Este artigo pertence à rubrica “Jogos que completam 20 anos em 2018“, onde recordamos não só jogos memoráveis, como os títulos que tiveram um grande impacto na indústria. As próximas linhas, serão dedicadas à obra-prima de Hideo Kojima, mas a rubrica já conta com outros jogos que também deixaram a sua marca.

Quando Hideo Kojima trouxe a sua série Metal Gear Solid para a PlayStation, estava longe de imaginar que iria criar uma moda dos jogos se tornarem mais “cinematográficos”. Hoje em dia temos excelentes exemplos de como os jogos ficaram mais próximos do cinema, com os momentos explosivos de Uncharted, a excelente narrativa noir de Heavy Rain, o dejá vu policial de Need for Speed ou em muitas cenas intermédias de muitos jogos conhecidos. Antes de todos esses títulos, porém, Metal Gear Solid incorporou estes elementos de forma exemplar. Isto aconteceu há 20 anos, conquistando meio mundo com umas das melhores introduções de sempre.

Metal Gear Solid ajudou também a definir o estilo de acção indirecta e furtiva. Curiosamente, mesmo sendo um dos primeiros nesse género, não é normalmente recordado como sendo das melhores contribuições para as mecânicas furtivas na indústria, algo que aconteceu, por exemplo, com Thief: The Dark Project. O primeiro MGS é mais conhecido pelas tais opções de estilo cinematográfico. As suas longas e numerosas cenas intermédias foram criadas com técnicas de cinema e aperfeiçoadas pelos actores que emprestaram as vozes às personagens. Tornaram-se o principal motivo para o seu sucesso, mesmo que houvesse muito mais para descobrir na pele de Solid Snake.

Nos dias que correm, a série é uma constante das consolas PlayStation, mas as aventuras de Solid Snake e companhia começaram no longínquo ano de 1987 nos computadores MSX. O primeiro título Metal Gear contava com imensas ideias que mais tarde se tornaram imagens de marca ao longo da série. Entre elas, receber conselhos e mensagens através de rádio Codec e perceber que a melhor ferramenta para se infiltrar numa base inimiga era uma caixa de cartão. Foi lançada uma sequela em 1990, mas foi só depois de um hiato de 8 anos e que chegou a ser a série de culto que conhecemos hoje.

Hideo Kojima, começou o desenvolvimento de Metal Gear Solid em 1995, como uma sequela directa ao seu antecessor Metal Gear 2: Solid Snake. Kojima escreveu, produziu e realizou todo o jogo com uma intenção grandiosa: criar o melhor jogo de PlayStation de sempre. A atenção aos pormenores era tanta que, durante a produção, uma equipa SWAT, demonstrou o uso correcto de armas e veículos. O visionário Kojima queria que o jogador acreditasse no mundo virtual que tinha sido criado por ele. Segundo as suas palavras, se esse objectivo não fosse alcançado, não haviam motivos para fazer o jogo.

A história, leva-nos para o ano de 2005, durante um exercício de treino na base Shadow Moses, no Alasca. A unidade FOXHOUND, comandada por Liquid Snake, opôs-se ao governo americano, utilizando a próxima geração de Forças Especiais e o novo protótipo de veículo bípede Metal Gear REX. Liquid ameaçava a paz mundial caso as suas exigências não fossem atendidas: mil milhões de Dólares e os restos mortais do mercenário Big Boss (derrotado no jogo anterior). Para reverter a crise, Roy Campbell foi chamado a intervir e tomou a decisão de trazer Solid Snake de volta da sua reforma para salvar novamente o mundo de um holocausto nuclear.

