Tal como no lendário caso do ovo e da galinha, quem veio primeiro? PUBG ou toda esta febre no género battle royale? Playerunknown’s Battlegrouds só agora chegou à PlayStation 4, porém. E todos deverão estar a perguntar se o timing é o melhor.

É impossível falar de PUBG e do género tão popular que consolidou, sem falar do ultra-popular Fortnite. O rival da Epic Games teve duas grandes vantagens, três se quisermos ser precisos. A primeira vantagem é óbvia, um jogo Free to Play será sempre mais popular. A segunda é que é um jogo multi-plataformas, com um forte apoio da Sony PlayStation ao nível de implementação, publicidade e mesmo bundles com consolas PS4. A tal terceira vantagem é que é menos consensual. Para muitos, Fortnite abraça melhor o espírito arcade, sendo mais casual e na base da diversão que o género Battle Royale parece privilegiar. Mas, PUBG sempre teve a sua legião dedicada de fãs. E agora pode ter mais “recrutas” na PS4.

Mesmo sendo o pioneiro, PUBG tem vindo a perder protagonismo. Até mesmo Call of Duty já tem battle royale e Battlefield também o terá em breve. Ou seja, Brendan Greene, mais conhecido pelo seu nick “Playerunknown”, lançou uma tendência, começando como um popular mod para ArmA 2 e DayZ, passando também por ArmA 3, tendo subitamente atingido outro patamar com este jogo dedicado. Já antes haviam jogos com a dinâmica free for all, com um único vencedor, o último a morrer. Os filmes da série Hunger Games e um filme Japonês de 2000 chamado Battle Royale parecem ter dado o mote. Greene, porém, foi o primeiro a colocar o modo concreto nas mãos dos jogadores.

Contudo, patentear uma ideia, por mais que agora pareça lógico, é algo complicado. Que o diga Greene e a empresa criada de propósito para esta sua epopeia, a PUBG Corporation. Em pouco tempo, a sua hegemonia baseada na popularidade deste modo ficou ameaçada por… bem, dezenas de outros jogos que vieram depois, tentando (e por vezes conseguindo) fazer mais e melhor com a mesma fórmula. Oportunismo? Sem dúvida. Neste meio é difícil criar algo único que não seja de imediato copiado homenageado por aí. No rigor, porém, PUBG foi o primeiro e o original. E os possuidores da PS4 ficaram de fora, dando a oportunidade ao rival de se estabelecer.

Não acredito muito que PUBG vá remover alguma fatia de jogadores a Fortnite na consola da Sony, porém. Embora pertençam ao mesmo género, PUBG é um jogo algo diferente, nem sempre pelas melhores razões. Antes de pormenorizar o que estou a dizer, dou-vos uma analogia. Fortnite é como um jovem soldado recém promovido. Cheio de vigor e frescura, cumpre todos os objectivos e ainda faz tudo com um sorriso nos lábios, por vezes de forma desleixada, é certo, mas cumpre. PUBG é como um veterano de guerra. Pode não ter a mesma destreza ou aptidão atlética mas tem a experiência e a paciência do seu lado. Mesmo que às vezes pareça querer passar à reforma a qualquer momento.

Isto pressupõe que PUBG é um título bem mais sóbrio, mas compassado (leia-se “mais lento”), sem algumas das mecânicas excedentes (como a construção de paredes, por exemplo), sendo também mais visceral e directo ao assunto. Esta lógica pode dividir os jogadores logo à partida. Sim, continuamos a ter 100 jogadores largados pelo mapa, sim, o objectivo é ser o último sobrevivente, sim, pode ser muito divertido se entrarmos no espírito. O que faz de PUBG ser único, porém, não é essa fórmula genérica. É a sua herança dos dias de mod de ArmA 2 e 3: a componente mais táctica. O que nem sempre joga a seu favor, como irão ver.

A trivialidade de cada sessão de Battle Royale é o que divide os jogadores mais dedicados dos que procuram algo mais cerebral. Há quem goste da injecção instantânea de adrenalina, servida em doses curtas e há quem aprecie a paciência de “acampar” por várias horas à espera que o mapa encurte. Seja qual for a vossa preferência, é um género que exige dedicação para dominar e ser o último sobrevivente. E eu preciso mesmo de me habituar a PUBG se quero jogá-lo para ganhar esse raro “jantar de galinha”. Quanto a mim, é o mais desafiante dos jogos que apostam neste modo de jogo. O que terá óbvio valor para quem procura algo mais táctico e menos frenético neste género.

Recordo-me de jogar uma versão muito primária do mod Battle Royale no PC. Na altura, pensei mesmo que o género tinha potencial, sendo dos mods mais populares de sempre no Arma 3. Contudo, dadas as limitações do motor gráfico e das físicas desse shooter táctico, muito pouco propício a jogabilidade rápida e casual, o mod nunca atingiu esse potencial. Quando PUBG foi anunciado, seria de esperar que a produção criasse as suas próprias dinâmicas para obter um shooter bem mais sólido. Eram precisas físicas mais sólidas, um interface mais acessível, melhorias gráficas mais profundas, enfim, ser mais um jogo e não tanto um simulador, como ArmA sempre tentou ser.

