Mais infoProdutora: Ninja TheoryEditora: Xbox Game StudiosLançamento: 24/03/2020Plataformas: , Género:

Foi com alguma surpresa que ouvimos falar de Bleeding Edge pela primeira vez. A Ninja Theory, mais habituada a títulos mais sérios (Hellblade), decidiu apostar no género “brawler” online com super-heróis. Uma descolagem completa da sua zona de conforto.

Os primeiros minutos de contacto com o jogo serão profundamente familiares. Este é um título inteiramente online, com modos de jogo PvP até oito jogadores (4vs4), com partidas disputadas em enormes arenas. As personagens possuem um design único em jeito de banda-desenhada, cada uma com aspecto, estilo de combate e habilidades únicas. Poderíamos estar a falar de Overwatch… ou do falível Battleborn… ou de Paladins... ou de Battlerite… Enfim, não é que este género de jogo seja propriamente uma novidade. Aliás, é discutível, mas todos estes “brawlers” inspiram-se no velhinho Team Fortress 2, dando-lhe uns quantos toques para subsistirem. No final, reina sempre o jogo que souber equilibrar-se e manter-se fresco na sua oferta, não tanto o que tenta ser o mais original.

Confesso que não entrei neste jogo com a maior das expectativas. Não tem a ver com a qualidade aparente ou com alguma dúvida das capacidades técnicas da produção, mesmo que este não seja propriamente o projecto que esperei vindo deste estúdio. É que este tipo de jogo está um pouco saturado. Numa era de títulos Battle Royale, obviamente, é algo irónico falar de saturação de género ou orginalidade. No final de contas, o que interessa são os elementos de diversão e entretenimento. E não há dúvida que Overwatch e todos os que seguiram na sua esteira de sucesso, são jogos para divertir, tendo uma legião de fãs e muita procura, até no mundo dos eSports.

O que pode acontecer com Bleeding Edge, sem dúvida. Por agora, como irão ver, o seu lançamento parece apenas um sucinto um desvio na atenção. A concorrência está firmada onde está, este jogo da Ninja Theory precisará de muito conteúdo e continuidade se não quiser definhar no esquecimento. Numa primeira abordagem, o jogo descreve-se sendo mais focado na acção próxima, com combates “melee”, tendo algumas personagens com habilidades de tiro à distância, mas limitado em raio de acção. Não é que a acção próxima seja verdadeiramente uma novidade no género mas, sempre lhe dá um toque pessoal. Resta só saber se vai chegar para cativar os amantes do género.

Embora não seja um jogo assente na narrativa, Bleeding Edge conta a história de um grupo de personagens que, alegadamente, roubou tecnologia para se “melhorarem”, quais cyborgs a mascar pastilha-elástica e a deambular de skate. Agora, estes delinquentes gerem uma espécie de “clube de combate” clandestino, onde a busca pela glória é mais importante que a segurança pessoal. E pronto, está dado o mote para justificar o que se passará nas próximas horas de jogo. Não há mais nada para seguir em termos de enredo, tirando umas biografias das personagens. Também não esperava que houvesse uma história muito intrincada neste género de jogo.

Mas, até nem era mal pensado que tivéssemos algo mais elaborado. Noutros “brawlers” experimentaram-se alguns formatos de narrativa, como uma guerra entre heróis e vilões ou uma sucinta história que nos leve a criar alguma simpatia com alguma causa. Aqui, cada personagem tem a tal sucinta biografia, mas nenhuma nos parece particularmente cativante. Talvez futuras adições de conteúdo deem alguma continuidade ao enredo ou adicionem alguma porção de história paralela. Porque, por agora, o pouco enredo é acessório, esquecível e contado em poucos minutos numa cena introdutória. E já sabem como eu não gosto de jogos que não se esforcem em contar uma história, por mais pequena que seja.

Começamos o jogo por conhecer os diferentes tipos de ataques, defesas, habilidades e bónus, tudo explicado através de um tutorial linear e interactivo. Aconselho a passar algum tempo, tanto neste tutorial como no modo Dojo, para conhecer cada uma das 12 personagens diferentes, separadas em três classes: Damage, Support e Tank. A primeira classe, é a banal classe de combate, focada em disferir danos nos adversários. A segunda são os famosos “healers” com habilidades de cura dentro da equipa. E a terceira são a força bruta para proteger os demais. Numa equipa de quatro jogadores, convém escolhermos bem que papel queremos desempenhar ou a equipa poderá fragmentar-se.

