Este artigo pertence à rubricaJogos que completam 20 anos em 2018”, onde abordamos títulos memoráveis e que, de certa forma, deixaram a sua marca na indústria até aos dias de hoje. Por cá, já passaram títulos como Gran Turismo, Half-Life e Grim Fandango. Hoje temos um jogo de aventura que marcou uma geração.

Sete anos na cabeça de Shigeru Miyamoto e mais de dois anos e meio de desenvolvimento para a criação do jogo que acabaria por criar as bases do género de aventura 3D para sempre. The Legend of Zelda: Ocarina of Time foi o salto da saga para as três dimensões, numa época em que as regras desse conceito começavam a ser definidas.

Ocarina of Time, é considerado por muitos um dos melhores jogos de todos os tempos. É a primeira aventura de Link na Nintendo 64 e tornou-se num dos jogos mais influentes da sua geração. Possui um vasto mapa aberto, batalhas memoráveis, excelente grafismo e uma jogabilidade engenhosa. Vamos então recordá-lo e perceber como chegou ao estatuto que tem na actualidade.

Desde o seu anúncio que percebemos que integrar o legado de A Link to the past e Link’s Awakening no complexo mundo a três dimensões, seria uma tarefa complicada. O jogo acabou por falhar a sua data de lançamento por uns módicos dois anos. Mesmo assim, desde que ouvimos a melancólica música inicial e vimos Link a trote pelos montes, que percebemos imediatamente que a Nintendo estava à altura do desafio. E, ainda hoje, esta aventura raramente decepciona quem a joga.

O jogo começa na aldeia de Kokiri, um nível de introdução que é brilhantemente simples e funcional. Ao invés de nos apresentar uma lista de instruções ou comandos, Ocarina tem início nesta aldeia completamente aberta e segura, com um claro convite para a explorar desde os primeiros segundos. Existem baús para encontrar, pessoas com quem falar, erva para cortar, uma masmorra de treino e, quando damos por nós, já passaram várias horas até sentirmos a necessidade de avançar desta zona. Assim que deixamos Kokiri para trás, todo o mundo abre os seus horizontes e é um dos momentos memoráveis deste título.

Os jogos de Zelda sempre foram épicos, mas foi este que alcançou uma escala capaz de transmitir grandiosidade. Ao longo de vários quilómetros é possível ver um castelo, uma fortaleza, bosques, montanhas e até um rancho. E enquanto exploramos estas extensões de terreno, notamos a iluminação do mundo a mudar, chegando gradualmente à noite. Os títulos lançados até essa altura, até mesmo os melhores e mais aclamados, nunca tinham apresentado um visual tão intrincado.

E, claro, numa aventura não podem faltar desafios. Para além de existirem inimigos como esqueletos, lobos, fantasmas e muitos outros tipos, Hyrule tem ainda as famosas masmorras. Conhecidas aqui por templos, apresentou os seus míticos quebra-cabeças, cujas soluções são tão elegantes que surpreendem até os mais experientes. O templo de água ainda é, possivelmente, um dos melhores desafios alguma vez presentes num jogo de aventura em 3D. Quem passou por ele, saberá certamente ao que nos referimos.

O grande inimigo final desta aventura era Ganondorf, a forma humana de Ganon, o grande rival de Link. Nesta aventura, não apenas raptou a Princesa Zelda, como também quer apoderar-se das três partes da Triforce. Cabe ao jovem Link resgatar Zelda e evitar a destruição de Hyrule, numa aventura que nos levará a alternar entre o Passado e o Futuro, de forma repetida.

Para muitos, o verdadeiro trunfo de Ocarina of Time estava nesta ligação entre dois mundos através de cronologia. Sem portais ou substitutos. Apenas um intervalo de sete anos, onde jogávamos com o jovem Link ou com Link adulto, neste caso, num mundo dominado por Ganondorf.

Este título também é um excelente exemplo de um jogo produzido a pensar numa consola em particular e contornando todos os seus limites. Os templos, as cidades e as personagens eram completamente tridimensionais, mas os interiores da casa e algumas aldeias eram pré-renderizados com ângulos de câmara fixos. em 3D. Esta abordagem servia para contornar algumas das limitações impostas pelo sistema, principalmente no limite de espaço dos cartuchos. A tal ponto que a Nintendo teve de produzir um novo cartucho com 265 MB de memória.

E para além do ambiente em 3D houve ainda espaço para mais melhorias e novidades interessantes. Haviam fatos com diferentes cores para dar certas habilidades a Link, como por exemplo respirar debaixo de água. A ocarina, o instrumento que dá o nome a esta aventura, funciona como uma ferramenta que desafiava o espaço e o tempo, chamava amigos, teleportava-nos para zonas remotas e conseguia ainda levar Link para o futuro.

Não podemos esquecer a mítica companheira Epona, a mais fantástica forma de deslocação por Hyrule. A égua de Link é um claro atestado de como o mundo se tornou enorme, mas a relação entre ambos é carinhosa e gentil, o que a torna num animal quase real antes de percebemos o quão útil se tornou. É no salto sobre a cerca da Lon Lon Ranch que nos apercebermos que a exploração de Hyrule nunca mais será igual.

Vale ainda relembrar que esta aventura utilizava de forma excepcional o comando da N64. O botão C dava acesso ao inventário e à ocarina, enquanto que o botão Z permitia uma mudança rápida entre movimento e combate. Os saltos automáticos eram outra mecânica bem esquematizada. Link saltava automaticamente ao chegar à berma de qualquer superfície, como se tratasse de uma acção natural.

Graças a todas estas inovações, The Legend of Zelda: Ocarina of Time foi aclamado pela crítica, recebeu diversas notas máximas e conseguiu vender mais de 9 milhões de cópias. Nos Estados Unidos da América, a primeira edição do jogo em cartucho dourado, esgotou logo durante a pré-encomenda, algo raro naquela época. Não há muito mais que possa dizer sobre este jogo. Foi um feito magnífico em 1998 e, duas décadas depois, ainda é um marco na série e nos próprios jogos de aventura em 3D.

Hoje em dia podem (re)viver esta aventura através da Virtual Console na Wii, Wii U e 3DS. Um remake acabou por ser desenvolvido em exclusivo para a Nintendo 3DS, com o nome The Legend of Zelda: Ocarina of Time 3D, que conta com melhor grafismo, perspectiva na primeira pessoa, guias para passar os quebra-cabeças e todos os cenários pré-renderizados da N64 em três dimensões.