O grafismo foi considerado bastante interessante na sua época. Contudo, como qualquer jogo construído em polígonos da altura, o seu aspecto hoje está um pouco datado. É, talvez, a única área em que não passa no teste do tempo. Mesmo assim, se se conseguirem abstrair desse facto, encontrarão uma jogabilidade muito realista. Aí, o jogo mantém-se em forma ainda nos dias de hoje. Kojima e o seu conselheiro militar, Motosada Mori, trabalharam arduamente para garantir que os aspectos de combate eram autênticos, como no uso de armas com silenciador, granadas chaff (EMP) e detectores de minas. Tudo foi recriado de modo a garantir uma simulação mais autêntica. Contudo, também houve espaço para exageros normais,  como no caso do uso da nanotecnologia, por exemplo. Mas, sempre com muitos detalhes intrincados e pormenores para o jogador “acreditar”.

Mesmo sendo usada uma perspectiva aérea na terceira pessoa, que mostra grande parte da acção, tudo é muito pessoal quando estamos na pele de Solid Snake. Há uma grande sensação de controlo sobre o que estamos a fazer. Foi aí que, de facto, o jogo mostrou-se realmente diferente. Era possível encostar às paredes para esquivar dos campos de visão, podíamos bater na parede para chamar a atenção dos guardas e não podemos esquecer que as pegadas deixadas na neve podiam depois guiar os guardas até nós. Não havia nada assim na época. E, apesar de serem mecânicas e lógicas banais hoje em dia, em 1998 foi um factor diferenciador.

Claro que, se quisessem mais realismo não estariam com o comando na mão em frente à televisão. Hideo Kojima sabia disso como ninguém e há enumeras ocasiões onde o jogo quebra a quarta barreira com algum humor. Muito provavelmente, dos momentos mais memoráveis do jogo aconteceram na presença do vilão Psycho Mantis. Em inúmeros encontros que temos com esta personagem ao longo da aventura, demonstra as suas habilidades psíquicas ao ler os saves que temos no Memory Card e até faz os comandos da consola vibrarem à sua ordem. Para terem uma ideia, para derrotá-lo é necessário colocar o comando na porta do segundo jogador. Só assim evitamos que Mantis antecipe os nossos movimentos.

Recordo quando Revolver Ocelot nos diz para carregar freneticamente no círculo e não usar um comando com Turbo, senão irá electrocutar-nos implacavelmente. É este tipo peculiar de criatividade que faz falta aos jogos modernos. Ainda é surpreendente como o clima muda de algo sério para momentos de comédia subtil. Por causa destes pormenores que nos colocam um sorriso na cara, nenhum outro jogo consegue acompanhar Metal Gear Solid. Por outro lado, demonstram como Kojima foi bem sucedido no seu objectivo de criar um jogo que fosse bem mais que um mero jogo de tiros. Cada som da orquestra, cada diáogo e em todos os momentos de acção, directa ou furtiva, foram excepcionalmente executados.

Metal Gear Solid mantém-se como um marco na forma como uma história deve ser contada num videojogo. Também soube introduzir uma geração ao género de acção furtiva muito realista. O magnum opus de Hideo Kojima tornou-se um nome muito importante para a indústria e recebeu várias sequelas nas futuras PlayStation (e não só). Contudo, os fãs mantém este título como um dos favoritos, devido à sua história, personagens memoráveis e pela forma como o hardware tão limitado foi usado. A série já conta com 30 anos e continua em boa forma, apresentando qualidade na maioria dos jogos lançados. Um feito raro com tantos anos de mercado, a conseguir atrair a mesma atenção do público e manter o interesse. Seja o título em 2D, 3D, linear ou em mundo aberto, com ou sem Kojima que, entretanto deixou a Konami e a série Metal Gear.

Hoje em dia, podem jogar este título através da versão digital que tem um custo de 9,99€ e também pela colectânea Metal Gear Solid Legacy Collection que está disponível em disco. Ambas as versões são compatíveis com PlayStation 3, PSP e Vita. Há também um port para PC disponível que surgiu envolto em alguma polémica, uma vez que omite várias cenas do jogo, incluindo a que menciono acima com Psycho Mantis.