agora temos uma nova lógica para angariar pontos de experiência, em que todas as actividades acumulam pontos para ganhar recompensas bem apetecíveis. Isto muda um pouco a progressão, dando-nos motivos para abordar a nova época com alguma confiança que estamos a jogar para algo tangível. Mas, há muitas outras mudanças e alterações a ter em conta, muito além do novo menu e nova organização. Eventos sazonais, inclusive partidas offline, partidas amigáveis, nova lógica de química entre jogadores, novas opções de personalização de celebrações, partidas com modificadores divertidos, enfim, FUT está mesmo melhor que nunca. Além de Volta, foi aqui que passei mais tempo a jogar.

Noutros lados, podem novamente optar pelos míticos modos de carreira, seja como manager ou como jogador. Nesta última opção, não há muito para realçar, continua a ser a oferta do costume do modo Be a Pro, criando o jogador, evoluindo-o e rumando ao estrelato mundial. Podemos não ter, de facto, “The Journey“, mas está aqui o mesmo espírito, para todos os efeitos, sem as tais cenas intermédias do costume. Apenas notei que o jogador inicial parece francamente mais fraco fisicamente e também tecnicamente. O que obriga a muitas rotações e empréstimos até que se afirme em algum 11 inicial. Se nos jogos anteriores havia algum facilitismo na progressão, aqui é bom que treinem muito e joguem ainda melhor (se a IA deixar, obviamente).

No modo de manager, é que temos algumas novidades de relativa importância. Há agora muito mais ênfase na interacção com os jogadores no que toca às questões contratuais e transferências ou empréstimos. Temos mesmo uma interacção com diálogos onde podemos negociar e até tentar convencer os jogadores em algum pormenor. E como podemos personalizar o aspecto deste treinador, dá-nos um elemento interessante de role play, sobretudo nas conferências de imprensa. Como devem calcular, neste modo o que mais conta são as estatísticas das equipas contra a oposição. Basta criar um alinhamento com os melhores jogadores, gerir a sua satisfação e ajudar na química para que as coisas se balanceiem por si. A estratégia é tudo, obviamente.

Contudo, é no relvado que queremos ver como está este novo FIFA. Neste ano, temos a promessa de uma remodelação nas abordagem da defesa e no comportamento da bola. De facto, a recepção da bola, o controlo da mesma e até mesmo os toques subtis das fintas e dribles dão-lhe um nova vida. Não é tão evidente aquele “síndroma” de bola “colada ao pé” desta série. Mas, onde é mais notória esta melhoria das físicas da bola, é nas trajectórias dos remates, agora bem mais credíveis, sobretudo quando é dado um efeito no momento do remate. O novo esquema de remate em livres e penalties, que joga com a posição dos dos comandos analógicos (nas consolas), gere muito bem estas novas reacções da bola.

E, sim, as defesas estão bem mais activas, fazem melhor as respectivas dobras aos companheiros de equipa e até dão uma ajuda preciosa nas intercepções. Contudo, sofrem do mesmíssimo problema de IA e de tempos de animações que falo acima com Volta, ora não usassem o mesmo motor de lógica. Contudo, no futebol de 11 isto tem outra dinâmica. Como houve também mexidas na fluidez dos movimentos dos jogadores, criam-se situações de pressões ou carrinhos mais agressivos a criarem autênticos malabarismos. Quanto mais não seja, torna-se mais realista, com desequilíbrios, esforços, improvisos e mesmo quedas a roçarem o real.

Confesso que passei os últimos dias a jogar no jogo rival e, tal como acontece ao mudarmos de uma franquia de shooter para outra, as coisas demoraram a ganhar “tracção”. Para começar, tive de desligar esta péssima mecânica de remate a dois tempos da última edição (que regressa activada por defeito), carregando no botão do remate uma vez para iniciar uma barra de força e outra vez para o remate em si. Quando funciona, cria uma remate perfeito e quase indefensável (se não for interceptado), quando não funciona (para mim na maior parte das vezes), perdemos a bola ou falhamos por completo. Tive de desligar e voltar ao modo clássico, obviamente. Até porque os problemas nos timings das animações que falei lá em cima também estão neste relvado.

Por outro lado, já antes tinha notado que FIFA se tem tornado mais um jogo de estatísticas que outra coisa, algo que funciona bem no modo manager, mas não tanto a jogar em campo. Cada vez mais, não interessa muito a nossa perícia individual se os jogadores possuem um nível geral menos apurado. O que significa que em níveis de dificuldade tipo World Class ou Ultimate não devem esperar levar o Famalicão à final da Champions (um desafio para vocês?). Esta lógica de estatísticas leva a situações francamente caricatas em que jogamos contra equipas de nível mais alto sem sequer fazer um único remate à baliza. Será realista? Talvez. E até pode ser um problema da tal falta de “tracção”. Contudo, ao fim de umas dezenas de partidas, continuo a achar que o jogo não quer muito da nossa destreza, preferindo que joguemos contra equipas do mesmo nível.

