Este é o 10° artigo da rubrica “Jogos que completam 20 anos em 2018“, caso tenham chegado só agora, é local onde abordamos jogos memoráveis e que tiveram um grande impacto na indústria. Hoje vamos acelerar a fundo, curvando em slide…

Colin McRae Rally foi lançado em 1998 e marcou o início de uma nova era para os simuladores. Pela primeira vez, os jogadores podiam acelerar pelas pistas reais deste desporto motorizado. Tinham a oportunidade de participar no campeonato do mundo de Rallies, aproveitando um motor de físicas realista e um sistema de danos igualmente inovador. E quem dava nome ao jogo, foi também um marco na história do desporto automóvel.

O piloto Colin McRae, filho de um campeão de Rally, começou a sua jornada em 1987, mas só em 1991 é que ganhou o seu primeiro campeonato. Em 1995, fez história ao tornar-se no mais jovem campeão do mundo do WRC, vencendo o grande prémio desse ano no campeonato mundial de Rallies. A sua incrível performance ao volante do Subaru Impreza deu-lhe notoriedade. Em paralelo, fez com que o seu nome figurasse naquele que é considerado uma das melhores adaptações em videojogo desta competição.

Um Rally é, basicamente, uma corrida contra-relógio através de uma série de caminhos sinuosos. É dividido por etapas que, por sua vez, se dividem em secções e super-especiais. Os adversários não competem ao mesmo tempo, simplesmente arrancam da zona partida com um intervalos temporizados. Há pistas desafiantes em vários pisos, alguns com saltos, outras com passagens estreitas, outras ainda em vales com corpos de água, a roçar ravinas. E, quase sempre, estas etapas estão repletas de obstáculos, entre pedras ou árvores. Adiciona-se ainda os diferentes estados meteorológicos e este desporto motorizado é um dos mais desafiantes do desporto automóvel, com muitos acidentes aparatosos na sua história.

Seguindo o enorme sucesso de McRae nas pistas de gravilha reais, a Codemasters, hoje conhecida como umas das melhores produtoras de jogos de corrida, criou um título com o nome do famoso piloto e com o seu Subaru em destaque na capa. A aposta da produção ficou bem clara nas suas promoções. Queriam um jogo com mecânicas realistas e credíveis, colocando um desafio acima da média para novatos e veteranos. O seu sucesso foi imediato, ditando a base para vários títulos posteriores e até inspirou muitos outros jogos dentro do género lançados até aos dias de hoje.

Foi originalmente lançado para PC e para a primeira PlayStation. Custa acreditar mas, nesta época haviam muito poucos simuladores de condução. Quase todos apostavam em condução facilitada, estilo Arcade. Gran Turismo, um exemplo de um outro jogo mais a roçar a simulação e que também já recordámos, foi lançado apenas alguns meses antes.

Talvez a única comparação que podemos dar para aquela altura fosse SEGA Rally Championship, lançado em 1995 para a consola SEGA Saturn. Esse foi o primeiro jogo que mostrou a diferença de conduzir em pisos diferentes entre a lama, o asfalto e a gravilha. A Codemasters chegou mesmo a usar esse título da SEGA como inspiração, mas apostou em adicionar-lhe mais realismo.

CM Rally era baseado no campeonato WRC de 1998 com 12 pilotos reais e com os seus respectivos carros. Também recriou os diferentes Rallies e etapas num total de 8 países. Depois, foram as tais físicas de condução que já mencionei, com o próprio piloto Colin McRae a ser um importante consultor durante toda a produção do jogo, oferecendo dicas técnicas e explicando como os carros deveriam responder nos diversos tipos de superfícies.

Antes de ir para a pista, porém, os novos pilotos eram convidados a ir à escola de Rally. Aqui, a voz do piloto explicava como deveriam controlar o carro e abordar cada tipo de curva. Tudo isto era feito ao longo de várias lições num espaço amplo com pinos a definirem os trajectos de cada lição. Não havia desculpa para esbarrar nos muros ou nas árvores. Notem que a dificuldade desta escola era acentuada, com o objectivo de apurar a destreza dos jogadores.

Depois de graduados, os pilotos podiam escolher um carro e o seu respectivo piloto para começar o campeonato ao lado de nomes como Tommi Mäkinen, Carlos Sainz ou Richard Burns. Em pista, o controlo do carro era diferente dependendo da superfície que estavam a conduzir. Uma curva do mesmo género em gravilha não podia ser feita da mesma forma que no asfalto. Caso não dominasssem o veículo, iam direitos à árvores. Já para não falarmos do piso em gelo, onde os deslizes eram ainda menos tolerantes. A voz do nosso co-piloto Nicky Grist estava sempre presente com uma serenidade exemplar, enquanto dava todas as indicações da pista.

Ainda apostando no realismo, tínhamos de lidar com o sistema de danos inovador. A cada impacto, mostrava-nos os faróis partidos, pára-choques amolgados ou a saltarem e até as portas a ficarem entreabertas devido aos embates. A câmara de cockpit, saltava e abanava ao mesmo tempo que o carro reagia aos saltos. No final, enquanto assistimos à repetição da nossa prestação, víamos o carro a ficar sujo de lama ou de detritos. Foram todos estes pormenores, entre a cosmética e o efectivo dano mecânico, que ajudaram a destacar o título dos demais jogos de rally.

Também era possível ganhar mais carros ao longo do jogo. No entanto, todos queriam conduzir o famoso Impreza azul de McRae, com todos aqueles dígitos e logótipos amarelos fluorescentes. Pessoalmente, sempre tive um desejo de ter um carro destes na vida real, mas não forçasamente aqueles que conduzi digitalmente no jogo. Esses… estão amolgados demais e muitos deles ficaram ao pé das árvores, por motivos que desconheço…

Por todos os motivos que assinalei, a crítica ficou rendida ao título da Codemasters. Elogiaram o grafismo, o realismo e todo o realismo trazido motor de física. Foi criado de raiz para dar vida à visão da produtora, tendo como base todos os conselhos do piloto profissional. Foi de tal forma bem construído que o editor de pistas do primeiro jogo foi usado até aos mais recentes jogos da série DiRT.

Apesar de Colin McRae nos ter deixado num trágico acidente de helicóptero em 2007, a produtora continuou a usar o seu nome nos títulos até ao recente jogo DIRT 3, lançado em 2011. Apenas o último título dessa série, lançado em 2017,  já não tem o nome de McRae. A sua herança, porém, irá perdurar, tanto no WRC onde deixou uma marca indelével, como nestes jogos que ajudou a criar.

Infelizmente, o primeiro Colin McRae Rally não está disponível para instalação, a não ser pelos discos originais em formato físico. Se desejarem uma cópia, terão de a obter através dos sites habituais de vendas em segunda mão ou leilões.