Este artigo pertence à rubricaJogos que completam 20 anos em 2018” que iniciámos com Gran Turismo e por onde passou também Half-Life. Nestes artigos abordamos, não só títulos marcantes, alguns também dos que tiveram um grande impacto na indústria.

Os jogos de aventura Point and Click foram outrora o ex-libris da produtora LucasArts. Eventualmente, com o rápido crescimento dos jogos em três dimensões no final da década de 90, esta produtora viu a necessidade de aplicar esse novo conceito nas suas aventuras. E foi por essa altura que surgiu Grim Fandango, um jogo muito criativo e com grandes avanços tecnológicos para a sua altura. O lançamento de Grim Fandango foi uma experiência agridoce. Ajudou a cimentar a LucasArts como a “Rainha” dos jogos Point and Click mas também foi o último jogo do género para esta produtora. O fim desta era levou mesmo ao cancelamento de duas sequelas.

Grim Fandango era um jogo estranho e não havia nada igual na sua época. A sua história abordava a morte de forma muito criativa e conseguia combinar a estética sombrie de filmes “noir” policiais com o clima festivo do Dia dos Mortos, uma celebração típica do México. Jogamos no papel de Manuel Calavera, mais conhecido por Manny, que trabalha numa agência de viagens no chamado Underworld. Só que esta não é uma agência qualquer. Trata-se do Departamento da Morte e aqui os viajantes trocam as suas boas ou más acções enquanto vivos, por um bilhete só de ida para o 9º Underwold. Com a troca de boas acções, conseguem fazer a viagem em quatro minutos, mas com más acções, acabam a viajar a pé durante quatro anos.

O protagonista está numa maré de azar, visto que todas as almas que o contactam acabam por fazer a viagem de quatro anos. Com resultados tão maus, o seu despedimento está à vista. Desesperado, Manny decide roubar uma cliente, de nome Mercedes “Meche” Colomar, a um colega, acreditando que finalmente tem um cliente de qualidade. Só que nem tudo é o que parece e acaba por se envolver uma rede de conspiração e tráfico de almas. Algo que terá de ser resolvido numa aventura dividida por quatro capítulos.

Este título era ambicioso em quase todos os aspectos, desde as referências ao cinema, à inteligente trama. Tendo em conta que a LucasArts estava ainda a aprender a passar as suas aventuras para este novo mundo a três dimensões, mantendo a sua aptidão para histórias ricas e personagens carismáticas, podemos dizer que foi bem sucedido em todos os seus objectivos. Pode-se dizer que este sucesso é devido à sua criatividade aliada aos quebra-cabeças desafiantes e às personagens memoráveis.

Coube a tarefa de liderar este novo projecto a Tim Schafer, que já tinha também trabalhado no bem sucedido Full Throttle. O director também já tinha trabalho noutros títulos neste género ao longo da sua década na LucasArts. E certamente já ouviram falar de Day of the Tentacle, The Secret of Monkey Island ou Monkey Island 2: LeChuck’s Revenge, estes apenas alguns dos títulos em que Schafer trabalhou. Contudo, este foi o seu último projecto, sendo também o que o lançou para o estrelato depois de ganhar inúmeros prémios.

Se bem se recordam, os jogos de aventura Point and Click, como esta sua designação indica, são jogados com a ajuda de um rato que “aponta e clicka”. Com o cursor, podemos dar a ordem para a personagem andar ou mudar as diferentes acções para interagir com o cenário. Contudo, Grim Fandango veio mudar um pouco esse conceito introduzindo uma nova nova lógica. Os puristas do género não ficaram muito agradados ao descobrirem que, afinal, teriam de jogar também com o teclado para controlar Manny.