Não é que o jogo nos decida punir deliberadamente por ter uma equipa mais fraca, mas torna-se frustrante ao notar que os defesas da IA nos cortam tantas a vezes os lances, nos roubem tanto a bola, mesmo com dribles bem executados ou que corram mais que o nosso ponta de lança embalado. Por outro lado, a tal IA inconsistente e as mesmas questões de ressaltos e bolas soltas também se manifestam aqui. Reduzir a dificuldade também não é a melhor opção, uma vez que depois a o adversário fica incrivelmente inapto. Ou seja, se querem jogar FIFA com o desafio de levar uma equipa modesta à ribalta numa Liga ou competição, passarão um mau bocado, não pela vossa perícia (ou falta dela) propriamente, mas por causa das estatísticas. Sobretudo comparando com a concorrência.

Se as ligas e competições vos frustrarem assim tanto (ou não as apreciarem), sim, continuamos a ter aqueles modos de jogo com modificadores para dar mais elementos arcade a um jogo que, em vários aspectos, deveria ser um simulador. Estreou-se com FIFA 19 e confesso que nem me lembro que lá estão. Acho que são excelentes modos de jogo para passar o tempo com amigos, mas Mario Kart também é (e até acho mais divertido). Curiosamente, nas partidas de Kick-Off podemos até criar modificadores de resultado, começando o jogo já a perder ou a ganhar. Pode ser interessante para quem quer encenar uma reviravolta ou para quando dizemos a um amigo que “até damos 3 golos de avanço”.

Uma vez que vivemos numa era de “eye candy”, é também no conteúdo de FIFA que vamos encontrar o maior número de ligas e equipas, assim com as muito desejadas competições da Ligas dos Campeões e Liga Europa, com (quase) todas as equipas licenciadas. Mas, honestamente, acho que este ano temos mais uma demonstração de “cumprimento” neste campo. Não vou falar na falta de algumas equipas, com ausências de equipas da Champions (como o Zenit, por exemplo) ou da infame “transfiguração” da Juventus numa tal de “Piemonte Calcio”. Pelos motivos óbvios, terei de falar do cuidado tido com ligas como a nossa Liga Portuguesa de Futebol.

Tal como mencionei nas análises anteriores, inclusive da franquia rival, se vamos ter ligas licenciadas, convém que tenhamos um cuidado especial em replicar quase tudo de forma coerente. Muitos compram estes jogos para jogar com o seu clube e gostam de o ver bem retratado. A Liga NOS em FIFA 20 possui todas as equipas disponíveis, com (quase) todos os equipamentos e jogadores replicados. As principais equipas também possuem algumas características especiais como cânticos dos adeptos ou faixas personalizadas nas bancadas, por exemplo. Contudo, é de notar que algumas feições dos jogadores são genéricas e até repetidas. Poucos são devidamente recriados, até mesmo no caso de alguns jogadores de selecção. Demonstra pouco cuidado com a licença, e já nem falo na repetida falta de comentários em Português. Enfim…

No que toca ao visual, que todos os anos parece receber sempre mais um pouco de “sumo”, FIFA 20 continua a mostrar que está em grande forma, com a nossa PlayStation 4 Pro (versão analisada) a “soprar” bem forte em cada partida, para dar um excelente aspecto de “transmissão em directo na TV”. Nada a assinalar neste ponto, com os já habituais efeitos visuais e muitos pormenores de realismo, em jogadores, relvado, bola, público, tudo para criar a devida imersão.

Infelizmente, há umas poucas questões que não colaboraram nesta qualidade. O sincronismo de lábios nas cenas intermédias de Volta é, à falta de melhor palavra, “inexistente”. Aliás todo o som parece desfasado. Também notei imensos erros de transições nas animações, sobretudo nos festejos de golo, com jogadores presos noutros ou a correr sem sair do lugar. E notem que não foi algo esporádico, gerando situações caricatas.

Também notei um erro tremendo nas secções de espera por cada partida, onde, como sempre, podemos fazer uns jogos de perícia. Por qualquer motivo, a câmara ficou sempre presa e não me foi possível completar qualquer dos exercícios propostos, porque simplesmente não via o jogador. Este e outros erros que encontrei não são graves, de facto, mas arrisco dizer que são, provavelmente, um sintoma de falta de tempo para polir o jogo como deve ser, ficando dependente de actualizações. Façam lá isso, EA.

Veredicto

Tal como Cristiano Ronaldo nem sempre recebe o seu devido reconhecimento mas continua a ser um exemplo do que de melhor se faz neste desporto, FIFA 20 continua a esforçar-se todos os anos para ser melhor. Em anos anteriores, foi de facto, imbatível mas… agora o rival, o tal “Messi” deste derby, está a fazer um regresso em força. Colocar “o melhor do mundo” a jogar no parque de estacionamento com FIFA Volta é uma ideia interessante e bem concebida mas, se calhar, merecia ser algo único por seu próprio mérito. Quanto entra no relvado, por ou lado, parece sofrer com estatísticas rígidas e com alguma inconsistência da IA, já para não falar com uma certa falta de polimento. No tal derby que iniciámos antes, marca também nesta segunda parte, empatando o desafio. Talvez no prolongamento (leia-se, na “próxima geração”) volte a recuperar o estatuto de campeão.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.