Este artigo pertence à rubrica “Jogos que completam 20 anos em 2018”, onde abordamos não só jogos memoráveis como também jogos que tiveram um grande impacto na indústria. Por cá, já passaram um famoso jogo de corridas, um shooter, um Point and Click e um jogo de aventura muito popular. Hoje é dedicado a um grande título de estratégia.

Depois de nos entregar um excelente jogo de estratégia com batalhas entre Humanos e Orcs, a Blizzard levou-nos para o espaço, num tema mais futurista e com humanos a combater contra duas raças de alienígenas. Escusado será dizer que StarCraft foi um fenómeno em todo o mundo. Com as suas três facções perfeitamente equilibradas, uma campanha incrível e um modo online que contribuiu para o que hoje chamamos de eSports.

Tanto o StarCraft original como a sua expansão Brood War, foram lançados em 1998. Como tal, vamos combinar os dois títulos num único artigo. Não só porque a expansão ajudou a melhorar o conceito, como veio cimentar toda a vertente competitiva que conhecemos hoje nos videojogos. Vamos então perceber como StarCraft se tornou um jogo de culto.

A história principal acompanha a guerra entre três espécies galácticas: os adaptáveis Terrans, a consciência coletiva artrópode Zerg e os guerreiros humanóides com tecnologia psíquica Protoss. Toda a história é apresentada através do manual do jogo, sendo que o briefing de cada missão é feito através de cenas intermédias antes de cada nível. O jogo está dividido em três episódios, cada um específico a cada raça, algo que iremos abordar mais à frente.

A ideia surgiu numa altura em que a produtora pretendia diminuir o espaço entre lançamentos dos seus jogos. Contudo, como devem imaginar, nessa altura a produtora estava longe dos recursos que tem hoje em dia. Foi então idealizado como uma expansão para Warcraft, mas que pudesse funcionar em separado desse jogo (standalone), usando-o apenas como base. Desta forma não precisavam de construir nada raiz e até podiam aproveitar recursos já existentes para lançar o jogo em apenas 12 meses. Tendo o Natal de 1996 como principal objectivo.

Da esquerda para a direita: Protoss, Zerg e Terran.

Depois de já terem abordado o tema de fantasia medieval e com o seu rival Command and Conquer ter grande sucesso com o seu tema militar, a única opção era clara: criar uma espécie de “Orcs no espaço”. As primeiras versões usavam a mesma perspectiva de Warcraft, mas a arte em si era um pouco diferente. Deixava de parte os verdes e os castanhos dos terrenos e optava por uma mistura de tons rosa, roxo e azuis brilhantes. Isso fez com se destacasse, realmente, mas não pelas melhores razões.

O jogo foi apresentado na feira E3 de 1996 e a Blizzard viu-se no meio do que só pode ser descrito como um “desastre” técnico, um perfeito contraste com o seu jogo anterior. Ninguém ficou propriamente um fã da arte do novo jogo. As duras críticas que a produtora recebeu durante o certame, fez com que acabasse por retirar a primeira versão de StarCraft dos computadores em exposição na feira, trocando-o pelo familiar RPG Diablo.

Depois desse desastre e com o ego ferido, a equipa ficou mais decidida que nunca a trabalhar no jogo. Acabou por descartar por completo o que tinham e começaram um novo projecto de raiz. Mais do que nunca, tinham de provar que a sua veia criativa estava saudável e que o conceito era viável. Bob Fitch, o responsável pela equipa de programação, decidiu recriar todo o motor gráfico de StarCraft por si e no tempo recorde de apenas dois meses. Com um novo motor gráfico, a equipa teve de voltar à fase de conceito para rever toda a arte do jogo, de acordo com as capacidades do novo motor.

Foi então que surgiu a possibilidade de criar três facções diferentes para jogar. Cada uma teria uma jogabilidade distinta, dando lugar a uma guerra civil espacial com o melhor “equilíbrio assimétrico” alguma vez criado. Ao contrário da série Warcraft, a raças presentes em StarCraft são radicalmente diferentes.

