Este artigo faz parte da rubricaJogos que completam 20 anos em 2018” onde abordamos títulos memoráveis e que de uma forma ou de outra, tiveram um grande impacto na indústria. A aventura de hoje é uma das mais memoráveis do final dos anos 90 e vão já perceber porquê.

Foi em 1998 que nos chegou Heart of Darkness, um jogo de plataformas desenvolvido pela Amazing Studios, fundada por Éric Chahi e alguns membros da Delphine Software Internacional, entre eles Frederic Savoir. Estes dois nomes podem passar despercebidos mas, se vos disser que foram os responsáveis pelos brilhantes Another World e Flashback, respectivamente, já terão uma noção da qualidade da aventura que vamos falar hoje. Heart of Darkness tinha cerca de 30 minutos em cenas intermédias pré-renderizadas, centenas de animações para as personagens, níveis engenhosamente bem estruturados e uma dificuldade a roçar a de Dark Souls.

Neste jogo, acompanhamos um jovem chamado Andy, que não é um rapaz com outro qualquer. Tem medo de tudo, até mesmo do escuro. Certo dia, enquanto leva o cão Whiskey a passear até ao parque, este é raptado durante um eclipse por uma criatura desconhecida. Sem hesitar um único minuto, Andy corre para o seu esconderijo onde estão várias das suas engenhocas, incluindo uma arma capaz de vaporizar o que atinge. E, claro, uma nave que permite-lhe voar até ao planeta para onde Whiskey foi levado.

Para salvar o seu amigo de quatro patas, Andy terá agora de enfrentar todos os seus medos, atravessando os oito mundos disponíveis. O improvável herói tem de lidar com várias armadilhas e enfrentar vários tipos de inimigos, todos eles vindos directamente da sua imaginação, enquanto lida com os seus muitos medos.

Podíamos dizer que este é um “Cinematic Platformer”, querendo com isto dizer que deixa de parte a ênfase no combate, dando-nos níveis não lineares e as técnicas de backtracking implementadas por Castlevania ou Metroid. Diria que se foca principalmente na diversão do jogador. Contudo, esta diversão poderá não ser assim tão óbvia, uma vez que pode ficar limitada com a acentuada dificuldade na jogabilidade.

Posso dizer-vos que, enquanto o jogava para escrever este artigo, perdi a conta às vezes que morri nos primeiros níveis. Felizmente, é um jogo com vidas infinitas e com imensos checkpoints espalhados pelos seus níveis. Quando morremos, sabemos que foi por culpa nossa, por exemplo num salto mal calculado ou com um inimigo que subestimamos. Isso obriga-nos a melhorar cada vez mais e a memorizar todo os passos. Até que, eventualmente, será possível terminar o nível de forma perfeita. E não há sentimento mais recompensador que esse.

Uma das melhores atracções desta sombria aventura são as inúmeras formas em que Andy pode morrer. Pode ser devorado por sombras, afogado, transformado em cinzas, comido por plantas carnívoras ou até mesmo esmagado por rochas. Todas estes fins possuem animações soberbas e únicas para cada um dos casos. Por causa destas mortes, surge a preocupação com os mais novos. O jogo não recebeu uma recomendação PEGI por ainda não existir na época. Mesmo assim, nos EUA a identidade responsável pela classificação etária (ESRB), atribuiu-lhe uma classificação para “Everyone”, o que é curioso tendo em conta toda a violência gráfica latente.

Enquanto recordava esta aventura, nunca me senti perdido. Os níveis são  lineares e foram todos bem estruturados, o que torna intuitivo perceber o caminho que devemos seguir. Existem alguns quebra-cabeças engenhosos mas não demorarão muito tempo a resolvê-los. Também é bastante criativo a misturar as suas sequências de acção com os quebra-cabeças. Mal chegamos ao planeta, por exemplo, Andy dá uso à sua engenhosa arma, vaporizando todos os que se cruzam à nossa frente. Contudo, quando acaba por ser devorada por uma das criaturas, damos por nós a correr e a saltar para sobreviver. Assim que escapamos, temos mais um puzzle para resolver.

O grafismo é um ponto alto neste jogo. A fluidez nas animações ajudaram a destacar-se dos restantes títulos. Para terem uma noção, só a personagem Andy tinha cerca de 1500 frames para as suas animações, tornando-as incrivelmente fluídas. Os cenários foram todos pré-renderizados, uma outra grande aposta que fornecia ao ambiente geral um aspecto mais realista. Isto, para a época, claro.

A banda-sonora é outro ponto a favor. Composta por Bruce Broughthon e pela London Symphony, ajuda a complementar todo o ambiente do jogo. Heart of Darkness podia ter sido também o primeiro jogo a possuir uma banda sonora executada por uma orquestra mas, infelizmente, devido à sua longa produção de 6 anos, acabou por não ser o primeiro. Contudo, podemos dizer que as suas cenas intermédias pré-renderizadas foram realmente pioneiras. Recordo-me ainda que as versões para PC e PlayStation traziam consigo óculos tridimensionais para assistir ao último vídeo do jogo. Genial.

Apesar da sua grande qualidade, Heart of Darkness é normalmente esquecido, principalmente porque também nunca foi reeditado como aconteceu com Another World, por exemplo. Éric Chaci afastou-se da indústria dos videojogos uns anos devido às complicações geradas na produção deste título, o que originou também o desaparecimento da produtora Amazing Studios. Apesar de todo esse azar, Heart of Darkness é um jogo que deveriam experimentar. Principalmente se forem fãs de jogos de plataformas.

Hoje em dia, vai ser muito difícil encontrar este título. Na versão PlayStation, recomendo que o adquiram através dos sites habituais de vendas em segunda mão ou leilões. Não se vão arrepender.