Escapámos de Tarkov

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O realismo deste jogo ainda em Alpha é proporcional à brutalidade de sobreviver num mundo hostil.

Quando se fala de “shooters” lembramo-nos logo de duas realidades muito distintas: a dos jogos arcade e a dos simuladores. Escape From Tarkov da Battlestate Games é uma visita a estes dois mundos tão díspares. Vejamos quão difícil é fugir desta cidade tão complicada.

A fórmula para este jogo é relativamente simples: Somos inseridos num determinado ponto na cidade Tarkov e o nosso objectivo é encontrar uma saída para fugir. Até esse momento, estaremos em busca de loot (armas e equipamento, sobretudo) e debaixo de fogo de outros jogadores em busca do mesmo, além de uns quantos sobreviventes controlados por inteligência artificial com um olho certeiro e dedo sempre no gatilho. Assim de repente, certamente se recordarão do grande clássico S.T.A.L.K.E.R., um jogo que ainda hoje nos dá algum amargo pela sua dificuldade insana. Escape From Tarkov leva essa dificuldade alguns patamares acima. E quando a vossa arma encravar obrigando a tirar a bala da câmara, enquanto estão debaixo de fogo, percebem que, se calhar este não é apenas mais um shooter como outro qualquer.

Tarkov é uma cidade assolada pela guerra, situada entre a Europa e a Rússia. Nela, os sobreviventes lutam, literalmente, para fazer face à adversidade, enquanto deambulam por ruínas e tentam fazer sentido no caos imposto pela lei das armas. Duas empresas paramilitares, a USEC contratada pela Terra Group pretende proteger actividades ilícitas na região, enquanto que a BEAR é contratada pelo governo Russo para investigar essas actividades. Nenhuma empresa parece ter os melhores interesses dos locais em vista, pelo que os mesmos reagem sempre da mesma forma: ao tiro.

No rigor, este título é um MMO de acção. Apesar de conter um modo offline que funciona um pouco como treino contra a IA, todo o progresso deste modo está bloqueado. Ou seja, só evoluímos a personagem e obtemos novo equipamento se jogarmos online em servidores públicos, com ou sem IA à mistura. E isto destaca-o logo de outros jogos que este nos pode fazer recordar. Sim, a premissa é praticamente a mesma de S.T.A.L.K.E.R. e até de outros jogos como Metro 2033, nem que seja pela sua ambiência. Mas, aqui não há monstros nem radiação para lidar. Contudo, há ainda alguns elementos ainda envoltos em algum mistério, podendo a produção ainda a reter alguns “trunfos na manga”.

Também não há grande convite à acção a solo como neste jogo. Como qualquer outro MMO, a componente cooperativa e competitiva não pode ser ignorada. Bem podem tentar jogar a solo, mas passarão um mau bocado. Tanto no modo de jogo base de fugir da cidade, como no novo modo “Scavs” para atacar zonas repletas de IA, é melhor juntar a um grupo ou clã para jogar cooperativamente. Confesso que não foi muito fácil angariar jogadores para um grupo ou juntar-me a um já existente para jogar de forma cooperativa. Não há muita gente ainda a jogar Escape From Tarkov. A Alpha está restrita a convites e a jogadores que já tenham feito a pré-encomenda, por isso, não é fácil encontrar camaradas de armas para fazer uns raids. Penso que isso irá mudar quando o jogo chegar finalmente na sua versão final. Uma campanha a solo, segundo a produção, não está sequer planeada.

No modo de jogo base, no início até ficarão surpresos por ter tanto equipamento já no inventário e ao dispor. É possível que esta quantidade de hardware (e dinheiro) não exista no jogo final. Afinal, esta é ainda uma fase de testes Alpha e a produção pretende que testemos tudo o que o jogo tem para oferecer. Também só temos três áreas disponíveis para explorar, dos 10 cenários planeados. Contudo, não esperem facilidades com tanto equipamento e por surgirem quase sempre na mesma área. Até podem conhecer bem o mapa em causa, mas emboscadas e ratoeiras são uma constante nestes locais. Podemos até já conhecer o trajecto para uma das saídas da área, mas neste jogo convém não fazer muitas linhas rectas ou atravessar locais previsíveis. Se o fizerem, o mais certo é morrerem rápido.

Apesar de não existir no modo “Scavs”, no jogo base terão a infame “Perma-Death” para lidar. Se morrerem, voltam ao lobby perdendo tudo o que tinham, inclusive algum loot que tenham apanhado entretanto. Não sou particular fã desta lógica, mas entendo a necessidade desta mecânica para obrigar o jogador a evoluir com o jogo e a valorizar a sua vida, aprendendo com erros e a jogar de forma mais consciente. Aqui não se corre pelo mapa ou abre portas como se não houvesse amanhã. Há que ser cauteloso e cada movimento, escutar bem os ruídos das redondezas, usar equipamento de forma controlada. Por mais irónico que possa soar, apesar deste ser um shooter, disparar as suas armas é das últimas opções que terão. Mesmo com silenciadores, os tiros são dos ruídos que mais problemas vos trarão. Mas, acredito que poucos vão resistir a dar uns tiros com aquelas armas.