Os Terran têm Marines, capazes de se moverem e usarem diferentes tipos de armas. Os Zerg, têm os Zerglings, que permitem criar uma espécie de enxame de xenormorphs que podem desfazer um grupo de infantaria em segundos. Por fim, os Protoss têm o Zealot, um guerreiro alienígena equipado com uma lâmina que pode enfrentar sozinho um grupo de Zerglings, mas é lento e vulnerável a ataques de longo alcance. Nenhuma raça tem unidades semelhantes e nenhuma delas desfruta da mesma estratégia dos restantes.

No dia 31 de Março de 1998, o jogo foi finalmente lançado e provou ser um grande sucesso. Só no primeiro ano, foram vendidas 1,5 milhões de unidades e a crítica era unânime, sugerindo que StarCraft se tornasse num molde para os futuros jogos de estratégia. Hoje em dia, o jogo na sua versão clássica ainda tem um grande grupo de fãs, maioritariamente devido ao seu modo multi-jogador.

A plataforma Battle.net ajudou bastante nesta popularidade. Afinal de contas, na época, não havia forma mais rápida e directa de ligar jogadores de todo o mundo através de poucos cliques. A plataforma estava incorporada dentro do jogo, funcionava muito bem com todos os tipos de ligação, mesmo com as ligações mais antigas ou mais lentas. A única exigência era ter a actualização mais recente do jogo. Curiosamente a Blizzard continuou a lançar actualizações para o seu StarCraft durante 12 anos.

Starcraft acabou não só por se tornar popular na Europa e nos Estados Unidos mas, curiosamente, foi na Coreia do Sul que bateu recordes. Para terem uma noção, das 9,5 milhões de unidades vendidas que há registo, 4,5 milhões foram vendidas na Coreia. Lojas e organizadores de eventos locais aproveitaram a febre para criar torneios. E rapidamente surgiu por lá toda uma industria à volta da vertente mais competitiva do jogo, criando um padrão para organização de eventos online. Por cá, iriam demorar alguns anos até que alguém percebesse o potencial à volta deste novo conceito de eSports.

A título de curiosidade, as televisões Sul Coreanas chegaram a ter direitos de transmissão de sessões de Starcraft, com transmissão de partidas durante 24 horas. Em 2005, 120000 pessoas juntaram-se num estádio para assistir a um grande torneio de StarCraft. Foram mais 40000 espectadores que o famoso Super Bowl nos EUA recebeu nesse mesmo ano. Foi este rápido interesse nos eSports Coreanos que permitiu aos seus melhores jogadores passarem terem um salário fixo, patrocínios de marcas e grande prémios monetários.

Hoje em dia, StarCraft tornou-se num sinónimo do género RTS (Real Time Strategy), numa altura que os demais produtores ainda estavam a tentar descobrir o que poderiam fazer para inovar. StarCraft foi como um estímulo que ajudou a definir as mecânicas que hoje temos como garantidas em vários jogos deste género. Parte da sua atracção está no seu equilíbrio brilhante que faz com que não exista uma estratégia perfeita ou um jogador supremo. Com o decorrer dos anos, outros títulos tentaram a sua sorte. No entanto, mesmo com algum sucesso temporário, ninguém conseguiu manter a chama como a Blizzard conseguiu com o seu StarCraft. O tal que ninguém gostou no início…

Hoje em dia, podem descarregar gratuitamente o primeiro StarCraft através do site da Blizzard. Está também disponível para venda uma remasterização do jogo lançada em 2017. Sobre essa versão, dissemos na nossa análise que “esta reedição com grafismo, áudio e diálogos remasterizados, mantém todos os pormenores de jogabilidade intactos”. Torna-se assim a melhor edição possível deste jogo.