Em termos de conteúdo nesta nova edição PS4, contem com os três mapas já lançados Erangel na Rússia, Miramar na América do Sul e Sanhok na Ásia (o quarto, Vikendi no Adriático, ainda não está disponível, só em Janeiro), além de todas as armas, equipamento e veículos para saquear já conhecidos. Como exclusivos desta versão, contem com um fato completo com o aspecto de Nathan Drake da série Uncharted e com a mochila de Ellie da série The Last of Us. De resto, este é o mesmíssimo jogo das demais versões já lançadas. São lançados do avião de paraquedas sem nada, terão de procurar armas, equipamento e curativos pelo mapa, fugir ou atacar os demais 99 jogadores e tentar chegar ao fim como grande sobrevivente, ganhando o célebre “Chiken Dinner”.

Em Março de 2019, PUBG celebrará 2 anos de existência, tendo entrado em acesso antecipado no PC no dia 23 de Março de 2017. No dia 20 deste mês, celebra-se um ano de PUBG lançado como jogo final nessa plataforma. E faz hoje precisamente um ano em que também foi lançado em acesso antecipado na consola Xbox One. Não sabemos quanto tempo levou a ser produzido para a PS4, mas arrisco dizer que esta versão já existe há alguns meses. Felizmente, a PS4 tem aqui uma estreia bem menos atribulada (leia-se “embaraçosa”) como o que aconteceu na rival há um ano. Mas, isso não significa que este título tenha atingido um patamar de qualidade superior com este tempo de vida.

O resultado ao fim destes meses de produção, não foi bem o que se esperava. Os meus primeiros instantes a saltar do avião para o mapa e a procurar armas pelo chão, foram de desapontamento. Achei inacreditável que o motor gráfico Unreal Engine 4 de PUBG tenha tanto potencial, mas seja limitado a trabalhar com algo tão parecido com o limitado e algo datado motor Real Virtuality 4 de ArmA 3. Greene criou este jogo em conjunto com a produtora Coreana Bluehole Games mas a presença do ADN da Bohemia Interactive (de ArmA 3) é bastante evidente. Embora o estúdio Checo só tenha alegadamente trabalhado na captura de movimentos das personagens, as semelhanças são demasiadas.

O grafismo de PUBG, que tive agora a oportunidade de avaliar numa PlayStation 4 Pro, é francamente datado. Os modelos visuais e texturas de quase tudo, os efeitos de iluminação, sobretudo, nas sombras falíveis, a distância de renderização, as físicas, tudo faz lembrar as enormes limitações de ArmA por onde Greene passou como modder. De facto, a optimização do grafismo e efeitos visuais merecia um trabalho bem mais cuidado. Há já muitos jogos de mundo aberto, com tanto ou mais detalhe que este, que fazem um trabalho bem mais interessante no campo visual. E isto com muito menos sucesso de vendas e ainda menos tempo de produção.

Embora seja bem mais competente, não tão limitada como ArmA (felizmente), a jogabilidade também não é muito positiva, especialmente se compararmos com a concorrência. O meu principal problema surge nos movimentos das personagens. Embora tenhamos a mira no centro do ecrã disparando sempre na terceira pessoa, esses movimentos, as animações e mesmo a mira e o tiro são inconsistentes. Talvez não esteja habituado ao jogo, admito. Mas, não gostei mesmo da dinâmica de tiro, sobretudo à distância. E nem me peçam para falar nos menus e inventário confusos ou da péssima perspectiva da câmara em espaços confinados. Aqui, a concorrência ganha claramente.

Segundo tenho lido pelos fóruns e noutros lados, a produção gosta de pensar que este é um jogo “sempre em desenvolvimento”. Isto pressupõe que esteja sempre a ser retocado e a evoluir, recebendo actualizações e melhorias de forma faseada. Existe mesmo uma versão PTS (Public Test Server) para testarem ocasionalmente melhorias e adições de conteúdo, que a produção vai introduzindo em formato Alpha e Beta. Contudo, mais que expandir a experiência, penso que era bom remodelar ou até reconstruir as bases visuais e de jogabilidade deste título. Vejamos o que a produção nos reserva nos próximos meses.

Fica claro que a chegada de Playerunknown’s Battlegrounds à PlayStation 4 não é apenas uma manobra comercial para trazer mais jogadores ao título (que obviamente é). Esta é também uma oportunidade para os jogadores da PS4 experimentarem uma visão mais simples e mais visceral de um género tão popular. Isto, no jogo que, para todos os efeitos, o impulsionou. Se mais nada fizer, pelo menos chega a todas as audiências, sobretudo depois de ter passado até mesmo pelos dispositivos móveis.

Contudo, a jogabilidade de PUBG pode não agradar a todos os fãs de Battle Royale. Não tem a interacção mais acessível, a precisar de uma revisão de lógicas e de mecânicas. Exige uma dedicação que, se calhar, nem todos terão disposição de dar. E graficamente também não é um jogo brilhante, onde nem sequer ajudará o facto de terem uma PS4 Pro lá em casa. Mesmo assim, haverá sempre quem prefira PUBG, o tal Battle Royale original, exactamente por ser tão diferente. Agora também na PS4… finalmente.