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Análise: Assassin’s Creed – Unity

Devido ao lançamento turbulento de Assassin’s Creed: Unity, tomámos a decisão de não vos apresentar logo a nossa análise. Primeiro, porque seguimos a saga há bastante tempo e, segundo, porque a equipa da Ubisoft tem merecido todo o nosso respeito ao longo destes anos de excelentes concretizações em termos de videojogos. Achámos que só devíamos avançar para a análise depois de dar a oportunidade aos programadores de corrigirem os bugs de lançamento com o primeiro update ao seu jogo.

Chega agora o nosso veredicto ao primeiro jogo da saga Assassin’s Creed, desenvolvido em exclusivo para a nova geração.

Sigo a saga Assassin’s Creed entusiasticamente desde o primeiro lançamento em 2007 e, ao longo destes anos, muitos têm sido os amigos (inclusive membros da redacção do WASD) que me fazem a pergunta: “sendo tu um arqueólogo, como é possível gostares de Assassin’s Creed quando a Ubisoft deturpa tanto a história?” A minha resposta é simples: relembrar a história é sempre positivo, seja esse acto alcançado através da criação de documentários históricos ou até mesmo da recriação através da ficção.

E, por isso, basta ver a quantidade de pessoas que actualmente explora a cidade de Paris durante a Revolução de finais de setecentos e como este evento, que alterou o panorama mundial, tem andado na boca do mundo gamer durante as últimas semanas. De facto, se existe momento na história do mundo que merece ser recordado é este, face à época de crise económica em que vivemos.

Esta era uma época em que mais de três quartos da população francesa vivia na miséria, enquanto a monarquia e a nobreza festejavam incessantemente, rodeados de luxo, em Versalhes. Existem até registos históricos de estrangeiros que visitavam a região naquele período e observavam precisamente esta realidade antitética. Esta bipolaridade levou a que a revolução assumisse contornos violentos através do punho cerrado dos sans-culottes. Não obstante, este foi um momento único na história, com todos os elementos dignos de uma história fictícia: uma poderosa monarquia extinta com um regicídio, a violência da população nas ruas seguida de reforçada violência pelo governo republicano. Tudo isto para depois mergulhar a Europa nas Guerras Napoleónicas, um conflito de iniciativa imperialista que chegaria inclusive ao território português.

Em torno desta saga, a Ubisoft tem conseguido reunir uma equipa multidisciplinar capaz de trazer o que de melhor se produz ao nível da recriação histórica. Nesse aspecto, Brotherhood é uma referência para mim. Nada se compara a explorar a Roma Renascentista do século XVI… Nada, até entrar na Paris de finais do século XVIII. Este foi um momento que definiu a nossa era. Por isso mesmo, atravessar as ruas em eclosão com a voz do campesinato explorado pela nobreza francesa era um dos melhores cenários que eu conseguiria imaginar para a saga Assassin’s Creed recriar. Isto quando ainda jogava com Altaïr Ibn-La’Ahad em 2007.

No que diz respeito à história propriamente dita, depois de um prólogo que nos introduz à trama deste capítulo, Assassin’s Creed: Unity conta-nos a história de Arno Victor Dorian e de Élise de la Serre, um assassino e a filha do Grão-Mestre da Ordem dos Templários que protagonizam um romance cliché. Ao bom estilo shakesperiano de Romeu e Julieta, cada um deles representa uma de duas facções em conflito e cujo desenlace será chave para toda a narrativa. Pelo caminho e enquanto a revolução se instala em Paris, vamos encontrando algumas das proeminentes figuras suas contemporâneas. Napoleão Bonaparte, Marquis de Sade (sadismo diz-vos alguma coisa?), ou até Maximilien de Robespierre são apenas algumas das personagens que poderão encontrar e que enriquecem a experiência de jogo.

Por outro lado, também os locais físicos são protagonistas em Unity. Arno desempenhará um papel central no momento que define a Queda da Bastilha e ainda percorrerá locais monumentais de Paris como a gigantesca Catedral de Notre-Dame, as tenebrosas catacumbas da cidade ou até o Palácio de Versalhes, o maior símbolo do Antigo Regime francês.

Não obstante, Unity também traz alguns erros históricos como seria de esperar quando se cria algo desta dimensão. São disso exemplo a presença da bandeira azul, branca e vermelha pelas ruas de Paris quando esta só seria efectivamente adopdata em 1794. Por outro lado, também a demolição da Bastilha terá tido início a 15 de Julho de 1789. No entanto, esta ainda se encontra perfeitamente de pé durante a fase final da história de Unity, em 1793. Algumas incongruências, de facto, mas que não estragam a experiência de visitar este importante momento da génese da sociedade actual.