Cada personagem tem depois uma forma de jogar diferente. Além dos ataques normais, possuem também ataques ou habilidades com cooldown e um super-golpe com barra de preenchimento. Uns minutos com cada herói no Dojo e rapidamente vão escolher um que melhor se adapta ao vosso estilo de jogo. Enfim, é o método do costume. Haverá sempre uma ou outra personagem que mais gostamos de jogar, sem que, sinceramente, tenha de destacar alguma em particular. Eventualmente, poderão gastar dinheiro ganho em jogo a personalizar alguns pormenores de cada herói, mas nada que mereça um real destaque. Até porque irão mudar de personagem regularmente, mesmo em cada partida.

Por outro lado, Bleeding Edge parece um tanto despido de conteúdo. Carregando para jogar, notei que não podia sequer escolher um modo de jogo. Isto porque, na verdade, só temos duas formas de o jogar. Em Objective Control, tentamos controlar zonas de captura, ganhando a equipa que fizer mais pontos com zonas controladas. E em Power Collection, andamos pelo mapa a procurar baterias escondidas em caixas ou carregadas por outros jogadores de modo a “bancá-las” na nossa base, ganhando a equipa com mais baterias angariadas ou bancadas. Embora estes modos sejam interessantes, possivelmente dos mais populares, espero que a produção adicione mais em breve.

E também é bom que pense em adicionar mais mapas para jogar. Temos ao todo cinco mapas diferentes. Mas, na realidade, diferem apenas nos elementos decorativos e na disposição dos caminhos e áreas. O design geral destes mapas não é muito brilhante, na minha opinião. Têm demasiados pontos de estrangulamento ou obstáculos. Sendo um jogo de combate mais próximo, algumas áreas mais amplas não fracamente desnecessárias. Por outro lado, embora existam algumas plataformas, não há grande verticalidade nestes mapas, tornando-se quase inútil subir a algum ponto mais alto porque as armas não têm grande alcance.

No plano técnico, Bleeding Edge até está bastante polido visualmente. Tive a oportunidade de o jogar tanto na Xbox One X como no PC de modo a tentar perceber as diferenças. Não são muitas até. Noto que os fotogramas por segundo (fps) estava ambos bloqueados nos 60 nas duas plataformas, sendo talvez um elemento negativo para quem joga no PC com máquinas dedicadas a extrair todo o “sumo” dos jogos. Não é que seja um problema por si só, mas é capaz de não agradar a todos. Tendo uma arte baseada na banda-desenhada, não há aqui grandes feitos técnicos, propriamente ditos. Ainda assim, tudo obedece a um design e animação simples que cumpre o objectivo, com bons efeitos visuais à mistura.

Onde as coisas não correm muito bem, porém, é nos controlos. O esquema por defeito de controlos e teclas, vai fazer-vos desesperar nas primeiras horas de contacto com o jogo. De facto, perdi algum tempo a reconfigurar algumas teclas e opções que não fazem grande sentido, mesmo no Xbox Controller. Gatilho direito para desviar? A sério? Por outro lado, as sensibilidades são muito estranhas, obrigando também a algum hábito. Mas, o pior de tudo, é o incrível facilitismo de fazer “lock” numa personagem e carregar nos botões de ataque. Tira-se alguma da perícia que seria de esperar, tornando o jogo num autêntico “button-masher” glorificado. De certeza que não era esse o objectivo… era?

Veredicto

Diria que Bleeding Edge está um pouco fora do seu tempo. Ao fim de alguns anos com o género “brawler online” a receber jogos bastante populares, chega numa altura em que já não é possível “reinventar a roda”. Traz algumas ideias interessantes, como a de aproximar mais o combate, mas não o faz de uma forma muito concreta. Por outro lado falta-lhe conteúdo, parecendo algo incompleto com dois modos de jogo e um punhado de mapas. Tem espaço para vingar se a Ninja Theory trabalhar para o encher e melhorar. Espero bem que assim seja, porque há aqui potencial de diversão inegável. Mas, só potencial não chega.

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.