Este artigo pertence à rubrica “Jogos que completam 20 anos em 2018” onde abordamos títulos que tiveram um grande impacto na indústria. O jogo de hoje é furtivo, vem bem armado e a sua táctica foi calculada ao pormenor…

Foi em 1998 que vimos nascer a série Rainbow Six. Um jogo de acção no género First Person Shooter, introduziu um realismo e uma abordagem táctica nunca vistos, deixando de parte o combate frenético e as explosões avulsas dos seus concorrentes. Também marcou o início de uma série de adaptações do famoso escritor americano Tom Clancy, estando a cargo de uma pequena produtora chamada Red Storm Entertainment, hoje uma subsidiária da Ubisoft. Clancy era um autor especializado em romances de espionagem, ficção-científica e thrillers militares, fórmulas perfeitas para videojogos. As suas obras mais conhecidas foram adaptadas em jogos, como é o caso de Splinter Cell, Ghost Recon e tantas outras. Contudo, entre os vários títulos, de longe o mais bem sucedido é o que vamos falar hoje.

Este título praticamente criou o sub-género de shooters tácticos, uma variante que tem como objectivo trazer mais realismo ao jogo. Isto inclui um melhor manuseio de armas, maior exigência de precisão e reflexos aprimorados ao jogador, com rápidas tomadas de decisão. Erros que possamos considerar pequenos ou insignificantes, numa boa parte das vezes, são considerados falhas graves. E em muitos casos originam um objectivo falhado, obrigando o jogador a recomeçar a missão.

A história do primeiro Rainbow Six, baseia-se num conceito criado nos livros homónimos de Tom Clancy. Uma espécie de “cavaleiros da távola redonda”, versão moderna a combater o emergente terrorismo por todo o mundo. A história do jogo leva-nos ao “longínquo” ano de 1999, quando um grupo terrorista conhecido por Phoenix Group ameaça os maiores países do mundo com um vírus. É aqui que entra a Team Rainbow, uma unidade especial criada com soldados de elite de vários países, para combater esta ameaça ao longo de 16 missões.

Antes de cada missão, era possível seleccionar os membros integrantes da equipa, todo o seu equipamento, as armas e a função que teriam em combate. Um dos tais pequenos pormenores é logo aqui colocado em jogo: a escolha errada da camuflagem dos soldados poderia condicionar o sucesso da missão. E todo o cuidado era pouco, uma vez que existia um número específico e limitado de soldados disponíveis para todo o jogo. Uma morte, significava menos um soldado na equipa ao longo da campanha.

Após escolher a equipa e equipamento, passávamos para a fase táctica. Eram escolhidas as movimentações que podiam depois ser desenvolvidas no decorrer da missão. Os soldados não se moviam um centímetro se não déssemos ordem para tal. Assim sendo, esta secção funcionava como um jogo de estratégia onde podiam dar todas as ordens possíveis aos membros da equipa. Entre essas ordens, podiam designar o local para onde deviam deslocar-se, o tempo que deviam aguardar ou até mesmo as regras de combate, se deveriam “entrar a matar” ou optar por uma abordagem mais silenciosa.

A estratégia era o ponto-chave nestas missões. Cada comando era minucioso e um planeamento errado podia estragar tudo logo desde início. Estas características tornaram Rainbow Six inovador, em relação aos outros jogos da sua época. A acção não-linear dava-nos uma perspectiva da táctica e tínhamos todo o interesse em preservar a equipa. Obviamente que, depois, podíamos personificar cada elemento e até alternar entre eles em qualquer momento. Se tudo corresse bem, podíamos acompanhar várias perspectivas da mesma acção, numa evolução constante.

Este é um título que pode vangloriar-se de ser o “pai” dos shooters tácticos. Muito já se fez posteriormente neste campo mas, naquela altura, o género FPS estava cheio de heróis quase invencíveis, com precisão demente e com níveis de testosterona acima da média. Tal como Half-Life (lançado no mesmo ano), o jogo de Tom Clancy mostrou que havia outras formas de abordar este género da acção com tiros. A herança destes títulos é valiosa, tendo criado outros jogos e séries para os que procuravam algo menos arcade e mais exigente.

O realismo deste título foi directamente influenciado por ambos os criadores do jogo: o próprio Tom Clancy e um antigo capitão da marinha Doug Littlejohns. Os dois, com todo o seu conhecimento militar, decidiram então criar a tal produtora Red Storm Entertainment. Rainbow Six abriu portas para mais jogos, sendo o mais recente desta linhagem táctica o famoso Rainbow Six: Siege. Este é um atestado de que esta série não parou de angariar jogadores à procura de algo mais táctico.

Foi com o conhecimento amplo dos autores originais que o jogo teve um grande nível de autenticidade e um realismo que quase colocou Rainbow Six no território dos simuladores. Quase. Porque Clancy sempre defendeu que há um limite para o realismo que se cruza com a segurança dos operacionais reais, nem nos seus livros chegou longe demais. Mesmo assim, R6 foi considerado pela crítica como sendo um título sério, sim, mas também desenhado de forma elegante e com especial atenção ao entretenimento. Um equilíbrio que ditou o seu sucesso.

O primeiro jogo de Tom Clancy foi muito bem recebido pela imprensa, elogiando o facto de ser um jogo de acção e estratégia revolucionário. Hoje, enquanto escrevo estas linhas, este Rainbow Six mantém uma incrível pontuação de 85/100 no Metacritic. Em termos de vendas, a versão de PC (apesar de ser a melhor visualmente) até nem foi a mais bem sucedida. A versão da primeira PlayStation, essa sim, vendeu 1,64 milhões de unidades e a da SEGA Dreamcast vendeu 640.000 cópias. Um bom começo para a série e para a produtora, portanto.

Curiosamente, a notoriedade deste jogo foi paralela ao sucesso do livro homónimo e não só. É discutível que meio impulsionou o outro mas, sem dúvida que quem leu o livro quis jogar o jogo e vice-versa. Este sucesso ditou diversas sequelas que mantiveram a fórmula, mas aprimoraram visuais e interacção. O mesmo aconteceu com os livros que se tornaram best-sellers e levaram Clancy ao grande ecrã e tudo. Lembram-se dos filmes “Caça ao Outubro Vermelho” ou “A Soma de Todos os Medos”? Filmes adaptados de obras de Clancy. Curiosamente, nunca tivemos um filme de Rainbow Six mas… já há planos!

Rainbow Six colocava-nos num confronto com uma dúzia de inimigos em vez de duzentos e todos eles podiam ser eliminados com um tiro. Notem que isso também podia acontecer connosco. Um combate começava e acabava num instante, a bem ou a mal. Por isso, era necessário jogar com cuidado. Porque aqui, ganhar não era só uma questão de esvaziar os carregadores e despejar milhares de balas. Aqui vingava a táctica e a estratégia. Por isso mesmo, ganhou uma legião de fãs e recordamo-lo com saudade.

Se quiserem jogar Rainbow Six original de 1998, terão uma versão adaptada a sistemas operativos recentes, com esta à venda no GOG.com. Infelizmente, nas consolas mais recentes não parece haver disponibilidade nas suas lojas, nem mesmo nas versões retrocompatíveis. Terão de tirar o pó à vossa PlayStation original.