Sem influenciar muito a história canónica de Assassin’s Creed, este capítulo do franchise da Ubisoft traz uma narrativa interessante e uma inteligente aproximação ao tema da Revolução Francesa, colocando a ordem dos templários a puxar os cordelinhos por entre cada tumulto da multidão, conseguindo assim controlar o desenvolvimento dos acontecimentos. Por entre as sombras, assassinos e templários jogam um outro jogo de traições e conspirações onde a linha entre as duas facções é, várias vezes, transposta e sempre ténue.

Habitualmente, os jogos desta saga fazem um paralelo entre a actualidade e o passado vivido através do Animus. Para este título, este sistema é parte integrante de um outro de realidade virtual com finalidade comercial, o Helix, através do qual somos contactados pelos assassinos que nos sugerem que fujamos ao controlo da Abstergo, organização controlada pelos templários. Sinceramente, para mim, os momentos Abstergo sempre foram as partes mais aborrecidas de toda a saga. Felizmente aqui, todos estes momentos são vividos através de cinematics que rapidamente passam. Este é, sem dúvida, um excelente avanço na saga e talvez uma promessa de que a Ubisoft daqui para a frente poderá apostar ainda mais nos momentos vividos dentro do Animus e cada vez menos naqueles que se passam por fora.

No entanto, existe uma outra constante lembrança de que estamos numa simulação, na forma dos enormes e dolorosos loadings que surgem quando se inicia uma cinematic, quando perdemos e temos de voltar ao início da secção ou até quando mudamos de mapa ou de zona. Por vezes, a espera era tanta que conseguia ver todas as novidades da minha rede social favorita e, quando acabava, ainda o jogo estava a carregar. Na maior parte das vezes, o tempo de espera é recompensado com excelentes momentos de jogo como, por exemplo, um duelo épico debaixo de trovoada no topo da Catedral de Notre-Dame.

Outro ponto negativo prende-se com uma das imagens de marca da saga e que a Ubisoft não abordou da mesma maneira em Assassin’s Creed: Unity. Refiro-me aos sotaques e regionalismos linguísticos habituais no trabalho de voz e que aqui, estranhamente, foram muito mal tratados. Praticamente todas as personagens têm sotaques estranhíssimos para habitantes de Paris. Muitos até com sotaques vincados de outras regiões como a Irlanda ou a Escócia. Contudo, todos os figurantes que encarnam as multidões e que enchem a cidade parisiense falam um francês riquíssimo que ajuda a enquadrar o momento recriado no jogo.

Por outro lado, alguns dos personagens com que mais lidamos durante o jogo têm alguma tendência a repetir deixas, estragando alguns momentos. Sendo disso exemplo alguns confrontos importantes.

A saga Assassin’s Creed sempre foi muito forte ao nível da banda sonora e Black Flag era-o especialmente com o tema principal e os sea shanties. Infelizmente, também aqui, Unity peca um pouco, trazendo uma banda sonora que pouco destaque tem ao longo do jogo. Exceptuam-se os pequenos laivos do tema principal da saga que surgem aqui e ali. Os melhores momentos musicais ocorrem quando entramos nos clubes sociais de Paris e ouvimos temas da época como o “Ah! Ça ira!” ou a própria Marselhesa… esperem lá! Os primeiros versos daquele que seria recordado como o hino da Revolução Francesa só seriam escritos em 1792. Contudo, eles surgem cantados a plenos pulmões um ano antes. Mais uma falha histórica…

O sistema parkour de Unity está mais refinado quando comparado com aquele que existia em Black Flag. Agora, para nos movimentarmos verticalmente, dependendo da direcção que queremos seguir, basta usar uma combinação de dois botões. Isto varia se queremos subir ou descer e esta nova mecânica dá pelo nome de Free Run Up and Down. Ainda se quisermos, a meio de uma subida ou descida, entrar por uma janela, basta clicar num único botão a meio do caminho. Para aqueles que conhecem os jogos anteriores, a início esta vai parecer-lhes uma mecânica estranha. No entanto, depois de entranhada, é bem mais viável do que as anteriores, já que facilita, acima de tudo, os processos que permitem à nossa personagem descer através das técnicas parkour.

