Este artigo pertence à rubrica semanalJogos que completam 20 anos em 2018”, que iniciámos há três meses. Aqui, passaram já, não só títulos marcantes, como também alguns que tiveram um grande impacto na indústria. Hoje temos um RPG absolutamente essencial.

É com Baldur’s Gate que começa a história da BioWare nos Role Playing Games. Este foi o primeiro título que esta produtora se estreou, abrindo caminho para grandes séries suas como Mass Effect ou Dragon Age. Lançado em 1998, este RPG de fantasia tem lugar num popular universo de Dungeons & Dragons, conhecido por Forgotten Realms. Este foi o primeiro jogo a traduzir correctamente as complexas regras de D&D para um videojogo e ajudou a definir o que é conhecido como a fórmula da BioWare, algo que viria a ser refinado a cada novo RPG desta produtora.

No início, criamos a nossa personagem com um editor bastante completo. Depois, embarcamos numa épica aventura por cidades movimentadas, densas florestas, ruínas e, claro, masmorras labirínticas. Há uma história a seguir, mas podemos acompanhá-la quando e como quisermos. O mapa está repleto de memoráveis aventuras e missões onde podemos escolher se seremos o herói ou o vilão.

O primeiro capítulo encarrega-nos a descobrir mais sobre a nossa misteriosa personagem. O seu pai adoptivo, Gorion, desafia as ordens de nos abandonar, vindas de um vilão de armadura sinistra. A pena pelo não cumprimento é a morte, um sacrifício consciente de Gorion. E é aqui que a nossa jornada começa, para descobrir o nosso passado, perseguir o vilão e vingar a morte de Gorion. A peça central desta história centra-se nos filhos de Bhaal e a trama refere-se ao desenrolar da vida de um desses filhos após a sua saída de Candlekeep.

Escrito desta forma, parece que a história é muito simples. Mas, acreditem, não é mesmo. O desenrolar da trama é capaz de nos segurar até ao fim, desvendando pontos chaves da história em momentos específicos que nos deixam curiosos por mais umas horas.

A memória não me engana. Na sua enorme caixa brilhante, estavam 5 Compact Discs (CDs) prontos a entrar no CD-ROM de quatro velocidades. E enquanto instalávamos a nossa próxima grande aventura, havia um mapa que podíamos consultar para ter uma ideia do enorme mundo em que iríamos mergulhar nas próximas horas. Era como uma espécie de ritual de iniciação para a aventura memorável que se seguiria.

Foi neste mundo que fiquei durante vários dias da minha adolescência, numa altura onde os RPGs ainda não tinham vozes de actores e onde era preciso ler muito, mesmo muito. Baldur’s Gate representou, não apenas o último jogos de RPG com texto extenso, mas também a narrativa mais literal. Ainda hoje é recordado como tendo algumas das melhores linhas de diálogo jamais escritas no mundo dos RPGs, algumas com excelente linhas de comédia pelo meio.

E o espírito de aventura estava presente em todo o lado. Tínhamos tesouros a implorar para serem encontrados e inúmeros locais para descobrir e visitar. Nem assim tão importante o desenrolar da história principal, por existirem tantas outras histórias paralelas que eu queria conhecer antes de descobrir o que havia no passado do nosso protagonista. Para ajudar nesta aventura, havia um total de 25 companheiros que podiam ser recrutados. Contudo, ao contrário de muitos RPGs onde os personagens juram lealdade ao herói independentemente de suas ações e objetivos, muitas das personagens deste jogo eram bastante independentes.

Minsk, por exemplo, juntava-se a nós após um acordo de o ajudar a resgatar o seu parceiro Dynaheir. Só que, se demorasse-mos muito tempo sem seguir essa tarefa, Minsk revoltava-se e atacava-nos sem piedade. Da mesma forma, as outras personagens, abandonavam-nos se fizéssemos algo que os revoltasse ou se a nossa reputação o forçasse. Isto fazia com que sentíssemos que eram pessoas reais, com os seus próprios objectivos e motivações. O mundo dos RPG perdeu um pouco esta ambiguidade de personalidades nos companheiros artificiais de aventura.

Em termos de grafismo, hoje em dia o interface parece um pouco estrangulador, oferecendo demasiada informação e uma área de jogo mais pequena. Obviamente, quando o comparamos com jogos modernos do mesmo género, o salto técnico é assinalável. Sobretudo nas opções minimalistas que vemos nos RPGs modernos, incluindo os da própria Bioware. Contudo, apesar de precisar de alguma optimização, toda aquela informação era útil. E, com o passar do tempo, até nos habituávamos ao que surgia no ecrã.

Os cenários do jogo em si eram pré-renderizados num perspectiva isométrica, bem ao género de Commandos: Behind Enemy Lines, que recordámos a semana passada. Tudo era francamente limitado ao hardware de então, mas ainda hoje podemos apreciar a sua arte obscura. Em termos de som, estávamos perante mais um título do final da década de 90 com uma brilhante banda sonora. Pessoalmente, diria que está ao nível do primeiro Command & Conquer, onde uma simples música é capaz de nos levar para trás 20 anos e fazer regressar todas as nossas memórias de missões e desenlaces num ápice.

O impacto deste título foi tão grande que, no ano em que foi lançado, ganhou 6 prémios para Jogo do Ano e 12 para Melhor RPG do Ano. O seu incrível sucesso também deu origem a uma série de expansões e uma sequela que conseguiu quebrar as regras e ser melhor que o original. Sobre a produtora em si, já sabemos como foi o seu futuro, tornando-se uma referência no restrito “mercado” dos RPGs.

Baldur’s Gate mantém-se como um marco histórico no seu género e não há dúvida que a Bioware arrancou aqui da melhor forma. Trouxe outra vida a Forgotten Realms e tudo devido à grande implementação das regras de Dungeons & Dragons. Se são fãs deste género e de D&D não podem deixar de experimentar este título e fazer parte da enorme legião de fãs que ainda hoje o joga.

Podem jogar este título através do GOG.com e do Steam com a versão Enhanced Edition, esta lançada em 2013 com imensas melhorias visuais, novas quests e três novos companheiros que podem ser recrutados.