Este esquema de controlo foi decidido por Schafer porque, segundo indicou à revista Retro Gamer, na altura da concepção do jogo, estava a jogar títulos como Tomb Raider, Final Fantasy VII e Super Mario 64. Estes jogos deram a entender que se tornaria muito mais fácil e natural controlar uma personagem com o recurso a um controlo analógico. O único problema é que estes jogos da LucasArts foram apenas lançados para o PC. E, apesar de alguns serem compatíveis com comandos, foram desenhados para uso convencional de teclado e rato. Daí a opção de usar teclas do teclado para o movimento, algo que ainda hoje é usado nos jogos modernos neste género.

Em relação ao grafismo e para atingir o pretendido efeito tridimensional, Schafer e a usa equipa tiveram de deixar de parte o velhinho motor SCUMM, que deu vida a todas as anteriores aventuras da LucasArts. A opção foi criar um motor feito à medida que chamaram de GrimE (Grim Engine). Este motor tinha como base o Sith Engine, o mesmo usado em Jedi Knight: Dark Forces II. Este novo motor gráfico adaptado permitia ter os modelos renderizados através de polígonos e a movimentarem-se livremente pelo cenário tridimensional. Esta evolução resultou num grafismo impressionante para a altura, inédito neste género, pelo menos.

Para todos os efeitos, Grim Fandango foi um jogo fenomenal, com a crítica unânime na sua qualidade, dando-lhe prémio de Melhor Jogo de Aventura da PC Gamer, Jogo do Ano na GameSpot e ainda Melhor Aventura do Ano do site IGN. Mais tarde, acabou também por surgir em várias listas dos melhores jogos de diversos sites e revistas da especialidade. Infelizmente, apesar desse sucesso crítico, as suas vendas não atingiram os objectivos ditados pela produção. Estima-se que tenha vendido cerca de 100 mil cópias. A explicação terá a ver com o fim da era do “point and click” depois de uma quebra acentuada na sua base de fãs. Com estes resultados, a LucasArts decidiu, não só cancelar possíveis sequelas de Grim Fandango, como também as demais próximas aventuras que estavam planeadas, entre elas, a sequela de Full Throttle.

Contudo, nem sempre os jogos são colocados definitivamente na prateleira. Apesar das suas fracas vendas, eventualmente e com o passar do tempo, Grim Fandango tornou-se num jogo de culto. E esta popularidade improvável é muito devida aos fãs incondicionais que não deixaram que o título caísse no esquecimento. Alguns fãs mais sérios conseguiram até corrigir alguns dos problemas crónicos do jogo, lançando algumas actualizações não oficiais. Lembram-se da tal polémica de usar o teclado como meio de controlo de Manny? Pois bem, alguns desses insatisfeitos até criaram um mod para jogar apenas com o rato.

Finalmente, em 2015 Tim Schafer conseguiu finalmente obter permissão da Disney, a detentora da licença de Grim Fandango, para trabalhar não só neste título, como em vários outros da agora extinta LucasArts. Com essa permissão, Schafer partiu para a produção de uma versão remasterizada deste jogo, agora com a sua produtora Double Fine Productions. Esta versão foi lançada para PC, PlayStation Vita e PlayStation 4. Na nossa análise, indicámos que “o jogo honra o original com os gráficos e efeitos virtualmente iguais ao Grim Fandango de 1998”. E não se podia pedir muito mais que isto: poder jogar novamente este clássico de culto, actualizado quanto baste para o hardware actual.

Apesar de ser conhecido por ser um jogo difícil, o seu estilo característico e sua personalidade única, fez com que Grim Fandango se destacasse de todos os jogos do seu género algo saturado. Representou um grande salto em termos de ambição para a equipa que foi apanhada no meio de uma evolução técnica. No final, saíram-se vitoriosos com um título de culto que ainda hoje dá carta. O mesmo não poderão dizer outros jogos da altura, mesmo dentro do batido género de “Point and Click”.

O Grim Fandango original logicamente só poderá ser jogado com os discos originais (dois CD-ROM). Contudo, é bem provável que seja um desafio para correr em sistemas operativos modernos. Podem obter a competente versão remasterizada via Steam ou PS Store para a plataforma que desejarem usar (PC ou PS4), em ambos os casos com um preço de 14,99€.