Escape From Tarkov é perfeito para os amantes de armas de fogo. Esqueçam tudo o que já viram em termos de personalização de armas. Todo o tipo de equipamento que possam imaginar para colocar numa pistola ou espingarda está presente. Punhos, lanternas, lasers, miras, tapa-chamas, coronhas, guarda-mãos, pegas, etc. Existem diversas armas diferentes além das clássicas AK-47 ou M4 para colocar toda a sorte de itens que encontrem ou comprem (com dinheiro virtual) na loja do jogo. E esta personalização quebra ainda mais o coração quando morremos e deixamos aquela M4A1 novinha com tantos gadjets para ser saqueada por algum meliante. Contudo, o tiro neste jogo é uma arte por si só. Não só terão de obedecer a uma balística muito realista, como é preciso ter em conta outros detalhes.

Como já disse, as armas neste jogo podem encravar com alguma frequência. Sobretudo as que apanharem de caixas ou de corpos de inimigos caídos. Esta é apenas mais uma dose de realidade. A arma não dispara? Carreguem na tecla para verificar se está uma munição encravada na câmara. Não está? Vejam se o selector está em “safe”, inibindo o tiro. E notem que todas as miras possuem um desfoque próprio, com alguns dos efeitos de lente mais realistas que jamais vi num jogo deste género. Fazer tiro à distância exige nervos de ferro para avaliar distâncias, compensar e escolher o momento certo. Há tanto em jogo que esse tiro terá de ser mais planeado até que uma simples movimentação. Temos de estar atentos a todos os pormenores, que só ficam ainda mais complexos à noite ou à chuva.

Não só as trevas inibem o reconhecimento de locais, por ocultar adversários ou obstáculos, como a chuva irá camuflar muitos dos ruídos que precisamos ouvir. Obviamente que isto também pode ser uma vantagens para nós. Foi nesta situação, à noite e com chuva, que fui melhor sucedido a solo. Cheguei mesmo a passar despercebido quando um grupo de três jogadores passaram por mim numa zona de mato. Desliguei lanterna, laser e até os óculos de visão nocturna, baixei-me na erva alta e resisti à tentação de alvejar um ou mais jogadores, garantindo-me a sobrevivência. Podem achar o que quiserem, mas são atitudes pacientes como estas que garantem que saem de Tarkov com vida e… com o vosso equipamento e loot.

E notem que não basta apenas saber quando disparar ou aguentar essa vontade. É preciso uma boa gestão de inventário, uma vez que temos mochilas e bolsos limitados. Este inventário é composto por slots de quadrícula e terão de “encaixar” os itens de forma apropriada. Não podemos carregar tudo o que encontramos e temos de escolher o que é mais útil para usar ou levar para vender depois da fuga. Também a pressão sanguínea que aumenta quando corremos, afectando a estabilidade da arma. Não podemos correr indefinidamente, reduzindo essa capacidade de forma drástica quanto mais peso carregamos. Se levarmos tiros, temos de nos curar ou iremos ter outras repercussões. Enfim, o desafio é constante para que não sejamos surpreendidos.

Contudo, existe uma evolução de personagem para tornar tudo menos complicado. Existem dezenas de habilidades para ir melhorando num esquema de evolução com base em pontos de experiência. Esta evolução garantirá que, gradualmente, ficarão mais aptos a sobreviver em Tarkov. E gostarão de saber que mesmo que morram e percam todo o equipamento, ainda assim ganham pontos de experiência ganha nessa sessão. Obviamente que o nível do equipamento também nos dá alguma vantagem no terreno, por isso não o percam na totalidade. Ter um colete e um capacete balísticos, dará uma maior vantagem nos confrontos, assim como uma boa mira numa arma. Por isso, há que fazer uma constante avaliação dos atributos e do equipamento para que não estejamos nunca em desvantagem.

Com tanto realismo e intensidade, neste jogo de acção na primeira pessoa com elementos hardcore o que mais saltará à vista é o visual geral do jogo. Apesar de muitos pormenores precisarem de um claro trabalho de optimização e melhoramento, Escape From Tarkov tem pormenores de incrível detalhe técnico. Começa nas já mencionadas armas, muito detalhadas e com um aspecto muito realista, mas também transparece para os demais modelos e texturas presentes nos cenários. Mais incríveis ainda são os efeitos visuais, com especial destaque para os efeitos de iluminação, seja dos sol ou da luz artificial, sobretudo lanternas. Aliando a isto uma sonoridade absolutamente fantástica, temos um jogo visualmente impecável, mesmo ainda numa fase Alpha do seu desenvolvimento.

Este jogo podia ser lançado já amanhã e não ficávamos desapontados pela qualidade gráfica e pelas mecânicas desafiantes. As imagens que apresentamos neste artigo são exemplares da qualidade actual do jogo, quase a tocar no fotorealismo. Contudo, ainda está longe de ser lançado. A produção ainda está a trabalhar no jogo ao nível de novo conteúdo, locais de exploração e aprimoramento de mecânicas. O seu fórum está repleto de pessoas com vontade de ajudar a Battlestate Games a trazer até nós um excelente MMO de acção com elementos RPG em potencial. Infelizmente, tanta exigência gráfica afastará PCs mais antigos. Também algumas quebras de performance e outras questões de optimização recordam-nos que este é um projecto ainda em produção.

 

Escape from Tarkov será um exclusivo para PC, mas ainda não tem data de lançamento disponível. Contudo, a equipa de produção aponta para um possível lançamento nos próximos meses. Diria que chegará lá para finais deste ano, início do próximo, dado o estado actual do jogo. Contudo, se quiserem já jogá-lo e ajudar na produção, ao pré-encomendar o jogo no site oficial, a versão mais barata custa apenas 34,99€ e dá já acesso à actual fase Alpha. Vemo-nos em Tarkov? Ou melhor… a fugir dela?

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