Também o sistema de luta foi reinventado, possuindo agora uma refinada jogabilidade baseada na temporização e capacidade do jogador. Por isso mesmo, é também muito mais exigente. Por exemplo, lutar contra grupos maiores assume-se como um desafio quase impossível. Não obstante, a fluidez dos combates é muito mais interessante e a introdução desta nova mecânica acaba por ser bem-vinda, atribuindo uma sensação de novidade à jogabilidade deste novo título. Por sua vez, também o sistema de acção furtiva foi reinventado, com a introdução de um botão para agachar e esconder atrás de objectos e, da mesma forma, foram incluídas novas técnicas. É disso exemplo, a técnica de disfarce que permite a Arno parecer-se momentaneamente com o indivíduo à sua frente. Junta-se a estas alterações ainda o refinar da inteligência artificial dos nossos aliados que, finalmente, se assumem como tal no campo de batalha.

Nos jogos anteriores existia um tipo de baú que podíamos abrir… Agora existem quatro! São eles: os baús brancos que podemos abrir normalmente e são a cópia exacta do que existia anteriormente; os baús vermelhos que exigem o uso da nova mecânica de lockpicking (abrir fechaduras) introduzida neste jogo; os baús amarelos, cuja abertura está dependente do nível da conta Initiates; por último, os baús vermelhos, ou nomad chests, que estão ligados ao uso da Companion app disponível para Android e Iphone. Na app temos de executar missões até desbloquear as zonas onde estão os baús. Assim que o conseguimos, temos de sincronizar a app com o nosso jogo e conseguiremos abrir o baú da zona respectiva que libertarmos. Sinceramente, parece-me demasiada complicação quando o anterior e simples sistema de baús funcionava lindamente. As lockpicks parecem-me uma boa adição, tudo o resto que envolve entrar na internet ou aceder a uma app no telemóvel parece-me desnecessário, sobretudo quando a app móvel tem crashes constantes.

Da mesma forma, a moeda corrente foi dividida em três: o livre é a moeda corrente e que se usa maioritariamente durante todo o jogo (e foi a moeda corrente no território francês desde 781 a 1795); os Sync Points que servem para ganhar novas capacidades (não é possível conseguir todos os pontos só através da campanha single-player, sendo necessário também fazer missões co-op); e os Helix Credits que são a versão buy to play de Unity e que permitem ao jogador, através de compras com dinheiro real, hackear itens para os conseguir de outra forma que não a normal com o dinheiro do jogo. Independentemente, de se gostar ou não da inclusão desta funcionalidade no jogo, é de louvar o facto de se poder comprar praticamente tudo em Unity sem ter de recorrer a esta opção buy-to-play. A excepção é feita a alguns pacotes que nos revelam os locais dos itens no mapa mas que, de outra forma, também os podemos conseguir. Basta subir a cada ponto de synchronize e revelar o mapa de cada zona.

De uma nova forma personalizável, surge o menu de armaduras que nos permite alterar cores e escolher por módulo (entre head, chest, wrist, waist e legs) que peça se enquadra no nosso estilo de jogo e na capacidade que mais nos interessa maximizar: health, melee, stealth ou ranged. Cada uma com o seu aspecto, as combinações são várias e permitem ainda fazer upgrades.

À semelhança do que acontecia com o castelo de Monteriggioni de Ezio ou com a Great Inagua de Kenway, dos quais recebíamos o lucro, também o mesmo acontece aqui com o Café Theatre. Arno pode renovar os seus espaços, transformando o Café Theatre num sítio proveitoso financeiramente para o jogador. No sótão do edifício, está a panóplia de armaduras de Arno e onde se incluem para desbloquear os fatos dos assassinos dos títulos anteriores – Altaïr, Ezio, Connor e Edward – assim como de personagens introduzidas este ano como Shay, Bellec ou Thomas de Carneillon. A armadura deste último tem de ser desbloqueada através do conteúdo opcional de Unity, à semelhança do que acontecia com a Armor of Altaïr, a Armor of Brutus e a Master Assassin Armor, através dos Enigmas de Nostradamus que envolvem seguir pistas e descobrir a solução nos pontos de referência de Paris.

Para solucionar, existem ainda vários crimes em que Arno assume uma postura de investigador nunca antes vista na série. Procurando pistas, ouvindo testemunhas e acusando, qual Phoenix Wright, o verdadeiro culpado. Quem nos envolve nesta saga de crimes por desvendar é precisamente mais uma figura histórica: aquele que por muitos é considerado como o pai da criminologia – Vidocq. Pelo mapa podemos ainda coleccionar os jornais da época, com manchetes contemporâneas da Revolução Francesa e dos acontecimentos do jogo ou ainda resolver brigas, assaltos ou até dar algum dinheiro aos pobres completando os Crowd Events que desbloqueiam assim mais peças de armadura.

