Mais infoProdutora: Play2ChillEditora: PlayWayLançamento: 05/12/2019Plataformas: Género: ,

Um jogo bastante simples, basicamente de estratégia em tempo real. Mas, o tema tem tanto de intriga como de polémica. Como as agências de inteligência (leia-se “espionagem”) travam ataques terroristas? Counter Terrorist Agency explica de forma detalhada.

É assustador pensarmos que algures existem sistemas informáticos que, bastando uma série de palavras-chave, colocam o nosso computador, smartphone ou outro dispositivo digital sob escuta. Não precisamos dar qualquer permissão, aliás o sistema não toma em conta nenhuma premissa. Basta que enviem um email ou façam uma chamada e escrevam ou falem umas palavras concretas e sistemas complexos passam a “monitorizar-vos”. Daí, um ou mais agentes passam em escrutínio tudo o que dizem ou escrevem, deliberando, como “juízes privados”, se são suspeitos ou não. Não é só a premissa deste jogo, é também uma realidade que assusta, num conceito de “Big Brother” absolutamente impune.

Duvido, obviamente, que fosse a intenção da produtora Play2Chill “desculpar” as actividades de agências como a CIA ou o FSB. Contudo, são procedimentos que, apesar de terem o potencial de ameaçar a nossa privacidade, também têm uma função com imenso mérito: travar ameaças terroristas, antes mesmo de se tornarem efectivas. A mesma produtora já tinha trazido um outro jogo com umas mecânicas mais ou menos similares, mas menos… vá lá…. “intrusivas”. 911 Operator é um pequeno indie de enorme sucesso no PC e que conta já com uma sequela anunciada 112 Operator, dedicado à operação de um call-center de emergência.

A ideia por detrás de CTA, é praticamente a mesma de 911 Operator. A grande diferença é que não trabalhamos estrategicamente para tratar chamadas de emergência médica ou policial, mas agir em conformidade com actividades suspeitas que interceptamos. O tutorial começa muito bem por explicar que, basta um email enviado ou uma chamada interceptada com as tais frases ou palavras suspeitas, para elevar um alerta e chamar a nossa atenção. A ideia, depois, é proceder de acordo com o que interpretamos serem actividades ilícitas com fins terroristas, lendo e escutando comunicações, analisando perfis de suspeitos e a documentação facultada de modo a travar potenciais ataques, ora travando acções ora prendendo suspeitos preventivamente.

Toda a interacção é feita via quadros de opções. Inicialmente, temos um mapa com a situação mundial, indicando locais onde podem haver potenciais ataques. Depois, cada chamada ou email destacado pelo sistema pode levantar um processo. Ou… nem por isso. Por entre situações realmente emergentes de possíveis ataques, há chamadas inocentes em que os interlocutores podem simplesmente usar palavreado que induz em erro. Mas, lá pelo meio, também podemos ser iludidos a concluir que um meliante verdadeiro é inocente. Nesse caso, podemos desconsiderar uma real ameaça e deitar tudo a perder.

Assim, convém ler e ouvir tudo muito bem e, na dúvida, não deixem de vasculhar tudo antes de carregar no botão para o ilibar. Consoante resolvamos casos ou contribuímos para desmantelar operações perigosas, como quando interceptamos comunicações com sucesso, recebemos pontos de experiência que, por sua vez, podemos usar para “comprar” mais recursos e habilidades. Eventualmente, com o nosso progresso, os casos também se tornam cada vez mais complexos e dúbios. Os meliantes são por vezes mais prudentes em como falam, noutras vezes mais secretos e teremos de usar de algum engenho e intuição para os interpretar.

Este é, portanto, um jogo de paciência, minúcia a tratar informação e muita, muita aptidão para vasculhar vidas alheias. Lá mais para a frente também seremos confrontados para algumas decisões difíceis, por vezes envolvendo alguma moral. Por exemplo, temos a certeza que um terrorista está a bordo de um avião e vai atacar um espectáculo com vista a matar centenas de pessoas. Como possibilidade, podemos abater o avião em voo, matando o terrorista… mas também todos os outros a bordo. A decisão é difícil um punhado de vítimas sacrificadas para salvar centenas. Vale a pena? Apesar de não termos cenas intermédias, apenas texto, ficamos com a sensação que é uma situação crítica que, possivelmente, alguém tomou no passado nestas mesmas circunstâncias.

Contudo, se não tomarmos este tipo de decisões, as repercussões são bem maiores, como devem calcular. A nossa prestação sofre uma avaliação constante e quando temos de resolver um caso, não é só o dito meliante morto que nos interessa. Toda uma rede organizada e as células têm de ser desmanteladas. Pelo que é bem possível que tenhamos muitas decisões difíceis para tomar na carreira. E, no final, até podemos livrar o mundo de uma organização terrorista, mas o preço a pagar é tão elevado, que duvidamos da decisão. E não falo apenas de matar inocentes como dano colateral “para o bem de muitos mais”. Falo também em actos ilegais, como interrogatórios com tortura e outros “tópicos quentes”.

Notem que tudo isto é embrulhado num trabalho intenso da produção de criar histórias credíveis e actuais. Redes de terroristas no médio-oriente, extremismo social e político com motivação racista nos EUA ou narco-terrorismo na América do Sul, tudo parece tão actual e com paralelos tão concretos com as notícias do dia, que o pequeno oráculo no fundo da página a dar as “notícias” como um qualquer telejornal, se torna enervante. Alie-se a isso algumas contribuições de actores com vozes em chamadas improvisadas e pergunto-me se uma agência como a CIA não pode usar estes jogos para seu treino interno.

Quanto ao visual, bom, está à vista nas imagens que partilho. Não é propriamente um jogo de visual envolvente, simulando um sistema informático interactivo e pouco mais. O objectivo aqui, porém, não é ser visualmente realista, pelo que não esperei isso propriamente. Os menus são, quanto a mim, cumpridores, com quadros de leitura fácil e em alto contraste. Ainda assim, considero a estrutura do jogo algo complicada de decorar, perdendo-me entre alguns quadros e entre passos para andar com as investigações. Também algumas das muito importantes chamada de voz podiam ser melhor interpretadas pelos actores, tendo por vezes algumas prestações um tanto simplistas.

Veredicto

Mesmo não ganhando prémios de grafismo ou de prestações dos actores, Counter Terrorist Agency leva-me aos tempos da lendária série “24” em que Jack Bauer desmantelava redes terroristas com ajuda de alguém por um telefone. Lá do outro lado, podia muito bem estar alguém a jogar este jogo e a ditar ao agente quem era culpado ou inocente. Na sua simplicidade, acaba por ser um jogo viciante e com todos os ingredientes de intriga e estratégia para nos envolver. Se gostam de filmes ou séries de espionagem e gostavam de ser um agente da CIA por um dia (ou mais), este jogo é para vocês.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.