Para além do modo campanha single-player, existe ainda o modo co-op, rico em história e onde podemos também encontrar várias personagens famosas da Revolução Francesa. É disso exemplo o já mencionado Marquis de Sade ou até a Madame Tussaud, protagonista de uma missão curiosa onde temos de lhe entregar cabeças decepadas. Aqui o jogo de equipa com quatro jogadores é essencial e podemos usar várias capacidades específicas deste modo: o Communal Sense que permite a partilha da Eagle Vision entre aliados; a Group Healing que permite curar os aliados; e a Disguise que permite camuflar toda a equipa. A componente co-op é uma excelente adição à jogabilidade de Assassin’s Creed e funciona de uma forma excelente. Sem grande contacto inicial, as equipas desenvolvem tácticas bem complexas para conseguir cumprir os objectivos das missões ou dos assaltos.

A nível gráfico, visitar a cidade de Paris no despoletar da Revolução Francesa é tudo o que podia imaginar. A população acorre às ruas em massa e preenche os espaços de uma forma impressionante. Mesmo com tanto elemento animado pelas ruas, não se notou qualquer quebra de frames na PS4 (sistema onde analisámos este título). A cidade vive através do movimento das ruas e transpira o sentimento da revolução. O resultado é espectacular e brilha à sombra dos grandes monumentos como a Catedral de Notre-Dame ou o Panteão, recriados de uma forma exímia. Já para não falar dos interiores dos palácios parisienses, com a luz a brilhar nas paredes repletas de talha dourada e nas pinturas que enchem as paredes. A própria textura das telas das pinturas está reproduzida com um elevado grau de detalhe. De relevo, ainda a boa inclusão dos espirros de sangue que jorram para as paredes, durante os duelos com espada. Nesta primeira incursão para a nova geração, nota-se ainda a falta de um bom reflexo na água ou nos vidros.

Assassin’s Creed: Unity correu manchetes por essa imprensa fora devido aos bugs que possuía aquando do seu lançamento. Para rejubilo do leitor, posso assumir aqui que, durante todo o tempo que passei com o jogo para vos trazer esta análise (cerca de 30 a 40 horas), encontrei três bugs e nenhum deles capaz de me estragar ou encravar a experiência de jogo. Foram eles: uma questão de clipping no chão do Café Theatre em que havia sobreposição de duas texturas; uma vez que entrei por uma parede adentro enquanto procedia a uma fuga (resolvido com o fast travel no mapa); e uma vez que, durante uma cinematic, a cara de Arno atravessou a gola do casaco. E foi isto… Resta mencionar que apenas jogámos depois de instalarmos a actualização 1.02 e reforçar que para esta análise jogámos a versão da Playstation 4.

Veredicto

É bom voltar a um contexto urbano vivo e rico em história com o lançamento de Assassin’s Creed: Unity. A cidade de Paris da Revolução está aqui espectacularmente retratada e não é um ou outro bug e um ou outro erro histórico que estraga a experiência. A Ubisoft continua a trazer até nós o melhor que se faz ao nível das recriações históricas à escala global. Peca sobretudo no aspecto áudio onde, nem os sotaques, nem a banda sonora foram desenvolvidas como já vinhamos sendo habituados. E, embora Arno não seja a melhor personagem que a Ubisoft já trouxe até nós, funcionando como uma marioneta durante uma parte do jogo, acaba por crescer e tornar-se numa personagem interessante, numa narrativa cheia de voltas e traições, e onde a história da Abstergo parece ter cada vez menos espaço. A fórmula Assassin’s Creed foi reinventada com novas mecânicas e, por isso mesmo, Unity é um excelente passo em frente.

  • ProdutoraUbisoft Montreal
  • EditoraUbisoft
  • Lançamento13 de Novembro 2014
  • PlataformasPC, PS4, Xbox One
  • GéneroAcção, Aventura
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Sem pontuação

Ainda não tem uma classificação por estamos a rever o nosso esquema de pontuações em análises mais antigas.

Mais sobre a nossa pontuação
Não Gostámos
  • Penosos ecrãs de loading...
  • Peca sobretudo no aspecto áudio.
  • Exagero de tipos de baús e de moedas.
  • Algumas falhas históricas

Esta análise foi realizada com uma cópia de análise cedida pelo estúdio de produção e/ou representante nacional de relações públicas.

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